A FILHA DA MINHA MÃE - CAPÍTULO 01
CENA 01: SÃO PAULO/EXT./MANHÃ
SONOPLASTIA: DREAM - JOHN PIZZARELLI, MARTIN PIZZARELLI, DON SEBESKY
SÃO PAULO, 2001.
Imagens aéreas da cidade mostram o movimento intenso pelas ruas. Trânsito agitado, pedestres apressados, aviões decolando e buzinas ecoando por todos os lados. Pessoas andam a todo o momento, saindo dos grandes prédios do centro enquanto algumas passam pelas ruas, apressadas. Dentre os prédios luxuosos, a câmera destaca uma construção exótica.
CENA 02: LUBIJU/INT./MANHÃ
No primeiro andar de um prédio rosa, está a Lubiju, uma loja de artigos de luxo de decoração que está sendo inaugurada. Na entrada, Maria Mirtes Fontanari “Mimi” (Grace Gianoukas), como gosta de ser chamada, aparece num look exagerado e monocromático ao lado do marido Santiago Fontanari (Marco Ricca), enquanto discursa. A música anterior toca no ambiente.
MIMI: DESLIGUEM O SOM, IMBECIS! (pausa) Amorecos do meu coração, da minha life, é com muita honra que recebo todos vocês aqui hoje para celebrar a inauguração do meu grande negócio. A Lubiju!
SANTIAGO (sussurrando): Nosso negócio.
MIMI: Cala a boca, imprestável! (pausa) Bem, se hoje esse prédio está de pé, o motivo está bem na cara. Com muito suor e dedicação, eu lutei todos esses anos sem passar por cima de ninguém, sem ofender ninguém e sempre com humildade no coração… Perfeita, eu? Clarinho que sim. Agora aplaudam!
Os convidados, se sentindo coagidos, batem palmas tímidas para Mimi enquanto ela se sente a pessoa mais importante do mundo, fazendo gestos de gratidão exagerados.
MIMI: Mais palmas! Mais! (P) Isso!
Dentre os convidados, está Eleonora Valença (Claudia Raia), rival declarada de Mimi desde o colégio. Ela mostra indignação enquanto conversa com uma amiga. Eleonora usa uma peruca rosa para não ser vista.
ELEONORA: Mas é muita cara de pau mesmo, né? Eu não consigo entender como essa mulherzinha imbecil sempre consegue tudo o que ela quer. Tá na cara que essa loja de quinta categoria vai fechar as portas em pouquíssimo tempo.
No palco, Mimi continua discursando.
MIMI: Quero agradecer aos meus funcionários, aos meus amigos e principalmente a mim mesma. Porque sem mim nada disso estaria acontecendo.
Santiago revira os olhos.
SANTIAGO: Bom, Mimi, acho que isso era pra ser uma inauguração, não uma canonização.
MIMI: Inveja é pecado, Santiago.
Alguns convidados riem, enquanto os outros (a maioria) não acham graça.
MIMI: Bom, como eu odeio beber em ambiente de trabalho, convido todos vocês a comparecerem na minha casa no próximo final de semana. Será a festa das festas. Com tudo o que tem direito! (pausa) Agora podem aproveitar. A Lubiju está oficialmente inaugurada!
Sob aplausos, ela corta a fita vermelha com uma tesoura, sorrindo. A música volta a tocar.
CENA 03: LUBIJU/INT./MANHÃ
Enquanto os convidados se divertem, conversam e apreciam a comemoração com taças em mãos, Mimi aparece conversando com Bebel (Stella Miranda), sua velha amiga.
MIMI: O que achou, Bebel? Eu sei que não chega aos pés dos seus eventos, mas foi o que deu pra fazer.
BEBEL (arrotando): Ai querida me desculpe, exagerei no champanhe. (pausa) Bom, sobre a festa, achei de bom grado, querida. Só te falo uma coisa: tome cuidado com a gentinha que aparecer pra querer te derrubar. O mundo dos negócios não é pra qualquer um.
MIMI: Ah, mas isso é o que mais tem… Principalmente aquela surucucu da Eleonora Valença. Eu não duvido que aquela múmia esteja aqui, observando tudo com uma peruca colorida pra ninguém descobrir que ela tá aqui. Invejosa. É isso que ela é.
BEBEL: Bom, querida, mas mudando de assunto… e os seus filhos? Por quê não trouxe os coitadinhos?
MIMI (rindo): Acha que sou louca de trazer aquelas pestes? Verão e Primavera com certeza já teriam colocado esse prédio de pernas pro ar.
BEBEL: E a Outono?
MIMI: Ficou sob os cuidados da babá. Ah… Outono é o amor da minha vida. A minha filha favorita! E eu acho que ela vai amar saber que terá um irmãozinho…
BEBEL (chocada): O quê? Você… você tá grávida?
MIMI: Descobri ontem. Só estou esperando acabar essas comemorações pra comunicar ao Santiago.
Feliz, Bebel abraça a amiga com um sorriso largo.
BEBEL (entusiasmada): Ai eu fico muito, mas muito feliz por você, minha amiga! Eu torço muito para que seja uma menina e se chame Inverno.
MIMI (séria): Não sei se é pecado dizer isso, mas não sei se quero esse filho neste momento.
BEBEL: Como não, querida? Um filho é sempre uma dádiva, um presente de Deus…
MIMI: Vamos lá fora, não quero que ninguém escute.
ABERTURA:
CENA 04: LUBIJU/ESTACIONAMENTO/INT./MANHÃ
Após saírem da festa, Bebel e Mimi vão até o carro da dona da Lubiju para conversarem à sos. Mimi acaba de contar algo que deixou Bebel boquiaberta.
BEBEL: Amante? Você tem certeza que o Santiago tem uma amante? Você tem certeza do que está dizendo, Mimi? Porque uma acusação dessas não é pouca coisa. Você tá falando do seu marido, do pai dos seus filhos, de um homem que construiu essa empresa ao seu lado, mulher.
MIMI: Justamente por isso eu tô assustada. Eu conheço o Santiago há anos. Conheço cada mania, cada defeito, cada mentira que ele conta quando tá nervoso. E eu tô sentindo que alguma coisa mudou, sabe... Eu não sei explicar exatamente o quê, mas mudou. Ele não me olha mais do mesmo jeito, não conversa comigo como antes. Parece que vive com a cabeça em outro lugar. E quando um homem começa a viver com a cabeça em outro lugar, geralmente é porque existe outra pessoa…
BEBEL: Você já pensou que ele pode estar apenas cansado? Querida, vocês passaram meses preparando essa inauguração. Você mesma não dorme há semanas.
MIMI: Não é isso. Outro dia eu passei quase uma hora falando sobre os detalhes da festa do próximo final de semana. Falei da decoração, dos convidados, do cardápio, das flores, dos músicos... Quando acabei, percebi que ele não tinha ouvido absolutamente nada. Nadinha. O Santiago sempre fingiu prestar atenção. Dessa vez nem isso ele fez. Ultimamente só dorme.
BEBEL: E você acha que isso basta para concluir que ele tem uma amante?
MIMI: Não. O pior veio depois. Há alguns dias ele chegou em casa com um perfume que não era meu. E não adianta me olhar assim porque eu sei exatamente o que estou falando. Eu conheço os meus perfumes, Bebel. Conheço todos eles. Aquele cheiro não era meu. Era um perfume doce, forte, enjoativo. Um perfume de mulher pobre, de camelô de quinta…
BEBEL: Existem milhares de mulheres em São Paulo usando perfume.
MIMI: Sim. Mas existe uma em especial que adoraria me ver humilhada. Uma mulher que passou a vida inteira competindo comigo. Uma mulher que nunca aceitou o fato de eu ter sido mais bonita, mais inteligente e mais bem-sucedida.
BEBEL: Você está falando da Eleonora, claro.
MIMI: Claro que estou falando daquela víbora. Ela não suporta me ver feliz. Não suporta me ver vencendo. Se eu ganhar um prêmio, ela fica doente. Se eu comprar um vestido novo, ela compra dois. Se eu faço uma festa, ela faz questão de aparecer feito um espírito obsessor. Eu sei muito bem que ela tá lá dentro disfarçada achando que tá arrasando. Aquela mulher transformou a inveja em profissão, amore. Daqui a pouco eu vou fazer um exame de sangue e ela vai surgir vestida de enfermeira.
BEBEL: Mimi, vocês têm quase quarenta anos. Parece que ainda estão no colégio, se comportando como menininhas de quinze anos.
MIMI: Porque ELA continua se comportando como se estivesse no colégio! E sabe o que é pior? Eu tô esperando um filho. Eu deveria estar vivendo um dos momentos mais felizes da minha vida, mas em vez disso estou aqui, morrendo de medo de descobrir que meu marido pode estar me enganando com a minha maior inimiga.
BEBEL: E o que você pretende fazer?
Um sorriso surge lentamente no rosto de Mimi.
MIMI: A próxima festa.
BEBEL: O que tem?
MIMI: Se existe alguma coisa acontecendo, eu vou descobrir na minha próxima festa.
BEBEL: Como?
MIMI: Ninguém consegue esconder a verdade por muito tempo quando está cercado de gente, música e álcool. (pausa) Eu conheço o Santiago, e conheço a Eleonora. Se existir alguma coisa entre aqueles dois, eu vou arrancar a verdade nem que seja pelos cabelos daquela ratazana!
BEBEL: Tá, querida, agora vamos voltar. Jajá alguém sente a falta da gente.
As duas saem do carro. Assim que fecham a porta, avistam uma mulher caminhando pelo estacionamento em direção a um carro importado. É Eleonora. Mimi imediatamente fecha a cara.
INSTRUMENTAL: MARACATU WOLLINGER - RICARDO LEÃO
MIMI: Falando no demônio...
ELEONORA: Engraçado. Eu estava prestes a dizer a mesma coisa.
BEBEL: Gente, por favor...
MIMI: O que foi? Já tá indo embora? Não conseguiu suportar o sucesso alheio por mais de duas horas? E essa peruca rosa aí, achou em Chernobyl?
ELEONORA: Não, querida, comprei na mesma loja onde você compra suas roupas. A diferença é que eu tenho espelho em casa.
MIMI: Você é mesmo uma anta histórica, né? Sempre foi. Achou mesmo que ia entrar e sair da minha festa sem eu descobrir?
ELEONORA: Descobrir o quê? Que eu fui convidada pelos seus sócios?
MIMI: Ah, para. Você entrou aqui igual fiscal da Receita Federal procurando irregularidade. Pelo visto passou a manhã inteira contando os convidados, analisando a decoração e calculando quantos dias faltam para a minha falência. E esse dia tá bem longe de chegar, queridinha. Bem longe!
ELEONORA: Querida, você inaugurou uma loja, não conquistou a lua, não.
MIMI: Ah, claro. Porque se fosse você inaugurando, já estaria dando entrevista como se tivesse descoberto a cura de todas as doenças do planeta.
ELEONORA: Pelo menos eu teria motivos para comemorar.
MIMI: Falando em comemorar...
Mimi abre um sorriso falso.
MIMI: Você está oficialmente convidada para a minha festa no próximo final de semana.
Bebel arregala os olhos.
BEBEL: Mimi...
ELEONORA: Eu?
MIMI: Você mesma. Afinal, já que passa tanto tempo falando da minha vida, achei justo te dar acesso ao conteúdo completo. E não precisa gastar seu dinheiro com outra peruca.
ELEONORA: Não, obrigada. Tenho coisas melhores para fazer.
MIMI: Que pena. Porque vai ser um evento muito memorável. Música ao vivo, buffet internacional, convidados da alta classe, show dos Titãs…
ELEONORA: E você no centro de tudo, né? Que mico!
MIMI: Está com medo de ir?
ELEONORA: Medo de quê?
MIMI: De perceber que eu sou muito mais feliz do que você imagina.
Eleonora ri.
ELEONORA: Mimi, a única coisa que me assusta é a possibilidade de você pegar um microfone depois da meia-noite e ficar fazendo discursinho bosta.
MIMI: Então apareça, flore. Vai ser divertido.
ELEONORA: Você realmente acha que eu pisaria naquela sua casa?
MIMI: Acho. Porque você não resiste a uma oportunidade de me vigiar de perto.
ELEONORA: Você continua se achando o centro do universo…
MIMI: E você continua orbitando em volta dele, feito um planeta anão.
Silêncio. Eleonora sorri de canto.
ELEONORA: Sabe de uma coisa? Talvez eu apareça nessa tal festa aí…
MIMI: Ótimo! Te esperarei com um sorriso de canto a canto, querida.
ELEONORA: Melhor ficar de boca fechada pra ninguém perder o ar com o cheiro podre que vem da sua boca, querida.
MIMI: Pro seu governo, o seu casebre que você chama de mansão tem o mesmo valor da minha pasta de dente, querida. Sem mais delongas, espero você no próximo evento.
ELEONORA: Engraçado, você continua exatamente igual na época do colégio. Só que envelhecida e mil vezes mais insuportável, claro.
BEBEL (gritando): CHEGA! CHEGA VOCÊS DUAS! EU NÃO AGUENTO MAIS ESSA DISCUSSÃOZINHA BESTA! PAREM!
ELEONORA: Você vai me bater?
BEBEL: Pois deveria!
MIMI: Não aconselho você sujar as suas mãos com essa daí, migles. Vamos, vamos embora. Um beijo bem grande pra você, Eleonora! Não vai me desapontar e deixar de ir na festa, hein? Sua ausência é inaceitável!
Provocativa, Mimi dá um beijinho na bochecha de Eleonora, que retribui, como se fossem grandes amigas. Eleonora abre a porta do carro e entra no veículo, saindo logo em seguida. Mimi e Bebel permanecem paradas ali, observando.
MIMI: Sabia que essa vaca tava aqui! Mas ela não me engana. Muito provavelmente deve ter vindo por causa do Santiago!
BEBEL: Será que cê não tá se precipitando? Acha mesmo que eles são amantes?
MIMI (séria): Claro! E eu vou tirar essa história a limpo o mais rápido possível. Da outra festa não passa!
Anoitece em São Paulo ao som de “The Road Is Lonesome - Club des Belugas, Anna Luca” e imagens da cidade são exibidas. Em seguida, cortamos para o exterior de uma mansão enorme, localizada no centro da cidade. Trata-se da mansão dos Fontanari.
CENA 05: MANSÃO FONTANARI/INT./NOITE
A câmera passeia pelos cômodos luxuosos da mansão, mostrando obras de arte, móveis clássicos e um quadro enorme de Mimi no centro da sala principal, onde Efigênia (Giovanna Antonelli), a babá, tenta esticar uma enorme toalha sobre a mesa de jantar enquanto vigia Outono, de dois anos, brincar sentada no tapete.
EFIGÊNIA: Não entendo o motivo da dona Mimi sempre querer ser a maior em tudo… ela deve achar que eu tenho quatro braços pra dar conta de tudo sozinha…
De repente, Verão, de cinco anos, surge correndo pelo corredor vestindo uma fantasia de super-herói e Primavera, de oito anos, desfilando pela sala calçando um salto alto de Mimi, sua mãe.
PRIMAVERA: Olha só como eu sou fashion, Fifi!
EFIGÊNIA (desesperada): Pelo amor de Deus, crianças, parem! Chega! Vocês estão me deixando louca e eu sou só uma!!
Primavera e Verão correm em direção a cozinha, e esbarram num vaso de porcelana de Mimi, fazendo-o cair no chão e espatifar. Efigênia, ao ouvir o barulho, corre imediatamente até lá e se desespera. No mesmo instante, Mimi e Santiago chegam pela porta da sala e estranham ver Outono ali, sem ninguém por perto.
MIMI: Outono, minha filha… você está sozinha aqui? Cadê aquela irresponsável da Efigênia? Já disse pra não deixar você sozinha!
SANTIAGO: Mimi, pelo amor de Deus, a Efigênia é só uma. Não tem como ela estar em todos os lugares ao mesmo tempo.
MIMI: Cala a boca, imprestável! (P) Outono, minha linda… você está cada dia mais parecida comigo.
SANTIAGO: Não precisa ofender a menina desse jeito.
MIMI: EFIGÊNIAAAAAAA!!!!! CADÊ VOCÊ, SUA IMPRESTÁVEL? INFELIZ!!!!
Desesperada, Efigênia surge tentando resolver tudo ao mesmo tempo.
EFIGÊNIA: Dona Mimi, não tenho boas notícias.
MIMI: O que? A Eleonora foi premiada com mais cem anos de vida?
EFIGÊNIA: O vaso florido que a senhora ganhou da sua falecida mãe… as crianças esbarraram e ele quebrou totalmente…
MIMI (perplexa): O QUÊ?
Corte. No próximo take, Mimi já colocou as crianças de castigo após ver o vaso quebrado e está furiosa na sala, andando de um lado para o outro.
MIMI: Você não tem noção do quanto eu zelei por aquele vaso, Efigênia! Foi a última coisa que a minha mãe me deu antes de morrer! ELA DEVE TÁ SE REVIRANDO!
EFIGÊNIA: Dona Mimi, eu peço perdão. Eu tentei impedir, mas a Primavera e o Verão saíram correndo… eles não pararam o dia todo.
MIMI: Ah, chega! Chega! Agora você quer colocar toda a culpa nas crianças? Você é a babá, Efigênia! É você quem recebe o salário no fim do mês!
EFIGÊNIA: Tudo bem, dona Mimi, mas eu sou só uma. Eu não consigo fazer tudo ao mesmo tempo… se tivesse outra pessoa pra me ajudar pelo menos…
MIMI: Ah, então agora a culpa é minha porque eu não contratei um batalhão pra cuidar de três crianças? Faça-me o favor, Efigênia! Quando você aceitou esse emprego, sabia muito bem quantos filhos eu tinha. Ou você achou que a Primavera e o Verão iam passar o dia todo sentados lendo livrinho de conto de fadas? O meu medo é que na próxima vez eu chegue aqui e ache a casa pegando fogo!
SANTIAGO: Mimi, não precisa falar assim…
MIMI: Cala a boca você também! O assunto não chegou na cota de inúteis. (P) Bom, Efigênia, você tá demitida!
EFIGÊNIA (arregala os olhos): O quê? Demitida? Dona Mimi, a senhora não pode fazer isso comigo… eu tenho dividas, moro de favor na casa da minha irmã… por favor dona Mimi, não faz isso comigo!
MIMI (fria): Deveria ter pensado nisso quando passou a ser uma incompetente! CHEGA! Arrume as suas tralhas e dá o fora daqui.
EFIGÊNIA: Dona Mimi, por favor… a senhora não tá levando em consideração todos esses anos de parceria. Tudo bem, eu assumo, eu errei… mas não precisa me demitir. É errando que se aprende…
SANTIAGO: Mimi, escute ela! Você não pode demitir a coitada assim. Vamos lá pra cima, você toma um banho, pensa com calma e depois toma uma atitude coerente…
MIMI: Eu já decidi. Não quero mais essa mulher aqui. Some da minha frente, Efigênia! Eu não quero olhar pra essa sua cara sonsa nunca mais!
Com medo de perder o emprego, Efigênia se ajoelha diante de Mimi, com lágrimas nos olhos.
EFIGÊNIA: Eu não sou de me ajoelhar diante de ninguém, dona Mimi, mas eu preciso desse emprego. Como eu já disse, tenho dívidas pra pagar, e não são poucas. Eu imploro.
MIMI: Ah, e eu tenho culpa? Agora eu sou a culpada de você não ter o mínimo de educação financeira e sair comprando tudo por aí feito uma pobre sem rumo?
SANTIAGO: Mimi…
MIMI (inquieta): Tá… tá bom, eu deixo você ficar. Mas não vá achando que foi por piedade, tá?
EFIGÊNIA: Muito obrigada, de verdade. E me perdoa pelo vaso, eu prometo que compro outro pra senhora.
MIMI: Você mal tem dinheiro pra comprar uma caneta, querida.
Efigênia se levanta, e olha diretamente para Mimi, que permanece séria diante da empregada.
MIMI: Agora pode ir! Vá!
SANTIAGO: Eu levo ela até em casa, Mimi.
EFIGÊNIA: Não precisa, seu Santiago, eu vou de ônibus mesmo.
SANTIAGO: Eu insisto.
EFIGÊNIA: Tudo bem, se não for incômodo…
Santiago e Efigênia se retiram, deixando Mimi no centro da sala. Ela suspira, ainda tomada pela raiva, e se senta no sofá, levando as mãos à cabeça. Cortamos para imagens aéreas de São Paulo, que mostram o trânsito intenso da cidade no começo da noite, com carros ocupando as principais avenidas e o movimento típico do fim do dia.
CENA 06: ZONA NORTE/EXT./NOITE
O bairro é simples, formado por ruas movimentadas, casas modestas e pequenos estabelecimentos comerciais. Crianças brincam e correm pela rua, enquanto moradores conversam nas calçadas. Um carro se movimenta lentamente pela rua até parar diante do portão de uma casa simples. Dentro do veículo, estão Santiago e Efigênia.
SANTIAGO: Efigênia, eu sei que foi difícil. Mas você precisa entender que a Mimi é assim mesmo. Ela perde a cabeça, fala o que não deve...
EFIGÊNIA: Não justifica, Santiago. Não justifica! Ela me humilhou como se eu fosse uma cadela sarnenta!
SANTIAGO: Eu sei.
EFIGÊNIA: Não, você não sabe. Porque quem foi humilhada fui eu. Eu tive que ficar ouvindo aquela mulher me chamar de imprestável dentro daquela casa, como se eu não fosse gente. E depois ainda tive que pedir pelo amor de Deus para não perder o emprego. Eu nunca ajoelhei pra ninguém durante a minha vida toda! E você sabe o que é pior? Eu fiquei com vergonha de mim mesma. Vergonha de ter que engolir tudo aquilo porque tenho contas para pagar! Enquanto ela pode quebrar um vaso e comprar outro amanhã, eu tenho que pensar duas vezes antes de gastar dinheiro com comida.
SANTIAGO: Eu vou ajudar você.
EFIGÊNIA: Você sempre fala isso.
SANTIAGO: Mas agora é de verdade, meu amor. Confia em mim.
EFIGÊNIA: Confiar em você? Santiago, eu tô ouvindo isso há quanto tempo? “Eu vou resolver”, “eu vou dar um jeito”, “tenha paciência”... E eu tenho paciência até hoje! Olha onde eu vim parar! Tive que me ajoelhar praquela mulher não me mandar embora!
SANTIAGO: Eu sei, eu sei...
EFIGÊNIA: Não sabe! Se soubesse, já teria feito alguma coisa.
Santiago respira fundo, sem saber o que dizer.
SANTIAGO: Eu amo você.
Efigênia vira o rosto para a janela, segurando o choro.
EFIGÊNIA (lacrimejando): Eu tô cansada, sabe. Eu tô cansada de ser segunda opção em tudo, de sempre ser feita de chacota por todo mundo... A única pessoa que me ama de verdade nessa vida é a minha irmã. E a Outono também gosta muito de mim. Quando ela me vê, vem correndo, me procura, quer ficar no meu colo... Às vezes eu sinto que aquela menina é a única coisa boa que eu tenho naquela casa.
SANTIAGO: Ela gosta muito de você mesmo.
EFIGÊNIA: Gosta. E eu gosto dela também. Muito. Talvez mais do que eu deveria, porque ela não tem culpa de nada disso. Ela é só uma criança.
Santiago fica em silêncio.
EFIGÊNIA: E é justamente por isso que eu não quero continuar vivendo daquele jeito. Eu não quero que ela cresça vendo a mãe humilhando os outros e achando que isso é normal. Eu quero que ela tenha alguém por perto que trate ela com carinho. Uma mãe de verdade.
SANTIAGO: Tá querendo dizer o que com isso?
EFIGÊNIA (séria, limpando as lágrimas): Que se você não tiver coragem de assumir que somos amantes, Santiago, eu vou tirar da Mimi a única coisa que realmente importa. A Outono.
INSTRUMENTAL: ED S SUITE - IURI CUNHA
SANTIAGO: Como é que é?
EFIGÊNIA: É isso mesmo que você ouviu. Se não largar o casamento pra ficar comigo, eu vou sumir com a sua filha e nunca mais você vai achar a gente!
Focamos no rosto de Santiago, assustado, intercalando com Efigênia, que permanece séria.
CONGELAMENTO EM EFIGÊNIA.
ENCERRAMENTO:




