VALE TODO O PEDAÇO - CAPÍTULO 10
criada e escrita por SINCE, FAFÁ, NOVELEX e LARICE
(CENA 01: PÍER/EXT./NOITE)
Larica, Nô e Fafá continuam trocando olhares. Os demais presentes no local, SOLange, João Mateus e Ivanlac percebem a tensão no ar. “Stateside + Zara Larsson - Pinkpantheress, Zara Larsson” toca ao fundo, no som do evento.
SOLange: Larica, cherri, que bom que você conseguiu se organizar a tempo de vir. Eu queria te apresentar algumas pessoas. Esse aqui é o meu namorado, João Mateus Roitman.
Larica (surpresa, sorrindo): Ah, então é ele o tão famoso João Mateus Roitman? Meu Deus, vocês fazem um casal lindo! Parabéns!
SOLange: Essas aqui são minhas amigas, Maria de Fafá e Nô. Fafá, você deve se lembrar da Larica, a moça que estava vendendo bolo aquele dia na praia.
Maria de Fafá (indiferente): Lembro vagamente, não prestei muita atenção naquele dia.
Larica (provocativa): Acho que você deveria prestar mais atenção nas coisas que estão ao seu redor, queridinha. (Balançando os ombros que nem a Xica Da Silva).
Maria de Fafá desvia o olhar, sem graça. A cena corta, mostrando Sin descendo elegantemente de um carro e se encontrando com Frégis. Ele abre a porta para ela descer.
Sin (discutindo com o motorista): Você é burro ou se faz de sonso? Eu disse pra não parar o carro aqui, olha só a poça d'água que está aqui, seu imbecil!
Motorista: Mas não tinha o que fazer, dona-
Sin: Tinha sim, honey. Meu vestido custou o valor desse seu carro xexelento!
Sin desce, batendo a porta do carro com força, e é recebida por Frégis. Eles se beijam rapidamente enquanto o motorista grita para ela pagar a corrida. Corta. Maria de Fafá e Larica ficam se encarando, os olhos das duas ficam vidrados. Já Nô finge que não existe ninguém ali, ela não faz questão de olhar.
SOLange: Eita que eu senti uma pequena farpa no ar, hein? Parece até que se conhecem…
Larica: Eu? Conhecer essa daí? Eu não me meto com gente granfina, meu bem. Eu vim de um lugar bem simples, onde a gente passava bosta de porco na cara e tomava banho de canequinha. Acha mesmo que eu iria conhecer uma pessoa da alta classe, que provavelmente nasceu em berço de ouro?
Larica, afiada, encara Maria de Fafá sem tirar os olhos dela.
Maria de Fafá (sem graça): Acho que você tá exagerando um pouco…
Larica (se exaltando, meio nervosa): Exagerando? Acham mesmo que eu estou exagerando? Imagina. Se eu contasse tudinho então iriam chamar de tragédia grega.
Nô (cortando): Vamos parar de papo furado gente? O evento está prestes a começar oficialmente. Então acho melhor a gente ir, né?
Larica: Pois vão mesmo, que eu tenho mais o que fazer: trabalhar!
Do alto, a câmera mostra o evento acontecendo de vários ângulos. Luzes cortam o céu, pessoas conversam elegantemente com taças em suas mãos, enquanto outras se divertem. Ivanlac está conversando com homens de negócios, todos fazendo network.
A cena corta para Larica, sozinha em um lugar afastado, um lugar meio escuro, silencioso, perto da praia. Um lugar que contrasta com todo aquele evento. Ela está chorando, pensando em toda a luta que teve para criar as filhas e para sobreviver.
SONOPLASTIA - ISSO AQUI É O QUE É - CAETANO VELOSO - INSTRUMENTAL DRAMÁTICO
(CENA 02: PÍER/EXT./NOITE)
Raquel, já um pouco alterada por conta das bebidas, anda cambaleando pelo píer e falando frases desconexas. Tia Tolyna está ao lado dela, tentando contê-la.
Tia Tolyna: Eu já disse pra você parar com isso, Raquel! Acha que vai chegar onde bebendo tudo o que vê pela frente?
Raquel (alterada, chorando e rindo ao mesmo tempo): EU, EU- A MINHA VONTADE AGORA ERA DE ME JOGAR DENTRO DESSA ÁGUA, TIA. AQUELE MALDITO DA PREFEITA, ELE VAI PAGAR! EU NÃO VOU TOLERAR O QUE ELE FEZ COMIGO!
De longe, as duas veem Prefeita Aurélia, agarrado em uma novinha.
Raquel: OLHA LÁ, TIA! AQUELE SAFADO AGARRADO COM A PRIMEIRA PIRANHA QUE ELE ENCONTROU PELA FRENTE. AH, MAS EU NÃO VOU DEIXAR ISSO ASSIM!
Raquel anda na direção de Prefeita, descontrolada, tresloucada e furiosa. Tia Tolyna tenta segurar ela, mas falha.
Tia Tolyna: Raquel, não faça isso!
Raquel se aproxima de Prefeita, que se assusta ao ver o estado da mulher.
Prefeita Aurélia (medo): Raquel?
Raquel começa a bater palmas bem alto. O barulho chama atenção das pessoas ao redor. Tia Tolyna observa de longe, sem saber o que fazer.
Raquel: QUE BONITO, NÉ PREFEITA? COMO SE JÁ NÃO BASTASSE EU TER PEGO VOCÊ AOS AMASSOS COM A EMPREGADA NO QUARTINHO QUE ELA DORME, EU AINDA TE ENCONTRO COM A PRIMEIRA VAGABUNDA QUE VOCÊ PEGOU NO CAMINHO.
Prefeita: Deixa eu viver, Raquel! Você não disse que estava tudo tranquilo? E você tá bêbada de novo!?
Raquel: TRANQUILO? AH SIM, TÁ TUDO TRANQUILO! E OS MESES QUE EU PASSEI INTERNADA NUMA CLÍNICA? E TODAS AS DORES QUE EU CARREGO JUNTO COMIGO E NÃO TEM NINGUÉM PARA ME CONFORTAR? TUDO TRANQUILO, NÉ?
Novinha: Quem é essa mulher, Aurélio?
Prefeita: É minha ex-esposa.
Raquel: EX-ESPOSA PORQUE ESSE TRASTE ME TRAIU ENQUANTO EU TRATAVA UM VÍCIO.
Novinha: Como é que você teve coragem de se casar com essa doida?
Prefeita: Ignora essa louca, eu estava maluco quando eu me casei com ela. Uma doida, não se passa de uma BÊBADA!
Raquel: DOIDA? LOUCA? BÊBADA? É ISSO QUE VOCÊS ACHAM QUE EU SOU? POIS FIQUEM SABENDO QUE EU SOU UMA PESSOA DE VALOR E MUITO BEM EDUCADA, SEUS VERMES! E SE ACHAM QUE EU SOU LOUCA, AGORA VOCÊS VÃO VER A DOIDA!
Tia Tolyna se aproxima de Raquel
Tia Tolyna: Raquel, se controla.
Raquel, com uma garrafa de pinga em suas mãos, acaba bebendo tudo de uma vez só. Em seguida, ela arremessa o recipiente contra um figurante.
Prefeita: Alguém tira essa mulher daqui? Tá acabando com a minha beleza.
Raquel: AI QUE ISSO COMO PARA DE GRITAR? VOCÊ VAI ME BATER? POIS É SÓ ISSO QUE FALTA, PREFEITA! ÔH MOÇA, TOCA UM MAMBO AÍ! TOCA AGORA SUA VAGABUNDA, TOCA QUE EU TÔ MANDANDO!
Todos os convidados fixam os olhares para ela. Silêncio total.
Tia Tolyna: Vamos embora, Raquel! Você já arrumou confusão demais.
Raquel (encarando a funcionária, alterada): VAI TOCAR OU NÃO VAI?
Tia Tolyna: CALA A BOCA, RAQUEL! Vamos logo, vamos!
Raquel (insistente): EU SÓ SAIO DAQUI SE ELA TOCAR, TOCA MOÇAAAAAAA!
Tia Tolyna tenta arrastar Raquel para fora, mas não consegue. O mambo começa a tocar e Raquel se anima, começando a dançar loucamente pelo píer. Tia Tolyna, apavorada, passa as mãos pelo rosto, suando frio. Os convidados olham a cena com indignação e perplexidade.
Raquel (dançando): AAAAAAAAAIIIII! IHAAAAAAAAAA! VAMOS DANÇAR, PORRA! UUUUUUUUUUUIIIIIII! O CALOR TÁ COMENDO SOLTO, EU VOU DANÇAR PELADA!
Tia Tolyna: Menina você tá mostrando a aranha que tem no meio das pernas.
(CENA 03: PÍER/EXT./NOITE)
João Mateus aparece tirando algumas selfies perto da água. Ao vê-lo de longe, sozinho, Maria de Fafá decide se aproximar com segundas intenções. Enquanto ele faz suas poses, ela aparece no canto da câmera sorrindo feito um espírito obsessor.
João Mateus: Meu Deus, que susto! Não vi que você estava aí.
Maria de Fafá: Desculpa, querido, não queria atrapalhar sua sessão. Eu tava passando quando vi você aí, sozinho, sem ninguém… pensei que quisesse uma companhia. Por falar em companhia, cadê a sua namorada?
João Mateus: Acredita que a SOlange inventou de trabalhar até aqui? Deve tá nos fundos em frente ao computador.
Maria de Fafá: Que sem noção! Ai me desculpe, não aguentei. Mas onde já se viu, largar o namorado a Deus dará pra ir trabalhar nos fundos de uma grande festa? Acho que a SOlange tem sérios problemas mentais.
João Mateus: Não fale assim dela! Mas admito que estou decepcionado. Parece que a nossa relação esfriou bastante nesses últimos meses, sabe? Ela mal tem tempo pra mim. A gente vive discutindo exatamente por esse motivo.
Maria de Fafá: Uma vez a Dilma Rousseff disse para nós, brasileiros, seres de bem, estocar o vento! Então tenta adotar esse método.
João Mateus: Quê? Menina, acho que você deveria reduzir a dose da cerveja.
Maria de Fafá: Cerveja? Ai, parou né! Cerveja é bebida de pobre. Sou mais chegada em bebidas classudas, um espumante, uma champagne, um vinho caro. E eu nem bebi hoje, isso tudo que eu falo são apenas pensamentos que eu gozo após masturbar meu cérebro super avançado, as pessoas normalmente têm dificuldade de acompanhar minhas ideias filosóficas, profundas e reflexivas mesmo. Às vezes eu me sinto tão deslocada, tão diferente das outras garotas… Ai, desculpa, acho que me passei nos desabafos.
João Mateus: Verdade, não sou seu psicólogo para você ficar desabafando seus problemas aqui comigo.
Maria de Fafá: Ah, mas eu achei que… esquece! Você mesmo só desabafa seus problemas com seu psicólogo?
João Mateus: Eu não tenho problemas para desabafar, minha vida é perfeita!
Maria de Fafá (rindo): Ou você está mentindo, ou todos os problemas da sua família caíram em cima da sua irmã.
João Mateus: Por que diz isso?
Maria de Fafá: Uai, sua irmã deu o maior vexame lá na festa, armou o maior barraco na frente de todo mundo. E, pelo visto, ela tava regada a cachaça. Coitada!
João Mateus (triste): Tava me perguntando quanto tempo ela iria durar sóbria. Minha família sempre foi problemática assim mesmo, mas a gente sempre tentou manter as boas aparências na frente da sociedade. A verdade é que nunca esteve tudo bem entre nós, mas tudo piorou depois da morte do meu irmão. Foi um acidente trágico, ele morreu muito cedo, e minha irmã, a Raquel, se culpa por isso até hoje, e foi aí que o alcoolismo dela se agravou. Desde o acidente que ela se interna em numa clínica de reabilitação por meses, mas sempre volta a beber pouco tempo depois de sair. A minha tia vive tentando equilibrar tudo, ela nos ama como se fossemos filhos dela, praticamente criou a gente, mas, mesmo com tanto esforço, não consegue manter tudo às mil maravilhas. E a minha mãe foi embora pra Europa, raramente temos notícias dela, mas a gente sabe como é a dona Taís Roitman, sempre na ativa, ouvindo e observando tudo de longe e agindo quando necessário.
João Mateus suspira, como se estivesse cansado, mesmo sendo herdeiro e não fazendo nada de útil o dia inteiro.
João Mateus: Reclamei de você e, no final, quem desabafou tudo foi eu. Falei mais até do que não devia.
Maria de Fafá: Não se preocupe! Esse assunto morre aqui, pode confiar. Sabe, se você quiser conversar ou desabafar, saiba que estou sempre a disposição para te ouvir. Às vezes é bom ter um ombro amigo.
João Mateus: Obrigado, eu acho! Agora eu vou ver como a minha irmã está. Até mais, Fafá!
João Mateus volta para o meio de toda a multidão da festa. Após ele tomar distância, Maria de Fafá começa a sorrir maliciosamente.
Maria de Fafá: Fafázinha, querida, como você é esperta! Conseguiu ganhar uns pontinhos com o bilionário, e, de quebra, arrancou umas informações sobre essa família. A SOLange que se cuide, porque esse macho será meu!
ABERTURA
VINHETA DE INTERVALO (VOLTA):
(CENA 04: MANSÃO ROITMAN/INT./NOITE)
Susuana anda pela casa, fazendo vários nadas.
Susuana: Ai, que saco! Tenho uma mansão dessas nas minhas mãos e nem posso aproveitar, se não aquela mordoma póc e puxa saco vai encher a minha paciência.
Ela para em frente ao quarto de Raquel e fica observando a porta. Gira a maçaneta, a porta está destrancada, ela abre, hesita por um instante, e entra no quarto.
Susuana: João Mateus disse na entrevista que aquele amuleto era da Raquel, então talvez eu deva procurar aqui.
A ex-noviça procura o objeto pelo quarto, abrindo as portas dos armários e vasculhando gavetas. Ao chegar na gaveta da mesinha de cabeceira, a moça finalmente acha o que estava procurando. Ela pega o amuleto em mãos, tira o seu do bolso, e compara os dois.
Susuana (maravilhada): São idênticos! Isso não pode ser mera coincidência, dois amuletos exatamente iguais? Se for o que eu estou pensando… Ah, Susuana, sua vida está feita! Eu só preciso descobrir essa história direitinho.
Ela fica um tempinho admirando os dois objetos, seus olhos brilham encantados.
Susuana: Já tirei minha dúvida, agora preciso sair daqui.
Susuana devolve o amuleto à gaveta e a fecha. Dá uma olhada ao redor, verificando se está tudo no mesmo lugar de antes. Ao chegar na porta, ela dá de cara com Pimeugênio e solta um grito de susto.
Pimeugênio: Posso saber o que a senhorita está fazendo aqui?
Close em Susuana, assustada.
(CENA 05: PÍER/EXT./NOITE)
Cubinho se prepara para fazer sua apresentação. Rodnato está ao seu lado, tranquilizando-o.
Rodnato: Você está bem?
Cubinho (animado): Nunca estive melhor! Finalmente meu trabalho vai começar a ser valorizado, e eu poderei construir a carreira que tanto sonhei.
Rodnato: E é o seu último show no Brasil, depois disso é New York city, baby!
A música que tocava ao fundo cessa.
Rodnato: É agora, vai lá e arrasa!
Cubinho: Te amo!
Os dois dão um beijo estralado e Cubinho sobe ao palco, andando em direção ao piano. No meio da platéia, Nô está sentada em uma mesa com Sin e Frégis. Maria de Fafá chega e ocupa o último lugar vago.
Sin: Tava onde, honey? Mal te vi durante a festa inteira. Já achou o ricaço que vai te sustentar a vida inteira? (debochando)
Maria de Fafá: Eu nem te devo satisfação, querida. Mas, na verdade, eu achei sim o meu boy rico. Em breve eu estarei bela, rica e casada, enquanto você vai morrer solteira e trabalhando num cargo pequeno daquela agência.
Sin (rindo): Ai, você se acha né, garota?
Nô (entediada): Por que diabos tiraram a música? Agora eu tenho que aturar essas conversas que levam nada a lugar nenhum.
Frégis: Pelo visto vai ter show de piano agora.
Nô: Era só o que me faltava!
Nô leva a taça de champagne à boca, e se engasga ao olhar para o palco e ver Cubinho.
Maria da Fafá: Que foi, mulher? Tá boba?
Maria de Fafá olha para trás e fica pasma ao ver seu pai sentado diante do piano.
Sin: Que foi gente? Parece que viram uma assombração.
Maria e Fafá: Nada não, querida!
Ela vira uma taça inteira de espumante, nervosa. Cubinho começa a tocar Pela Luz Dos Olhos Teus no piano. Em poucos segundos, o silêncio toma conta do público e todos prestam atenção no pianista. A platéia se emociona com a melodia e começa a cantar a letra da música.
Frégis: Esse cara é bom, hein!
Sin (emocionada): O jeito que ele toca… me remeteu às siriricas que eu faço às vezes.
Cubinho começa a sentir a emoção da canção. A música corre pelo seu sangue e os seus batimentos mudam. Ele fecha os olhos e apenas permanece tocando, sentindo o som, sem olhar em volta, sem nem olhar as teclas que toca. De repente, suas mãos param. Ele leva a mão direita ao ombro esquerdo, sem conseguir respirar, e cai duro no chão, se debatendo. Todos observam assustados, sem entender nada. Rodnato sobe correndo no palco, desesperado, e se ajoelha diante do seu amado que está morrendo.
Rodnato (desesperado): CUBINHO, PELO AMOR DE DEUS! RESPIRA MEU DEUS, RESPIRA! É SÓ RESPIRAR!
CONGELAMENTO EM CUBINHO ROXO NO CHÃO.
ENCERRAMENTO
