A FILHA DA MINHA MÃE - CAPÍTULO 12 (22/10/2026)

 

A FILHA DA MINHA MÃE - CAPÍTULO 12

criada e escrita por

SINCERIDADE


CENA 01: FACULDADE - PÁTIO/EXT./TARDE


INSTRUMENTAL: BROTHERS IN DANGER - IURI CUNHA 

PAULINHA: E então? Não vai experimentar?

INVERNO (com receio): Não sei, não… eu nunca nem se quer pensei em experimentar isso… dizem que fazem mal e causa doença.

PAULINHA: Besteira! Eu uso há anos e nunca aconteceu nada. O máximo que ele me faz, é me acalmar em momentos difíceis e tirar todos os pensamentos ruins da minha mente.

INVERNO: Mas você tem certeza de que não faz mal?

PAULINHA: Inverno, olha pra mim. Eu tô aqui, inteirinha, conversando com você, não tô? (sorri) Você pensa demais, amiga. Fica carregando o mundo nas costas, se preocupando com o que os outros vão pensar, com o que sua mãe vai dizer... Uma hora você precisa desligar um pouquinho.

Inverno volta a olhar para o vape. Paulinha percebe a hesitação e suaviza ainda mais a voz.

PAULINHA: Não precisa ter medo de tudo. Você já passou por tanta coisa nesses últimos dias... Merece um momento de tranquilidade, não merece?

INVERNO: Eu só queria parar de pensar em tudo isso. 

PAULINHA: Eu sei. E sinto muito por você estar passando por isso. (estende o vape novamente) Deixa eu te ajudar a esquecer um pouquinho, pelo menos hoje.

Inverno hesita mais alguns segundos. Depois, vencida pela vontade de aliviar a angústia que sente, pega o aparelho da mão da amiga.

INVERNO: Tá bom... Mas só pra experimentar, hein? Não vai ficar me enchendo a paciência depois.

PAULINHA (sorrindo): Claro que não, amiga!

Inverno observa o aparelho, insegura, enquanto Paulinha acompanha cada movimento com um sorriso discreto. A expressão acolhedora da jovem esconde a satisfação de ter conseguido convencê-la. Inverno leva o vape à boca e experimenta. Logo em seguida, tosse, surpreendida pela sensação.

INVERNO: Ai, meu Deus! Que negócio horrível!

Paulinha cai na risada.

PAULINHA: Calma! Na primeira vez é assim mesmo!

INVERNO: Você podia ter avisado!

PAULINHA (pega o vape de volta): Pronto, chega por hoje. O importante é você relaxar um pouco.

Inverno ri, ainda tossindo, e balança a cabeça.

INVERNO: Você não presta, Paulinha!

PAULINHA: Eu? Eu sou um anjo! E você deveria me agradecer por te proporcionar esses momentos.

 Paulinha abraça a amiga pelos ombros, mas, enquanto Inverno tenta se recompor, seu olhar revela uma satisfação oculta.

CENA 02: CAMPO DO HORIZONTE/EXT./TARDE


Antônio Carlos fecha a expressão imediatamente. O amigo dele também fica surpreso com a informação.


ANTÔNIO CARLOS: Ah, pronto! Era só o que me faltava! A senhora vem aqui fazer o quê? Conferir de perto o terreno que seu marido tá querendo tomar da gente?


LETÍCIA: Não é isso. Eu só queria conversar com você.


ANTÔNIO CARLOS: Conversar? Com todo respeito, dona Letícia, eu não tenho nada pra conversar com a senhora. Se veio aqui defender os interesses do seu marido, pode voltar de onde veio. A gente já tá cansado de gente que aparece com discurso barato enquanto tenta acabar com o que é nosso.


LETÍCIA: Eu entendo a sua desconfiança, mas você precisa me ouvir antes de tirar conclusões.


ANTÔNIO CARLOS: Eu não preciso ouvir mais nada! A gente já sabe muito bem o que o Ricardo Garcia pretende fazer. O que ele quer não é conversa, é passar com o trator por cima de todo mundo pra conseguir o que deseja. E eu não vou facilitar as coisas pra ele!


