VALE TODO O PEDAÇO - CAPÍTULO 06
criada e escrita por
SINCE, FAFÁ, NOVELEX E LARICE
(CENA 01: AGÊNCIA YESTERDAY/INT./TARDE)
SOLange está tomando um café na cozinha da agência. Maria de Fafá se aproxima da moça, como quem não quer nada.
Maria de Fafá: Bom dia!
SOLange: Bom dia, chéri!
Um silêncio constrangedor se instaura por alguns segundos.
SOLange: Desculpe a pergunta indelicada, mas foi na sua cara que eu peidei ontem?
Maria de Fafá: Foi sim… é exatamente por isso que eu vim até aqui, pra ter um pedido de desculpas seu.
SOLanGE: Meu Deus, eu estou até vermelha! Eu que deveria me desculpar! Sabe o que é? Eu comi uma feijoada que tá até agora revirando na minha barriga.
Maria de Fafá: Feijoada? Podre de rica e comendo feijoada?
SOLange: Podre eu tô, mas rica, cherri? Eu não sou rica nem de longe hahaha.
Maria de Fafá (sussurrando): Podre é esse peido fedorento que queimou os pelos do meu nariz
SOLange: Eu estou me sentindo mal pelo que eu fiz, queria me desculpar de uma maneira melhor. Gostaria de ir à praia comigo? O Bacalhau, não sei se você conhece, não vai poder ir, está viajando para terminar um projeto em Ratanabá. A sua companhia caiu em uma ótima hora.
Maria de Fafá: Você me convida para ir à praia contigo? É claro que eu aceito!
SOLange: Sim, chérri. Pra gente espairecer, curtir o céu, olhar os homens de sunga… ops… sou noiva.
Maria de Fafá: Ai, que delícia. Tá! Isso quando?
SOLange: Agora mesmo, querida. Não quero mais trabalhar por hoje, CHEGA!
SOLange fecha o notebook com força.
Maria de Fafá: VAMOS!!!
SOLange: Me espera só um minutinho na portaria que eu preciso ir no banheiro urgente!
SOLange entra no banheiro e todos da agência começam a escutar aqueles barulhos parecidos com os áudios da Newmfx. 💨
(CENA 02: CASA DE BUCÊ/INT./TARDE)
Larica está com uma bacia na mão, rodeada de ingredientes. Ela está batendo uma massa, segurando a bacia apoiada em sua barriga.
Dona Bucê e Vikitney se aproximam.
Bucê (perguntando): O que cê tá fazendo, Larica?
Larica (sorrindo): Ah, oi Dona Bucê. Desculpa tá invadindo a sua cozinha assim, mas eu consegui um dinheirinho e comprei uns ingredientes. Eu tive uma ideia.
Vikitney (curiosa): Ideia do que? Ain decidiu fazer uns petiscos pra gente?
Larica: Não exatamente… eu decidi vender bolo, vai ser dessa forma que eu vou conseguir crescer aqui.
Dona Bucê: Mas que ótima ideia, Larica da Paz! Eu adoro bolo. Se deixar eu como bolo de dia, de tarde, de noite…
Vikitney: Larica, mulher, tira esses bolos do rumo da Bucê senão essa velha come tudo. Não atoa tem essa barriga aí.
Dona Bucê: Menina, olha o respeito! Minha barriga é a tireóide. Continua, Larica. Como você vai fazer isso.
Larica: Eu arranjei um carrinho com a ajuda do Ivanlac. Vou passar vendendo nas ruas do Rio. Nos pontos mais frequentados da cidade… Eu vou conseguir vencer, vocês vão ver!
SONOPLASTIA: CHEIA DE MANIAS - RAÇA NEGRA
Cenas do Rio de Janeiro começam a aparecer. O dia passa e um novo amanhece.
(CENA 03: RUA/MANHÃ)
Larica empurra um carrinho improvisado pelas ruas do RJ levando seus bolos dentro dele. Para chamar a atenção dos clientes, ela grita:
Larica: Ó O BOLOOOOOO! Ó O BOLO DA LARICAAAA!
Cliente: Qual o valor desse?
Larica: Esse é dez reais, meu anjo.
Cliente: Tudo isso? Meu Deus, que absurdo!
Larica: Se não gostou volta pra casa e faz, querido! Tá duro, dorme! A única coisa dura que eu gosto é pica.
Cliente: Tu vai ver meu duro!
Larica: Depois, na rua não pode! 🤤 Dá licença! Se bem que você é feio, né. É grande? Se for pequeno… é pequeno?
Cliente: 16 centímetros
Larica: ASSÉDIOOOOOOO, SAI DAQUI ORDINÁRIO! LIXO! VAI PRA CASA DO CARALHO IMBECIL! POBRE! Ou você sai ou eu passo por cima de você com esse carrinho!
Cliente 2 (passando e rindo): Isso daí parece uma carroça de 1920, dona.
Larica: CARROÇA É A TUA MÃE! E QUEM DEVIA TÁ CARREGANDO ELA NAS COSTAS ERA VOCÊ SEU JUMENTO!
Cliente 2: CARACA CARA!
Larica começa a chorar de raiva, sentando no chão dramaticamente e pensando em desistir. De repente chega clientes querendo comer os bolos.
Cliente 3: Meu nome é Diana Cristina de Medeiro, eu sou lésbica, só gosto de mulheres. Quero bolo, tem de que?
Cliente 4: Olá, gostaria de um bolo.
Cliente 5: Ai, ui, ai quero, ui bolos, ai tem de, ui que?
Larica sorri, contente.
SONOPLASTIA: CHEIA DE MANIAS - RAÇA NEGRA
Larica: Calma, calma, tem bolo pra todo mundo!
Em vários takes, a cena mostra Larica distribuindo bolos para todos os seus clientes, que pagam e saem satisfeitos.
Larica (contente): Muito obrigada meu Deus! Nem tô acreditando! Agora, preciso vender o restante… já sei.
Larica anda até a praia, crente que vai vender mais bolos. A protagonista volta a ficar esperançosa. Cortamos para a praia, ao som de “I Lied, I’m Sorry - Chole Qisha”. O movimento é constante, com pessoas tomando sol e alguns ambulantes vendendo água, quentinha e milho. No meio das pessoas, Larica vende seus bolos e faz sucesso.
Larica (gritando): OLHA O BOLOOOOOOOOO, BOLOS DA LARICAAAAAAAAAA!!!
Em outro ponto da praia, SOLange e Maria de Fafá estão sentadas na areia enquanto conversam.
Maria de Fafá: E a festa em Angra? Vai ser tudo!
SOLange: Vamos comemorar os 50 anos da yesterday em grande estilo.
Maria de Fafá: Você é simpática, sabia? Te achei super metida quando te vi a primeira vez.
SOLange: Nossa, sério? Eu achava você uma baranga.
Maria de Fafá: Que?
De repente, Larica surge ao lado delas vendendo bolos a algumas pessoas. SOLange a vê de costas e decide chama-lá.
SOLange: (chamando) Ô boleira! Boleira, venha cá! Boleiraaaa! Ela é surda?
SOLange tira um megafone de sua bolsa.
SOLange: EI SUA PROSTI- quero dizer… BOLEIRA, VEM AQUI!!
Larica da Paz finalmente escuta, se vira e vai em direção à SOLange. Ao virar, Maria de Fafá a encara, assustada e com os olhos arregalados. Larica ainda não viu a filha, pois está olhando apenas para SOLange.
Larica: Desculpa, não te ouvir, é que tem muito gente… enfim, vai um bolinho de ricota?
SOLange: Clairo! A minha amiga quer também, não quer, Fafá?
Obrigada a virar o rosto, Maria de Fafá acaba olhando para Larica, que a encara imediatamente.
Larica (atônita): Você?!
SOLange: Vocês se conhecem?
Maria de Fafá (cortando qualquer tentativa de resposta de Larica): Claro que não. (Ri) Você acha mesmo que eu ia conhecer alguém que vende bolo na praia, SOLange? Me poupe! Essa gentinha falta agarrar no pescoço do pessoal em troca de centavos.
SOLange: Ué, nunca se sabe. Esse Rio de Janeiro é um ovo, e pelo jeito que a moça falou… enfim. Você vai querer um, Fafá?
Maria de Fafá (encarando a mãe): Não. A única coisa que eu quero é viver a minha vida em paz!
Larica (para SOLange. frustrada e direta): Você vai querer de que? Tem de cocô e tem de ricota!
SOLange: Quanto é?
Larica: Dez reais.
SOLange (entregando o dinheiro): Tá aqui, olha.
Maria de Fafá (encarando): Dá uma esmola pra ela, SOLange. Parece que a senhora tá precisando muito.
SOLange: Esmola? Mas que ideia, Fafá. Não se dá esmola pra sanduíche!
Larica (rindo de nervoso): Esmola? Vende-se bolo na praia quem quer ganhar a vida honestamente, coisa que não é todo mundo que tem peito pra fazer.
Larica aperta os peitos com força.
SOLange: Vem cá, qual o seu nome?
Larica: Larica. Larica da Paz! Tá no carrinho. Não tá vendo?
Larica encara Maria de Fafá por alguns instantes e se vira, indo embora.
SOLange: O clima pesou aqui hein.
Maria de Fafá: Tô achando um saco essa praia, viu? Me arrependi de vir. Tô achando que eu vou pra casa, vê se eu durmo um pouco. Essa boleira aí conseguiu me irritar.
SOLange: Hmmm, mas esse bolo está uma delícia! Acho que sou eu quem estou precisando conhecer essa moça, sabe?
Maria de Fafá: Que? Tá falando do quê, garota? Você não precisa conhecer mais ninguém, ainda mais uma pobretona como aquela.
SOLange: Fiquei com pena dela, parece ser humilde… talvez ela possa trabalhar na festa em Angra pra tirar uns extras…
Maria de Fafá encara SOLange com uma certa preocupação. A cena corta e mostra Larica andando pra longe e chorando.
SONOPLASTIA: INSTRUMENTAL DRAMÁTICO ISSO AQUI É O QUE É - CAETANO VELOSO
FLASHBACK - INÍCIO
Maria de Fafá (encarando): Dá uma esmola pra ela, SOLange. Parece que a senhora tá precisando muito.
FLASHBACK - FIM
Larica (sussurrando, olhando para o céu): Oh Deus, eu tenho fé que vou vencer! Eu vou! E elas vão voltar pra mim de joelhos! Pode demorar dias, meses, anos. Mas vão!
O instrumental cresce com o acréscimo de violinos. A câmera fecha no rosto de Larica. As pessoas reparam a mulher falando sozinha e estranham.
ABERTURA:
VINHETA DE INTERVALO (VOLTA):
(CENA 04: LCA/INT./TARDE)
O prédio é alto, chique e espelhado, no formato da letra L. Ivanlac salta do táxi e entra no edifício. Ele ajeita o terno e sobe pelo elevador.
Ivan espera por alguns minutos para realizar a entrevista, suas mãos estão suadas, ele está ansioso.
A cena corta para uma sala dentro do escritório. Ivan está sentado em frente a um contratador.
Homem: Então o senhor tem experiência nessa área? Uhum. Bom, não vou mentir, o seu currículo se encaixa perfeitamente no que estamos buscando. Mas eu gostaria de saber uma última coisa, o senhor vai votar em quem nas eleições desse ano?
Ivanlac: É… bom, ainda est-
Homem (cortando): Não vai me dizer que não sabe. Não seja burro de votar no Lula né, chega dessa corrupção do PT no país.
Ivanlac (dissimulando): Naaaao, claro que não! Deus nos livre de mais quatro anos do PT no comando. É claro que meu voto é no Flávio Bolsonaro.
Ivan ri juntamente ao contratador. Eles se levantam e apertam as mãos.
Homem: É isso aí! Bom, Ivanlac. Fique atento que iremos entrar em contato o mais breve possível!
Ivanlac: Muito obrigado pela oportunidade.
Ivanlac sai da sala. Ele vai em direção a recepção do andar.
Laydeíde (lixando as unhas): E aí? O que achou? Cê acha que se saiu bem?
Layanlac: Mais ou menos. Ainda meio nervoso, sabe? Mas eu confio que vou conseguir a vaga.
Laydeíde: Estou torcendo por você, viu? Mas e aí? Ele fez a famosa pergunta? “Lula ou Bolsonaro?”
Ivanlac (se aproximando): Cê acredita que ele fez uma pergunta parecida?
Laydeíde (rindo): Ah, eles sempre fazem! E qual foi?
Ivanlac: Em quem eu ia votar esse ano, se no Lula ou no Flávio Bolsonaro.
Laydeíde: E você respondeu o que?
Ivanlac: Deu pra sacar claramente que ele era bolsonarista né. Respondi que no Flávio.
Laydeíde: Ainda bem! Todos dessa empresa são bolsominions. Quer dizer, todos não, os que tem cargos mais altos. Foi bom você ter respondido isso. O importante é que no off, a gente odeia essa corja.
Ivanlac: É isso aí! Mas desculpa a indiscrição, mas eu acho que te conheço de algum lugar…
Laydeíde (sorrindo): É lá da Tijuca… a gente já se viu por lá, sou irmã do Polixana.
Ivanlac: Ahh, claro! Como eu pude me esquecer… Me desculpa mais uma vez. Bom saber que seremos colegas de trabalho.
Os dois sorriem e Ivanlac se despede. A cena corta para imagens do Rio de Janeiro.
SONOPLASTIA: NOTHING BREAKS LIKE A HEART - MILEY CYRUS, MARK RONSON
(CENA 05: YESTERDAY/INT./TARDE)
Ao som da música citada acima, a cena mostra Nô sendo fotografada em diversos cliques no estúdio da Yesterday. A vilã ambiciosa posa em diferentes figurinos a cada take. Sin é a responsável pela direção de fotografia, ajustando cada pose e expressão de Nô.
Sin: Arrasou, Nô! Não botava fé em você, mas até que está se saindo bem, honey.
Nô: Você acha que eu estou indo bem? Claro, meu amor. Eu nasci para isso!
Sin: Ah, claro que nasceu. Disso eu não tenho dúvidas. Mas vem cá, você já deu início a compra de seguidores fakes que a gente conversou aquele dia? Não pode demorar, darling. A sua carreira depende totalmente deles.
Nô: Ai, ainda não comprei. Espera um tempinho que já compro, não tenha pressa
Sin: Querida, não é questão de ter pressa. Ou você compra os seguidores, ou vai ter que se contentar a ter apenas uma migalha de visualização no seu perfil e um átomo de dinheiro entrando na sua conta. E aí, infelizmente, querida, eu não vou poder ficar com você aqui na agência. Eu não trabalho de graça!
Nô: Não, não, não! Tá bom! Eu compro esses malditos seguidores, eu preciso dessa grana e fama o mais rápido possível. Eu faço o que for preciso para ter reconhecimento
Sin: Ótimo! Que bom, honey, fico com a alma hidratada ao ouvir isso.
Nô: Mas vai crescer visualizações mesmo? Não quero gastar meu dinheiro atoa. Eu zelo muito pelo meu dinheiro, sabe…
Sin: Confia que vai! Caso o contrário, o problema é você…
Nô fecha a expressão rapidamente, Sin se afasta um pouco. A vilã fica pensativa.
Nô (pensando): Amanhã eu compro essas porcarias falsas, espero crescer rápido como o prometido! Mulherzinha chata essa Sin, cruz credo!
Sin: Esse é o espírito, Darling! Confia no processo e verá os resultados, eu prometo que aqui é só sucesso! Vamos surrar as concorrentes! Tipo a sua irmã.
Nô (sorrindo enquanto pensa nessa possibilidade): Ah, ótimo! Mas espero que ela não fique no fracasso também, porque assim eu pego um pouco do dinheiro dela. Irmãs são irmãs, querida
Sin (ri, sem graça): Ah, old! Claro! Vem, vamos tomar um drink pra comemorar mais um dia de trabalho!
Nô: Claro, mor. Um brinde ao meu futuro sucesso! Haha!
O instrumental cresce, a câmera foca no rosto de Nô e no rosto de Sin, com uma expressão parecendo que cheirou peido.
CONGELAMENTO EM NÔ.
