O ÚLTIMO UIVO DOS LOBOS
escrita por Raquel Assunção
Abertura
Capítulo 13
Cena 1- Delegacia. Escritório do Delegado Santana. Manhã.
Dona Mari e Miranda, acompanhadas por seus advogados, pressionam Santana para que encontre os culpados pela tentativa de homicídio que sofreram.
Dona Mari (revoltada): É um absurdo que nós, que somos pessoas tão importantes, tenhamos que nos humilhar pedindo o mínimo por parte de vocês! Nós exigimos justiça.
Miranda (demonstra escárnio): Exatamente. Isso é uma falta de respeito. Nós somos cidadãs honestas, que cumprimos com nossos deveres, pagamos nossos impostos, e até agora nada de encontrarem quem nos perseguiu! Agora para me prender injustamente vocês agiram rápido, não é ?!
Delegado Santana: Eu peço calma e compreensão das senhoras. No mesmo dia em que isso lhes passou, uma colaboradora nossa também sofreu um ataque. Nós estamos nos esforçando para esclarecer ambos os casos o mais rápido que pudermos.
Júlia entra na sala.
Júlia: Foi inevitável ouvir essa baderna. Quero esclarecer que a senhora (p/ Miranda) foi presa porque tínhamos provas contra, e não foi uma prisão injusta. E como meus colegas já esclareceram, eu também fui vítima de um ataque que poderia ter sido brutal, então, só peço paciência. Os casos não vão ser resolvidos do dia pra noite.
Dona Mari (com ódio): Ah, mas é claro. Tinha que vir a Santa Júlia das causas perdidas, não é ? A investigadora da polícia civil mais incompetente que Belo Horizonte já viu. Vamos, Miranda, já demos nosso recado.
Mari, Miranda e seu advogado vão se retirando da sala, Júlia reage se defendendo e alterando o tom de voz.
Júlia: Ôh sua vadia velha,vem aqui! (fala mais alto) Volta aqui pra eu te dar uma lição!
Cena 2- Apartamento de Júlia. Varanda. Ext.
Angélica fala ao celular em tom misterioso.
Angélica (ao celular): Eu não vou mais te ajudar em nada! A minha filha foi atacada! Você tem noção disso ? Acabou! A Júlia poderia ter morrido. E nada me garante que não foi você quem fez isso… Te ajudei em todas as suas loucuras, mas cheguei no meu limite. Não dá mais, tudo ficou muito perigoso… Adeus!
Cena 3- Apartamento de Lorena. Sala de estar/hall de entrada. Int.
Júlia e Safira conversam com Loreta, se passando pela irmã. Augustine está à espreita, colaborando com a farsa da “amiga”.
Júlia: Lorena, nós sentimos muito pela sua perda, e queremos sua colaboração para esclarecer o mais rápido possível o que aconteceu. O seu carro foi sabotado, isso você já sabe, mas nós -
Loreta: Mas isso é trabalho de vocês, eu não tenho nada com isso.
Safira: Lorena, nós sabemos que você está enfrentando uma dor muito grande, mas-
Loreta: Ah, meu bem, vocês não sabem nada. Investiguem e pronto, eu não tenho nada a colaborar.
Júlia (perdendo a paciência): Olha aqui, minha filha, a pobre coitada da Loreta era sua irmã, não é possível que você não tenha nenhum sentimento por aquela menina. Ela foi morta! E você poderia ter morrido nesse acidente. Os freios foram cortados! Seja lá quem fez isso, queria te prejudicar, você era o alvo!
Augustine: Lorena, não seja antipática com a polícia. Colabore!
Lorena: De que forma posso ajudá-las?
Júlia: Você distribuiu convites, foi na Delegacia me importunar sobre um evento, e disse que resolveria o caso Gregório de Medeiros. Afinal, o que você sabia ? E quais foram os seus convidados ?
Loreta (fica nervosa, ela não sabia nada sobre): Éhh… Bom… Eu, na verdade, seria uma festa para relembrarmos a memória do Gregório. O meu Grego.
Safira: Peraí, você ia fazer uma festa, onde você convidou metade de Belo Horizonte, inclusive a polícia, pra isso ?
Loreta: Sim, algum problema ?
Safira: E quem você convidou ?
Mais uma vez ela não sabe o que responder.
Júlia: Eu realmente não te entendo, Lorena. Alguém queria te matar, você sabe de algo relacionado a morte do Gregório, foi isso que você usou para se promover. O que você sabe sobre o que aconteceu na noite do crime ?
Loreta: Já chega, eu já expliquei tudo. Foi uma grande brincadeirinha da Lorena! (tenta rir em meio ao nervosismo) Pois é, agora, por favor, vão embora, eu não estou me sentindo bem.
Júlia: Tá bom, nós vamos. Mas não iremos abandonar esse caso. Uma inocente morreu por sua irresponsabilidade. Também não acredito nessa justificativa barata.
Corta para a rua.
Júlia e Safira caminham em direção a seu carro, Renan vem à Júlia e a para.
Safira: Conversinha de casal agora não…
Júlia: O que você quer ?
Renan: Júlia… Eu cansei disso tudo. Vamos ficar juntos! Eu te amo.
Júlia: Ai não, cara, sai dessa. Fica com essa maluca dessa Lorena que é igual a você.
Safira e Júlia entram no carro, Renan as encara.
Cena 4- Horas mais Tarde. Noite. Palácio da Liberdade. Ext/Int.
A noite chegou, e com ela há uma aura escura, sombria, a sensação de que algo pode acontecer está presente. O anoitecer tomou conta do céu, a luz radiante do sol foi substituída pela exuberante lua.
“Houdini- Dua Lipa” acompanha as cenas de transição. Ruas da capital são mostradas, prédios onde a elite vive tem janelas iluminadas, trabalhadores correm para pegar seus ônibus, motos passam apressadas, carros formam trânsitos.
Num corte, o Palácio da Liberdade se impõe com toda sua beleza histórica, carros de luxo param e ricos da alta sociedade saem sorridentes, jornalistas registram o momento. Lázaro, acompanhado de sua filha Nathália e sua neta Doralice chegam ao evento. Honório e Augustine posam para fotos e por fim, Dona Mari e Miranda chegam para abrilhantar a noite.
Dona Mari: Miranda, pronta pra brilhar ?
Miranda: Eu nasci!
As duas trocam um selinho.
Lázaro, Nathalia e Doralice bebem uma bebida.
Nathália: Você viu, papai ? A Mari está aqui.
Doralice: É muita falta de vergonha.
Lázaro: A ignore.
Nathália: Eu realmente não consigo compreender como você pode ser tão frio… Nós somos tão diferentes, Lázaro.
Lázaro: Minha filha, a frieza é uma arma que poucos sabem usar.
Em outro canto, Honório e Augustine estão emocionados.
Honório: Está preparada, Augustine ?
Augustine: Pai… Eu me sinto tão estranha em meio a essas pessoas… Não me sinto parte deles.
Honório: Então passe a se sentir. Esse sempre foi o seu lugar.
Como numa cena tragicômica, Loreta chega ao palácio acompanhada por Renan. Os ricos da elite a julgam, “Jealousy Jealousy - Olívia Rodrigo” começa a tocar.
Influenciadora (chega gravando Loreta): Amiga!! Finalmente você chegou, estava com saudades de você.
Loreta (confusa): Ãhn ? Perdão, é que-
Loreta procura, com seus olhos perdidos, por Augustine, que debocha dela.
Augustine: Meu Deus, ela é patética. Um desastre.
Há uma troca de olhares e um sorrisinho contido entre Augustine e Renan.
Cena 5- Palácio da Liberdade. Salão Int.
Honório puxa sua filha para o alto da escada, numa espécie de palco improvisado, as luzes estão voltadas para eles, a iluminação os destaca. Toda a atenção dos presentes no evento se voltam para o milionário e sua recém descoberta filha. “Déjà Vu- Pitty” toca ao fundo.
Honório: Faz pouco tempo descobri que tenho uma filha… Essa descoberta mudou completamente minha visão de mundo. Ser pai sempre foi meu sonho, e agora finalmente o estou vivendo. Minha filha terá tudo que lhe foi negado pelas circunstâncias da vida. Será a maior dama da nossa sociedade ! Lhes apresento Augustine, minha amada filha.
Todas as atenções se voltam à Augustine. Ela tenta sorrir, mas sente-se tímida. Os convidados aplaudem a ação. Miranda encara a mulher com ódio.
Augustine: Prazer, me chamo Augustine. Conhecer o meu pai foi… Uma experiência avassaladora. Agora poderei restabelecer a minha vida. Recomeçar do zero. Talvez ser feliz, quem sabe. Boa noite e um bom evento para todos!
Augustine e Honório descem as escadas majestosos, elegantes, donos de si. Logo, alguns jornalistas os cercam, milionários colegas se aproximam.
Cena 6- Horas mais tarde. Palácio da Liberdade. Int.
Nathália já está bêbada, longe do olhar de seus responsáveis. Mari e Miranda não estão juntas, a ex- Castanhari Vasconcelos é abordada com truculência por sua ex-enteada.
Dona Mari: Nathália? Não sabia que aqui era o Alcoólicos Anônimos. Se bem que você não tem mais jeito… Deveria ter ficado pelo resto da vida naquele manicômio.
Nathália (levemente alterada pelo álcool): Ah, é ? E putas destruidoras de lares como você merecem o quê? Merecem ficar carecas, julgadas pelo PCC.
Dona Mari: Estamos em BH, não em São Paulo, minha queridinha. Agora, com licença!
Nathália a segura pelos braços.
Nathália: Nós ainda não terminamos!
Dona Mari: Estamos num evento, com presença de jornalistas e toda a sociedade. Tome cuidado com o que irá fazer.
Nathália (ameaçadora): E se eu fizesse um escândalo agora e expusesse que você teve um caso com sua suposta melhor amiga ? Que é uma sapatona salafrária ? E que vem arquitetando um engenhoso plano de vingança contra a minha família ? Você não ficaria bem na fita.
Dona Mari (com escárnio): Meu bem, todos sabem do seu histórico. Não é como se você fosse muito confiável. Você está no mesmo nível que o Léo Dias, sem nenhuma credibilidade.
Nathália: Eles podem até não acreditar em mim, mas eu posso fazer muito estrago na sua vida, sapo cururu dos infernos… Da última vez meu plano saiu errado, mas indiretamente atingi alguém importante para você!
“Imperador- Felipe Alexandre, Felipe Alexandre” se impõe com todo seu peso.
Dona Mari: Do que está falando ?
Nathália: A echarpe. Eu mandei a Doralice pegar no seu quarto e pus na cena do crime para te incriminar. Mas não deu certo, porque a peça era daquela puta da Miranda.
Dona Mari: Então… Você matou o Gregório ?
Nathália começa a rir e sai de perto da ex-madrasta pouco a pouco.
Cena 7- Tarde da Noite. Palácio da Liberdade. Ext.
O evento chegou ao fim, personalidades da mídia se despedem e vão embora com pompa em seus carros luxuosos. “Eyes without a face- Bily Idol” toca ao fundo como tema de Honório.
Honório e Augustine esperam o manobrista com seu carro enquanto conversam com alguns políticos.
Honório: Augustine tem uma ótima oratória. Com um bom investimento sai direto pra Brasília.
Dep. Federal 1: Ótimo… Precisamos da nossa cota trans mesmo! E sendo sua filha, melhor ainda.
Augustine: Cumprir cota ? Se ocorrer a filiação, que seja por quem eu sou, não pra inglês ver.
Deputada Federal 2: Não dê ouvidos à esse bobão, venha para o meu partido. Somos muito mais acolhedores.
Nesse momento, um carro chega com rapidez, duas figuras encapuzadas saem do carro armadas, atiram pra cima. “Vale da Morte- Eduardo Queiroz, Felipe Alexandre” está presente. As pessoas se assustam e correm, eles vão em direção à Augustine e Honório. Tentam sequestrar os dois, Honório defende a filha.
Honório (desesperado): NÃO! DEIXEM ELA! ELA CUIDA DO PAGAMENTO DO RESGATE, EU TENHO O DINHEIRO, ELA PAGA.
Os sequestradores continuam tentando levar os dois à força. Augustine tenta defender o pai, que repete os mesmos gestos. Honório se solta, investe numa luta corporal contra o sequestrador que estava levando sua filha. Augustine consegue se soltar e se põe a frente do pai, nessa hora um tiro é disparado, ela é atingida, as pessoas gritam pelo medo. Honório é puxado, desesperado vendo sua filha sangrando, e é levado no carro em alta velocidade.
Cena 8- No dia Seguinte. Apartamento de Lorena. Quarto de Lorena. Int.
O dia amanheceu num piscar de olhos. O céu está nublado, não há nuvens que enfeitem e o cinza predomina no horizonte. O apartamento da falecida Lorena está como sempre, com a mesma decoração, triste, vazio. “ Diabólica - Eduardo Queiroz” dá o tom da cena.
Loreta dorme com Renan no quarto da irmã gêmea. A polícia bate na porta, Loreta e Renan estranham. Ao abrir a porta, a surpresa;
Júlia: Lorena, você está presa!
Loreta (grogue de sono e chocada): O QUÊ ?!.
Cena 9- Casebre no Interior de Minas Gerais. Quarto. Int.
Honório está sentado numa cadeira, com os pés e as mãos amarrados, os olhos vendados, e ferimentos em sua boca e nariz são visíveis. Uma mão com luvas pretas surge em cena. Há uma vela em sua mão, passeia com ela pelo corpo dele. “Porões- Eduardo Queiroz” aterroriza em seu instrumental.
Honório: Para pelo amor de Deus.
A pessoa segue. A cera da vela derrete e cai no seu pescoço e no seu ombro, ele urra de dor.
Honório: AAAAAAAAH, PARA, JÁ CHEGA. NEGOCIEM COM A POLÍCIA. COM ALGUÉM. EU PAGO QUANTO FOR PRA SAIR DAQUI.
Nesse momento, a porta se abre. A câmera faz mistério. Caminha lentamente pelo piso, chega aos sapatos sociais, então levanta e revela Lázaro, com uma expressão monstruosa, um sorriso contido de satisfação por ver seu “amigo” sendo torturado.
Encerramento

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