LETÍCIA: Por favor, Antônio Carlos. Eu não vim aqui pra brigar com você. Só quero alguns minutos da sua atenção… Se, depois de me ouvir, você ainda quiser que eu vá embora, eu vou.


Antônio Carlos a encara, irritado. O amigo observa a situação, sem interferir.


ANTÔNIO CARLOS (respirando fundo): Tá… tá… mas é bom que seja rápida.


Letícia o encara. Antônio Carlos faz um sinal para que ela o acompanhe. Os dois caminham até uma área mais afastada do campo, onde alguns bancos ficam protegidos por árvores e o barulho dos adolescentes jogando futebol é mais distante. Antônio Carlos permanece de pé, com os braços cruzados, enquanto Letícia se acomoda em um dos bancos. Ele continua desconfiado.


ANTÔNIO CARLOS: Pois bem. Pode falar. O que a esposa do Ricardo Garcia quer comigo?


LETÍCIA: Antes de qualquer coisa, eu quero que você saiba que meu marido não faz ideia de que estou aqui.


Antônio Carlos solta uma risada curta.


ANTÔNIO CARLOS: E por que eu deveria acreditar nisso?


LETÍCIA: Porque, se ele soubesse, provavelmente tentaria me impedir. O Ricardo não gosta que as pessoas se aproximem de situações que ele considera resolvidas. E, pra ele, essa história do campo já está decidida. Ele acha que o projeto já está ganho.


ANTÔNIO CARLOS: Pelo menos nisso a senhora não tá enganada. Ele já decidiu tudo sozinho, sem ouvir os moradores, sem se preocupar com as famílias que vivem aqui… Mas o campo não é dele, dona Letícia. Nunca foi.


LETÍCIA: Eu sei. E é justamente por isso que vim conversar com você. Eu tenho acompanhado essa situação e acho que vocês precisam ser ouvidos. Não concordo com a maneira como tudo tá sendo conduzido.


Antônio Carlos descruza os braços, mas não demonstra confiança.


ANTÔNIO CARLOS: A senhora me desculpe, mas é difícil acreditar que alguém da família Garcia esteja realmente preocupado com a nossa situação.


LETÍCIA: Eu não espero que você confie em mim de uma hora pra outra. Sei que meu sobrenome não ajuda muito, mas eu gostaria de entender melhor o que vocês estão fazendo pra impedir que esse projeto avance. E por favor, pare de me chamar de senhora.


ANTÔNIO CARLOS: Por quê? O que a senho… você pretende fazer com essa informação?


LETÍCIA: Talvez eu possa ajudar. Existem coisas que eu conheço por estar perto do Ricardo e que podem ser úteis pra vocês. Mas, pra isso, preciso entender o que está acontecendo do lado de cá.


Antônio Carlos a observa por alguns instantes. Letícia sustenta o olhar, procurando parecer sincera.


ANTÔNIO CARLOS: A comunidade tá se organizando. A gente conversa com os moradores, procura apoio, tenta mobilizar quem possa nos ajudar. Não vamos ficar parados esperando que alguém resolva tudo por nós.


LETÍCIA: E vocês já conseguiram algum apoio importante?


ANTÔNIO CARLOS: Estamos conversando com algumas pessoas, mas ainda é cedo pra falar em qualquer resultado.


LETÍCIA: Entendo. E qual seria o próximo passo? Vocês pretendem organizar alguma manifestação, procurar a imprensa, levar a questão pra prefeitura?


Antônio Carlos franze a testa, percebendo a quantidade de perguntas.


ANTÔNIO CARLOS: A senhora tá bastante interessada nos nossos planos, não tá?


Letícia disfarça o desconforto com um sorriso discreto.


LETÍCIA: Estou tentando entender como posso ajudar. Não quero me meter onde não fui chamada, muito menos atrapalhar o trabalho de vocês.


ANTÔNIO CARLOS: Então vou ser sincero com a senhora. A gente não tem nada contra quem quer ajudar de verdade. Mas também não vai sair contando nossos passos pra qualquer pessoa, principalmente pra você que é a esposa do maior vilão dessa história.  


LETÍCIA: É, você tem toda a razão. Não vou insistir no que você não quiser me contar.


Ela faz uma pausa e olha na direção do campo, onde os adolescentes continuam jogando.


LETÍCIA: Só espero que vocês consigam preservar esse lugar. Dá pra perceber o quanto ele é importante pra todo mundo.


ANTÔNIO CARLOS: É importante mesmo. E nós vamos lutar por ele até o fim.


LETÍCIA (se levanta): Bom, é melhor eu ir. Não quero mais te incomodar. Eu creio que ainda vamos nos encontrar em breve, e quando você se sentir pronto pra me contar tudo, me procure.


Antônio Carlos permanece em silêncio. Letícia se vira, indo em direção a saída enquanto ele a acompanha com o olhar.


SONOPLASTIA: SI ANTES TE HUBIERA CONOCIDO - KAROL G


Ao som da música acima, mostramos imagens de São Paulo. Em seguida, cortamos para a casa de Juraci e Melina.


CENA 03: CASA DE JURACI E MELINA/INT./TARDE

Melina está terminando de organizar alguns pratos enquanto Tiffany a espera perto da porta, mexendo no celular. Juraci entra na cozinha e estranha a movimentação.

JURACI: Que tanta comida é essa? Vai vender na rua?

MELINA: Bom tarde pra você também, tia! (sorri) Tô levando alguns pratos pra Lubiju. A Verônica quer conhecer melhor o nosso trabalho, então eu e a Tiffany vamos fazer uma degustação pra ela.

Juraci para o que está fazendo e encara a sobrinha.

JURACI: Como é que é? Você tá me dizendo que vai pra Lubiju?

MELINA: Vou. Ué, eu já não te contei que a gente conseguiu o contrato da festa? Agora é hora de mostrar que o Buffet da Juraci tem qualidade pra atender um evento daquele tamanho.

JURACI: Melina, eu já tr falei que não gosto dessa história!

MELINA: Não entendo esse medo seu… Parece até que eu tô indo pra um lugar proibido. É uma loja, tia! Uma loja de decoração!

JURACI: Você sabe muito bem que não é de uma loja que eu tô falando. É da Mimi Fontanari! Eu não quero você se metendo naquele mundo, se envolvendo com aquela gente esnobe! 

MELINA: Mas eu nem conheço essa mulher! E, sinceramente, não sei por que você fala dela como se fosse um monstro. Ela é uma cliente, e nós somos um buffet que precisa trabalhar. Qual é o problema nisso?

JURACI: O problema é que você não sabe onde tá se metendo! Esse povo tem dinheiro, influência, conhece gente importante… E você acha que vai chegar lá e ser tratada como uma igual?

MELINA: Eu não preciso que ninguém me trate como igual, tia. Eu preciso que respeitem o meu trabalho! Não tô pedindo favor, não tô pedindo esmola. Vou apresentar os pratos que eu mesma preparei, mostrar a qualidade do nosso buffet e conquistar mais uma cliente. É assim que um negócio cresce!

JURACI: Você é muito teimosa, menina! Parece que faz questão de me contrariar!

MELINA: Não é questão de te contrariar! É que eu não posso passar a vida inteira deixando de fazer as coisas porque você tem medo! Eu sei que você se preocupa comigo, sei que quer me proteger, mas chega uma hora em que eu preciso andar com as minhas próprias pernas. 

Juraci desvia o olhar, incomodada com a determinação da sobrinha.

JURACI: Você não sabe de nada, Melina.

MELINA: Então me explica! O que tem de tão errado nessa história? Por que você fica desse jeito toda vez que eu falo da Mimi Fontanari?

Juraci permanece em silêncio por alguns segundos.

JURACI: Porque eu não quero você perto dela. É só isso que você precisa saber.

MELINA: Pois eu sinto muito, mas não vou desistir desse trabalho. Eu e a Tiffany vamos à Lubiju, vamos apresentar nossos pratos e vamos fazer bonito. E eu espero que, um dia, você consiga entender que isso também é importante pra mim.

Melina fecha os recipientes e os acomoda em uma bolsa térmica. Tiffany percebe o clima pesado e prefere não se meter.

MELINA: Vamos, Tiffany? Se a gente se atrasar, a Verônica vai ficar esperando.

TIFFANY: Vamos!

As duas saem. Juraci fica sozinha na cozinha, aflita.

JURACI (para si): Meu Deus do céu… Efigênia deve estar se revirando no caixão a essa hora… 

Ela apoia as mãos na bancada e fecha os olhos por um instante, tentando controlar a angústia..

CENA 04: LUBIJU – COZINHA/INT./DIA

A cozinha da Lubiju é ampla, moderna e impecavelmente organizada. Funcionários circulam a todo instante. Melina e Tiffany entram carregando a bolsa térmica e alguns recipientes. Melina para por um instante, encantada com o espaço.

MELINA (baixinho,para Tiffany): Nossa senhora! Você tá vendo isso aqui? Olha o tamanho dessa cozinha!

TIFFANY: Tô tentando não ficar de boca aberta desde que a gente entrou. Isso aqui é maior que a nossa casa! Eu tô gag de la gag. 

MELINA: E olha esses equipamentos! (aproxima-se da bancada) Tiffany, imagina o que eu faria com uma estrutura dessas. Dava pra preparar tanta coisa ao mesmo tempo… Organizar os pratos, montar as sobremesas, deixar tudo pronto sem precisar improvisar espaço! Quando eu conquistar a minha graduação em gastronomia, quero uma cozinha assim. 

TIFFANY: Já tô vendo. Daqui a pouco você vai querer trazer o colchão e morar aqui.

MELINA: Não me dá ideia! (Ri) Mas, falando sério, é uma estrutura maravilhosa. Se a gente conseguir mostrar nosso trabalho direitinho, quem sabe não aparecem outras oportunidades?

Verônica entra na cozinha e avista as duas.

VERÔNICA: Melina! Que bom que vocês chegaram. Estava esperando por vocês.

MELINA: Oi, Verônica! Trouxemos algumas opções pra você experimentar. Eu pensei em pratos que combinam com o perfil da festa, mas também fiz questão de escolher coisas que tenham a identidade do nosso buffet.

VERÔNICA: Ótimo! Vamos ver o que vocês prepararam.

Melina coloca os recipientes sobre a bancada e começa a organizar a apresentação. Tiffany a ajuda a dispor os pratos, enquanto Verônica observa tudo com atenção.

MELINA: Aqui temos uma entrada de massa folhada com recheio de queijo e ervas. Essa é uma das nossas opções. Depois, temos duas sugestões de pratos principais e algumas opções de sobremesa. Eu procurei equilibrar a apresentação com o sabor, porque acho que um evento desse porte precisa impressionar nos dois aspectos.

Verônica experimenta uma das entradas.

VERÔNICA: Humm… Muito bom! A massa tá crocante, o recheio é delicado… Você que preparou?

MELINA: Eu mesma. A Tiffany também me ajudou na organização e na finalização de alguns pratos.

TIFFANY: A Melina é exigente com tudo! Se uma folhinha fica torta, ela manda arrumar.

MELINA: Tiffany!

TIFFANY: Ué, tô mentindo? (ri) Ela é capaz de passar dez minutos ajeitando um prato que vai ser devorado em trinta segundos!

VERÔNICA (rindo): Isso é bom! Quer dizer que vocês se preocupam com os detalhes.

MELINA: Eu acredito que cada detalhe conta. A pessoa pode até esquecer o que comeu depois de um tempo, mas a experiência que teve durante o evento fica na memória.

Verônica experimenta outro prato, satisfeita.

VERÔNICA: Olha, vocês estão de parabéns. Vou conversar com a Mimi sobre essas opções. Acho que ela vai gostar bastante.

Melina abre um sorriso, aliviada e orgulhosa.

CENA 05: LUBIJU/INT./TARDE

A recepção da Lubiju está movimentada. Funcionários circulam de um lado para o outro, enquanto uma atendente organiza alguns documentos. Otávio entra na loja com postura elegante, roupa impecável e um ar de quem está acostumado a frequentar ambientes luxuosos. Ele observa a decoração com atenção, reconhecendo ali uma oportunidade.

OTÁVIO: Bom dia, mocinha. Eu gostaria de falar com a senhora Mimi Fontanari.

RECEPCIONISTA: O senhor tem horário marcado?

OTÁVIO: Infelizmente, não. Mas é uma questão importante. Tenho interesse em conhecer pessoalmente o trabalho da senhora Mimi e conversar sobre uma possível negociação.

RECEPCIONISTA: O senhor pode me adiantar o assunto? Assim, verifico se ela tem disponibilidade.

OTÁVIO: Claro. Estou procurando artigos de decoração para uma propriedade minha e me falaram muito bem da Lubiju. Gostaria de tratar disso diretamente com a proprietária.

A recepcionista pega o telefone e faz uma ligação. Otávio aguarda, olhando discretamente para os lados.

RECEPCIONISTA: A senhora Mimi está ocupada no momento. Posso agendar um horário para o senhor?

OTÁVIO: Compreendo, mas, se puder fazer a gentileza de avisá-la de que Otávio Girardelli está aqui, agradeço. Tenho certeza de que ela não vai se arrepender de me receber.

A recepcionista hesita, mas volta a telefonar. Alguns instantes depois, recebe uma resposta.

RECEPCIONISTA: A senhora Mimi vai recebê-lo. Por aqui, por favor.

Otávio sorri, satisfeito, e acompanha a funcionária.

Corte. Mimi está sentada atrás de sua mesa, olhando alguns documentos e, quando Otávio entra. Ela ergue os olhos e o observa de cima a baixo, discretamente impressionada com a elegância dele.

MIMI: Olá. Pois não? O que o senhor deseja conversar comigo com tanta urgência?

OTÁVIO: Antes de mais nada, permita-me dizer que é um prazer conhecê-la pessoalmente, senhora Mimi. Otávio Girardelli.

Ele estende a mão. Mimi a aperta, curiosa.

MIMI: Mimi, querido. Senhora Mimi é demais pra minha pessoa, e eu não sou tão velha assim. (sorri) Sente-se, por favor.

Otávio se acomoda diante dela.

OTÁVIO: Muito obrigado. Vou direto ao assunto. Estou procurando peças de decoração para uma propriedade que tenho no interior. Sou fazendeiro e estou investindo bastante na renovação da casa principal. Quero algo sofisticado, de bom gosto, que esteja à altura do lugar.

Mimi endireita a postura, imediatamente interessada.

MIMI: Ah, meu amor, então você veio ao lugar certo! A Lubiju trabalha com artigos exclusivos, peças selecionadas, acabamentos impecáveis... Aqui você não encontra qualquer coisa, encontra personalidade! 

OTÁVIO: Foi justamente isso que me chamou a atenção. Ouvi dizer que a senhora tem um olhar especial para decoração.

MIMI: Especial? (leva a mão ao peito) Querido, eu tenho um dom único! A decoração não é simplesmente colocar um vaso em cima de uma mesa ou pendurar um quadro na parede. É saber transformar um espaço em uma experiência. E eu faço isso como poucas pessoas neste país!

OTÁVIO: Não tenho a menor dúvida. Basta olhar ao redor para perceber que a senhora entende do assunto…

Mimi abre um sorriso satisfeito.

MIMI: Você sabe reconhecer qualidade, Otávio. Isso já é um excelente começo! Agora me diga: estamos falando de uma fazenda pequena, um sítio ou uma verdadeira mansão rural?

OTÁVIO (tosse antes): Uma propriedade bastante digamos que ampla. Quero reformar vários ambientes, mas prefiro fazer tudo com calma. Não gosto de tomar decisões precipitadas quando se trata de investimentos importantes.

MIMI: Perfeito! E eu faço questão de acompanhar pessoalmente um projeto desse porte. Podemos escolher móveis, objetos decorativos, luminárias... Tenho peças maravilhosas que ficariam deslumbrantes na sua propriedade. Se você quiser, já podemos começar a selecionar algumas opções!

OTÁVIO: Confesso que fiquei maravilhado. A senhora tá me dando tantas ideias que já estou imaginando a casa pronta.

MIMI: Então não vamos perder tempo, amoreco! Vou chamar uma das minhas funcionárias para mostrar nosso catálogo exclusivo. Você vai sair daqui querendo levar metade da loja!

Otávio ri com delicadeza.

OTÁVIO: Acredite, minha vontade não é pouca. Mas, infelizmente, hoje não vou conseguir fechar negócio.

Ele tosse mais uma vez. O sorriso de Mimi diminui.

MIMI: Não vai? Mas aconteceu alguma coisa?

OTÁVIO: Nada de tão greve. É que, neste momento, boa parte do meu capital está investida em outros negócios. Estou aguardando o retorno de algumas aplicações antes de liberar recursos para a reforma. Prefiro fazer as coisas com segurança, sem comprometer o que já tá planejado. Entende?

Mimi o observa, tentando disfarçar a frustração.

MIMI: Ah, entendo. Mas você não precisa comprar tudo de uma vez, querido. Podemos começar com algumas peças e ampliar o projeto depois. Tenho certeza de que você vai se apaixonar pelo resultado.

OTÁVIO: Eu não duvido disso. E, quando chegar o momento certo, quero que a senhora seja a primeira pessoa a quem vou procurar. Gosto de negociar com quem entende do próprio negócio e sabe receber bem seus clientes.

Mimi se derrete com o elogio.

MIMI: Você é um encanto, Otávio! Um verdadeiro cavalheiro. Hoje em dia, é tão difícil encontrar alguém que saiba conversar, que tenha educação e que reconheça o valor de um bom trabalho! E pelo amor de Jesus, não me chame de senhora.

OTÁVIO: Ah claro, me desculpe. 

Ele se levanta e Mimi faz o mesmo.

MIMI: Bom, fique sabendo que que as portas da Lubiju estarão sempre abertas pra você. E, quando decidir começar a reforma, quero ver essa propriedade transformada em um espetáculo!

OTÁVIO: Não poderia esperar outra coisa de uma mulher com sua reputação.

Otávio toma delicadamente a mão de Mimi e a beija. Ela se surpreende com o gesto, mas logo abre um sorriso encantado.

OTÁVIO: Foi um prazer te conhecer, Mimi.

MIMI: O prazer foi todo meu, querido. Volte sempre!

OTÁVIO: Pode deixar. Tenho a impressão de que ainda vamos nos encontrar muitas vezes.

Ele solta a mão dela, lança um último sorriso e caminha até a porta. Mimi acompanha sua saída com os olhos, visivelmente satisfeita enquanto morde os lábios.

MIMI: Que delícia. Bem que ele poderia me convidar pra passar um final de semana nessa propriedade… Maria Mirtes Fontanari, minha filha, parece que o universo resolveu mandar um presente pra sua life!

Ela volta para a mesa, ainda encantada, sem desconfiar de que Otávio não foi à Lubiju apenas para falar de decoração. De repente, uma funcionária entra pela porta e vê Mimi mordendo os lábios.

FUNCIONÁRIA: Dona Mimi!

MIMI (se assusta): Misericórdia, que susto, sua desgraçada! Quase me mata aqui… o que foi?

FUNCIONÁRIA: A Verônica pediu para te comunicar sobre a degustação dos pratos que serão servidos na festa de aniversário da Lubiju. As profissionais do buffet estão na cozinha te aguardando.

MIMI: Ah sim, sim! Claro! Já vou. 

CENA 06: LUBIJU/INT./TARDE

INSTRUMENTAL: VICTORIA - FELIPE MIU

A porta que dá acesso à cozinha se abre. Mimi entra, distraída, enquanto termina de falar ao telefone.

MIMI: Não, amoreco, eu quero tudo impecável! