VALE TODO O PEDAÇO - CAPÍTULO 01
criada e escrita por
SINCE, FAFÁ, NOVELEX E LARICE
(CENA 01: RANCHO/EXT./DIA)
Do alto, a câmera mostra um pequeno rancho isolado no coração do Acre. Uma estradinha de terra corta a fazenda simples, mas cuidada com muito amor.
Larica da Paz (Alinne Moraes), sai do casebre com uma bacia cheia de roupas e com um suor na testa, ela se prepara para estendê-las no varal.
De dentro da casa, no rádio se consegue ouvir: “No rancho fundo, bem pra lá pro fim do mundooo!”. Sua filha Nôvelexiane (Agatha Moreira) aparece furiosa.
Nô (desligando o rádio): DESLIGA ESSA MERDA! Musiquinha cafona!
Larica: NOVELEXIANEEE! QUEM DESLIGOU MEU RÁDIO?
NÔ: MAS QUE INFERNO! É PRA ME CHAMAR DE NÔ!
Eu não aguento mais, já não basta ter que morar aqui, ainda tenho que ouvir essa musiquinha cafona? Uó!
Larica: EU GOSTO DESSA MÚSICA. LIGUE DE VOLTA, EU QUERO OUVIR.
Nô (Chegando na porta do casebre): Eu não consigo entender como a senhora consegue romantizar uma vida assim. Todos os dias, trabalhando e servindo ao papai, um homem que não te valoriza. E sem condições de, sei lá, vestir uma roupa decente.
Larica: Eu não me importo com isso, eu tenho uma casa, um sítio que eu adoro e que eu fui criada com as suas tias, que Deus as tenha. Não posso reclamar, minha filha. Eu entendo que você só quer o melhor pra mim, mas o melhor que eu posso ter é cuidar das minhas coisinhas.
Nô (se aproximando da mãe, tentando convencer ela): Mas será que a senhora não percebe que esse lugar não vai nos dar um futuro. Que viver aqui vai ser como escolher um destino miserável? Essa é a nossa única chance, mãe!
Larica (Furiosa): NÃO! EU JÁ SEI MUITO BEM ONDE VOCÊ QUER CHEGAR, O SÍTIO NÃO VAI SER VENDIDO.
De repente, como um espírito vagando pela fazenda, Maria de Fafá surge na porta dando uma resposta atravessada.
Maria de Fafá (Bella Campos): Você ainda está tentando convencer ela a fazer com que a gente deixe esse sítio? Conversar com ela é como bater em ferro frio, minha irmã.
Larica: Mas o que é isso? Virou um complô contra mim? Gente, o avô de vocês está doente. Parem de pensar um pouco nisso.
Larica termina de estender as roupas e entra no casebre.
NÔ (para Maria de Fafá): Mulherzinha brega… Se ela pensa que nós vamos ficar aqui, sendo duas caipiras sem futuro nenhum, ela está muito enganada.
Maria de Fafá: Se controla, minha irmã. Nós não precisamos mais convencer essas antas a venderem o sítio. Por que esse rancho nojento agora é meu!
A câmera dá um close no rosto de Maria de Fafá, o instrumental cresce. Intercalamos entre ela e Nô.
NÔ (perplexa): O que? Como assim, me explica isso direito.
Maria de Fafá (sorrindo cinicamente): Ai, o vovô está com o pé na cova, doente que só. Então ele passou o sítio para o meu nome, com medo de que algo aconteça. Eu ouvi tudo ontem a noite.
Nô: Gente… então por isso eles estavam tão misteriosos? E você já sabe o que vai fazer?
Maria de Fafá: Eu vou vender, é claro! O seu Zé Antônio sempre quis esse pedaço de terra, vou vender pra ele.
NÔ (contente): Eu nem acredito que nós vamos dar o fora daqui. Deveríamos comemorar.
Maria de Fafá: A gente ainda vai ter muito tempo pra comemorar. Mas você já fez a sua parte? Falou com o Frégis?
NÔ: Mas é claro que já fiz a minha parte! Com isso não precisa se preocupar, já tá tudo combinado. Eu falei com o Frégis e ele disse que já até alugou o apartamento pra gente no Rio. Eu sou visionária, mana.
Maria de Fafá: Eu não confio muito no Frégis, ele tem cheiro de gente mau caráter.
Nô: Relaxa, querida! Ele já me enviou todos os comprovantes, só falta a sua parte no plano ser concluída.
Maria de Fafá: Então arrume as malas, meu bem. Nós partimos em breve!
O instrumental cresce e a câmera alterna nos rostos delas. A cena corta.
ABERTURA
VINHETA DE INTERVALO (VOLTA):
(CENA 02: CASEBRE/INT./NOITE)
Larica está deitada quando de repente, ouve um barulho vindo de fora do quarto. Ela se levanta rapidamente, amarrando sua roupa de dormir, calçando sua pantufa de oncinha, e se dirige até a origem do barulho. A mocinha segue pelo corredor, até que se depara com Emadeu (Thomas Aquino), seu marido, completamente bêbado e alterado na cozinha.
Larica(decepcionada): Outra vez? Novamente você chega nesse estado em casa? E com esse fedor de bebida misturado com perfume doce. VOCÊ NÃO ME RESPEITA MAIS!
Emadeu (gritando): CALA A BOCA SUA VADIA! EU BEBO O QUANTO EU QUISER, SOU EU QUEM SUSTENTO ESSA CASA!
Larica (averiguando Emadeu): Olha isso, é um chupão no seu pescoço? Você acha que eu sou otária? EU TÔ CANSADA DISSO!
EMADEU (empurrando Larica): Sai! Eu não te dei permissão pra ficar me averiguando assim como se eu fosse um objeto!
Larica (chorando com raiva): Objeto é o que eu sempre fui pra você! Me usou sempre pra servir como a dona de casa perfeita. Mas eu já entendi, não consegue mais me satisfazer e vai tentar com as mulheres da rua. VOCÊ É NOJENTO!
EMADEU: EU JÁ DISSE PRA CALAR A BOCA, PRAGA!
Desesperado, ele desfere um tapa na cara de Larica, que segura o rosto com a mão, incrédula. Emadeu vai até os fundos e pega uma espingarda pendurada na parede.
EMADEU: EU VOU LHE MOSTRAR O QUE EU FAÇO COM MULHER QUE ME DESAFIA! EU SOU SEU HOMEM, VOCÊ ME DEVE RESPEITO!
Larica, desesperada, pula em cima de Emadeu e os dois entram em luta corporal. A espingarda acaba caindo longe e Emadeu desfere mais alguns tapas em Larica. O pai de Larica sai do quarto assustado, tentando entender o que está acontecendo.
(CENA 03: RECEPÇÃO DE POUSADA/INT./NOITE)
Enquanto isso, Nô e Maria de Fafá aguardam o comprador do sítio numa pousada da cidade vizinha.
Nô (inquieta): Quanta demora! Desse jeito vamos chegar atrasadas no aeroporto.
Maria de Fafá: Se acalma, você tá muito nervosa. Ele já disse que tá chegando.
Nô: Porque não recebe esse dinheiro por Pix? A gente tá perdendo tempo!
Maria de Fafá: O homem nem sabe o que é pix, mulher.
De repente um homem entra pela porta da pousada.
Zé Antônio (Estendendo uma maleta): Tá aqui a quantia que ocêis pediu pelo sítio. Quando vou poder ocupar as terra?
Maria de Fafá: Quando o senhor quiser. Agora aquelas terras são suas.
Maria de Fafá abre a maleta, conferindo o dinheiro dentro dela. Nô estica o pescoço para ver o conteúdo também. Elas analisam tudo para não caírem em um golpe, elas chegam na conclusão que é um bolão real
Maria de Fafá (Sorrindo, satisfeita): Tudo certinho, meu bem. Foi um prazer fazer negócios com você!
Nô (sorrindo): E que negócios, hein!? Ei, psiu, cuida direitinho daquelas terras, sempre vou lembrar delas com muito amor.
Maria de Fafá fecha a mala.
Zé Antônio: Que legal, fia. Que bom que deu tudo certinho haha. Tchau pra vocês. E lembrem-se, Brasil acima de tudo, Bolsonaro e Deus acima de todos!
Nô: Essa anta é bolsominion?
Maria de Fafá: Você ainda pergunta? Agora vamos. Vamos que não temos muito tempo. Rio de Janeiro, finalmente.
Nô: Não aguento mais viver nesse ambiente de velho caquético sem cultura. Quero respirar o ar carioca. Bem melhor!
(Cena 04: Casebre/INT./Noite)
O pai de Larica tenta apartar a briga, mas é impossível. Os dois continuam a lutar pela espingarda. Larica sobe em cima de Emadeu e o arranha.
Emadeu: SAI DAQUI SUA DESGRAÇADAAAAA!
Larica: NÃO SAIOOOO!
De repente, o som da espingarda ecoa pelo ambiente. A câmera corta rapidamente para o exterior do casebre, aumentando a tensão da cena e fazendo com que os pássaros voem das árvores próximas. A câmera foca nos rostos de Emadeu, Larica e seu pai. O idoso cai duro no chão e morre na hora com o disparo que saiu das mãos de Emadeu. Larica entra em choque e começa a socar o rosto de Emadeu, pegando a espingarda e batendo em sua cabeça. Emadeu agarra o rosto de Larica, tentando apertar seu pescoço, ela enfia o dedo no olho dele, fazendo ele desistir. Os dois ficam frente a frente e Larica aponta a espingarda para ele.
Larica (ameaçadora): Você vai direto pro inferno, seu traíra de merda!
O ambiente fica mudo e Larica, sem hesitar, puxa o gatilho da espingarda e dispara bem no peito de Emadeu, fazendo ele dar um pulo para trás e acertando a cabeça dele no prego preso na parede. Ele cai, deixando sua massa encefálica presa no prego.
A câmera foca em Larica, seu vestido branco, simples, todo sujo e seu rosto machucado.
Ao cair em si, ela se levanta e vai até o pai, chorando em volta do corpo dele.
Larica (chorando, desesperada): Pai, fala comigo! Por favor, não me deixe! Pai!
Ao ver que o pai está sem vida, a mocinha grita de desespero, enquanto lágrimas escorrem pelo seu rosto. O grito ecoa pelo ambiente.
A câmera foca no porta retrato com a foto da Família Da Paz, todos felizes em frente ao rancho.
CONGELAMENTO NO PORTA RETRATO.
ENCERRAMENTO: