VALE TODO O PEDAÇO - CAPÍTULO 11
criada e escrita por SINCE, FAFÁ, NOVELEX e LARICE
(CENA 01: PÍER/EXT./NOITE)
Ela vira uma taça inteira de espumante, nervosa. Cubinho começa a tocar Pela Luz Dos Olhos Teus no piano. Em poucos segundos, o silêncio toma conta do público e todos prestam atenção no pianista. A platéia se emociona com a melodia e começa a cantar a letra da música.
Frégis: Esse cara é bom, hein!
Sin (emocionada): O jeito que ele toca… me remeteu às siriricas que eu faço às vezes.
Cubinho começa a sentir a emoção da canção. A música corre pelo seu sangue e os seus batimentos mudam. Ele fecha os olhos e apenas permanece tocando, sentindo o som, sem olhar em volta, sem nem olhar as teclas que toca. De repente, suas mãos param. Ele leva a mão direita ao ombro esquerdo, sem conseguir respirar, e cai duro no chão, se debatendo. Todos observam assustados, sem entender nada. Rodnato sobe correndo no palco, desesperado, e se ajoelha diante do seu amado que está morrendo.
Rodnato (desesperado): CUBINHO, PELO AMOR DE DEUS! RESPIRA MEU DEUS, RESPIRA! É SÓ RESPIRAR!
Maria de Fafá (apreensiva): O que tá acontecendo com meu pai?
Nô: Ai, é só um chilique. Deve ser aquelas palhaçadas artísticas.
No palco, várias pessoas se juntam ao redor de Cubinho e tentam ajudá-lo.
Nô: Quanto escândalo! Gente do céu, parece que seu pai teve um piripaque mesmo
Maria de Fafá: Meu Deus, Nô! Mas eu tenho que fazer alguma coisa. É meu pai!
Nô: Você está louca? Fique aqui, finja que ele não existe! Ou você simplesmente decidiu que vai deixar claro para todos que é filha de um pianista retardado viado desgraçado? (Gíria regional)
Maria de Fafá: Ele é ser humano! É uma vida ali, independente se é pobre ou não!
Nô: O problema é dele, Fafá! Os tempos são otros. amori! Os filhos não tem que se importar com os pais. Ponto final!
Maria de Fafá: Vou me conter, não sei se vou suportar, mas vou tentar…
Enquanto isso, Cubinho é levado para o hospital numa ambulância. Na cozinha, Larica fica sabendo do acontecido por uma colega de trabalho e se desespera.
Larica: O Cubinho? Meu Deus, o homem esbanja saúde por aí… que Deus cuide dele. Apesar de tudo, ele é uma ótima pessoa e um ótimo pai para a Maria de Fafá. Pena que não foi um bom marido…
(CENA 02: MANSÃO ROITMAN/INT./NOITE)
Pimeugênio encara Susuana desconfiado, esperando uma explicação.
Pimeugênio: Vamos, estou esperando uma explicação!
Susuana: Bom é que… é que eu… é que… Eu quis me certificar de que não havia nenhuma bebida alcoólica no quarto da dona Raquel, sabe? Eu mal entrei nessa casa, mas já sinto o coração protetor de mãe, pronta para proteger meus patrões. No convento, onde fui criada, eles ensinavam isso.
Pimeugenio: Ah, e ensinaram a sair mexendo nas coisas dos outros?
Susuana: Oh, minha Nossa Senhora das Cadelinhas de Madame! Claro né, se eu queria saber se tinha alguma coisa nas coisas dela eu preciso mexer nas coisas dela!
Pimeugênio: Pois não faça mais isso! A senhorita não tem direito nenhum de mexer nas coisas da patroa sem permissão. Agora vá para a cozinha, que é o seu lugar!
Susuana: Machista! Meu Deus, que mundo doido é esse? Um gay, cadelinha de gente rica privilegiada, querendo falar onde uma mulher conservadora deve ou não deve estar!
Pimeugênio: Conservadora? Conservadia!
Susuana se enfurece e arma um tapa com as mãos, prestes a dar na cara de pimeugenio, mas consegue se controlar.
Susuana: Saia daqui, sua mulher masculina
Pimeugênio: Isso não vai ficar assim!
Susuana: Você vai me bater? É só isso que falta! SAIA DAQUI LOGO! E nem pense em contar à sua sinhá, pois eu sei muito bem dos seus segredinhos. Beijos.
Pimeugênio: Segredinhos? Que segredinhos?
Susuana: Eu sei que você fica bisbilhotando as revistinhas da sua patroa, amor. Eu vi.
Pimeugênio: Mas isso é uma acusação falsa, calúnia!
Susuana: Sendo calúnia ou não, quem vai julgar é a senhora. Você está nas minhas mãos, depósito.
Pimeugênio: Sim sim, verdade linda. Mas não se esqueça, que todo mundo tem um segredinho escondido. E você, aparentemente, também tem. Passar bem.
Pimeugênio sai vitorioso, enquanto Susuana tenta controlar sua raiva.
(CENA 03: PÍER/COZINHA/NOITE)
Enquanto Larica prepara alguns pratos, SOLange entra na cozinha para visitá-la.
SOLange: Oii, linda! E aí, tá gostando? Se precisar de alguma coisa, estou à disposição, viu? É só falar.
Larica: diguedigue iê, digiedigie iê iê. Ai desculpa, tava aqui cantando Raça Negra. Tô gostando sim, flore, só achei que a cozinha era de luxo, mas isso aqui é um muquifo. Ali ó, um rato passando!
SOLange: Sin ceridade é o que não falta em ti, né?
Larica: Eu sou honesta! Fui criada pelo meu pai assim, e criei minhas filhas assim também.
SOLange: Você tem filhas? Que tudo, quero conhecê-las!
Larica: Na verdade, acho que não vai ser possível. É que eu não sou daqui do Rio, sabe? E minhas filhas não vieram junto comigo.
SOLange: Elas decidiram não vir?
Larica: Não é bem assim, na verdade… Enfim, não quero tocar nesse assunto.
SOLange: Tá bom então, não vou insistir. Mas quem sabe um dia eu não conheça elas, não é?
Larica: É…
Larica liga o liquidificador para encerrar a conversa.
SOLange: Tá, eu vou indo, chérri!
SOLange lança um beijo bafudo e se retira. Larica respira fundo e fica com um semblante depressivo
Larica: Quando será que elas vão voltar? Eu acredito que as minhas filhas vão voltar, eu acredito. Será que a Maria de Fafá já ficou sabendo do Cubinho?
(CENA 04: CASA DE DONA BUCÊ/INT./NOITE)
Dona Bucê está sentada no sofá enquanto vê vídeos no Karay, de repente, um vídeo sobre bolos aparece em sua for you, a velha derruba uma baba em seu dispositivo móvel.
Dona Bucê (gritando): VIKTNEY, VOCÊ TÁ AÍ?
Viktney: Tô bem aqui.
Dona Bucê (assustada): Ai, desgraça! Que susto, hein! Sabe que sou idosa, sou uma mulher independente e não preciso de uma mulher atrás de mim, doida. Enfim… Por que você não ajuda a Larica vendendo bolos? Ela fazendo tudo sozinha fica meio pesado, não acha?
Viktney: Ah, e porque a senhora também não ajuda em vez de ficar com a bunda nesse sofá o dia inteiro?
Dona Bucê: O sofá é meu, querida. Eu olhei, gostei, serviu e comprei com o meu dinheiro! Agora voltando aos bolos, o bom é que assim você impressiona aquele seu bofe, aquele com bigode de puto
Viktney: Quem? O Vibel? Ele não é nada meu, Bucê! É só um amigo
Dona Bucê: Amigo de cu é rola.
Viktney: Ai, nossa, você é ridícula!
Dona Bucê: Suave como um furacão, tranquila como um vulcão, se joga no vulcão! Não, ninguém segura!
Viktney: Tá dizendo que você é um vulcão? Uma velha dessas? Tá bom…
SONOPLASTIA: SÓ O AMOR - PRETA GIL, GLÓRIA GROOVE (INSTRUMENTAL)
Dona Bucê: Querida, você não conhece a mulher que eu sou, haha. Talvez, você descubra daqui a algum tempo, tipo se eu roubar o seu bofe pra mim. Não dê mole, amada!
Viktney: Velha safada. Bem que o povo da igreja fala
(CENA 05: HOSPITAL DE ANGRA/INT./NOITE)
Rodnato, apreensivo, anda de um lado para o outro na sala de espera. Maria de Fafá chega sorrateira, se aproximando calmamente do homem.
Maria de Fafá: Ei, psiu! Você que é o peguete do Cubinho, né?
Rodnato: Sim, sou eu. E você, é quem?
Maria de Fafá: Sou uma amiga, apenas. Vi ele passando mal no evento e decidi ver como ele está.
Rodnato senta em uma cadeira e suspira.
Rodnato: Olha, se você for da imprensa…
Maria de Fafá: Imprensa? E eu lá tenho cara de fofoqueira? Eu tô real preocupada com ele, só queria uma notícia, sei lá.
Rodnato: Eu ainda não sei de nada também. Eu pergunto para os médicos e enfermeiros, e ninguém consegue me dizer o que está acontecendo lá dentro.
Um médico entra na sala, e se aproxima dos dois.
Dotô: Vocês são os parentes do infartado?
Maria de Fafá (se desespera): Infartado? Meu pa… digo, o Cubinho teve um infarto, é isso?
Rodnato: Sim, somos nós.
Dotô: Infelizmente eu não trago boas notícias… O Cubinho teve sim um infarto, e foi muito grave… Foi fatal. O senhor Cubinho infelizmente não resistiu.
Rodnato (desabando): O QUÊ? NÃO, ISSO É MENTIRA! É MENTIRA!
Rodnato cai de joelhos no chão, aos prantos. Maria de Fafá põe a mão no rosto, tentando não deixar escorrer lágrimas.
Rodnato: Não… não, isso é um engano! Isso só pode ser um engano doutor! O Cubinho é saudável, faz exames quase sempre… Você está mentindo pra gente!
Dotô: Sinto muito, mas essa é a verdade. Agora basta aguardar o corpo ser liberado para o velório.
O médico se retira, desfilando, e Rodnato solta um grito de dor que ecoa por toda Angra dos Reis.
(CENA 06: PÍER/COZINHA/INT./NOITE)
Larica está sozinha, arrumando a cozinha depois do fim do movimento. Ivanlac chega cautelosamente por trás dela, dando um susto em sua amada.
Larica: AI! QUE ISSO? UM ASSALTO?
Ivanlac: Quem fez um assalto aqui foi você, que roubou meu coração. Uma ladra de qualidade
Larica: Não faz mais isso, menino! Quase que eu infarto aqui.
Ivanlac: Por falar em infarto, você viu o que aconteceu com o Cubinho?
Larica: Vi. Ai meu Deus, eu to muito preocupada! De verdade, não desejo isso para o meu pior inimigo.
Ivanlac: Ele vai ficar bem, não se preocupe! O que você acha de nós darmos uma volta para espairecer?
Larica: Pode ser! Vou só terminar de organizar aqui e nós vamos.
Ivanalac: Tá bom!
Larica volta a arrumar a cozinha enquanto Ivanlac a observa com um olhar apaixonado.
SONOPLASTIA: CAJU - LINIKER
(CENA 07: PRAIA/NOITE)
Larica e Ivanlac andam de mãos dadas à beira do mar, no meio da escuridão noturna. Os ventos fazem seus cabelos voarem, e as roupas se movimentarem.
Ivanlac: Mas e aí, como foi o dia trabalhando aqui? Gostou?
Larica: Olha… eu amo cozinhar, amo ficar na cozinha, mas aquilo lá não pode ser chamada de cozinha nunca! Muquifo brega, tinha ratazana passando pra lá e pra cá toda hora.
Ivanlac: Acho que você deveria abrir a sua própria cozinha, o seu canto onde você não tenha que passar por esses perrengues.
Larica: Ah, não penso nessas coisas, sabe… sou uma pessoa bem modesta e humilde.
Ivanlac: Você é talentosa, é uma cozinheira e confeiteira de mão cheia. Eu aposto que, se você fizer isso, vai se dar muito bem!
Larica: Sabia que ninguém tinha me falado isso antes? Você é o primeiro homem que me fala essas coisas…
Ivanlac: Pois isso é um pecado, você é ótima! Deveria ter ouvido isso de todos os homens que já conheceu.
Larica não diz nada, apenas abaixa o olhar, sem graça. Os dois se encaram fixamente, visivelmente apaixonados.
Ivanlac: Quer continuar isso em outro lugar?
Larica: A pousada onde estou é bem perto daqui…
Ivanlac sorri e a pega no colo, indo na direção do prédio luminoso ao lado da praia. Corta para eles na pousada, a sombra mostra eles se amando enquanto a lua brilha lá fora.
(CENA 08: HOTEL/QUARTO/INT./NOITE)
SOLange faz sua skincare noturna em frente ao espelho do banheiro. João Mateus está deitado na cama, pensativo.
João Mateus: Poxa, eu mal vi você hoje. Achei que você ia tirar esse fim de semana para nós…
SOLange: Ai, meu bem, você sabe que eu vim aqui a trabalho. Sou eu quem estou organizando esse evento. Estou completamente atarefada.
SOLange fecha o potinho do seu creme e vai até a cama, deitando do lado do seu namorado.
SOLange: Prometo que eu compenso isso futuramente. Acho que a gente podia pegar um fim de semana e ir para um lugar bem paradisíaco.
João Mateus: Você sabe que eu só fico excitado depois de receber muito carinho (desabafo hétero). Eu preciso de atenção, meu amor, sou especial.
Ao olhar para o lado, ele nota que SOLange está dormindo e deixou ele falando sozinho. João Mateus apenas desliga o abajur do lado da cama e se vira para dormir, triste.
(CENA 09: POUSADA/QUARTO DE LARICA/INT./NOITE)
Ivanlac e Larica estão deitados nus na cama, apenas com um lençol branco enrolado em seus corpos suados. Os dois trocam beijinhos e carícias enquanto conversam.
Ivanlac: Sabia que você é muito especial?
Larica: Você é mais. Sabia que nunca passou pela minha cabeça, a gente aqui, sozinhos nesse lugar lindo nos amando enquanto a lua brilha linda lá fora?
Ivanlac: Ain para, você é mais. Rsrs. Acho que eu nunca me apaixonei por alguém dessa forma. Às vezes eu penso que eu e você…
Ivanlac é interrompido por uma batida na porta.
Larica: Quem será uma hora dessas, meu Deus?
Larica levanta e veste seu roupão, enquanto Ivanlac tenta vestir algo decente rapidamente. Ao abrir a porta, Larica dá de cara com sua filha, Maria de Fafá, que está com os olhos vermelhos e inchados, e com uma expressão abatida.
Larica: Tá fazendo o que aqui?
Maria de Fafá (desesperada): Mãe, pelo amor de Deus, por favor, tira pelo menos um minuto do seu tempo pra me ouvir.
Larica: Fala! Fala e cai fora daqui!
Maria de Fafá (tentando se acalmar): Olha, o Cubinho, o meu pai…
Larica: FALA LOGO, MARIA DE FAFÁ
Maria de Fafá: Meu pai está morto.
Larica se mantém calada por alguns segundos, a ficha não caiu, ela entra em estado de choque.
Larica (chocada): O Cubinho… morto?
ENCERRAMENTO AO SOM DE TAKI TAKI
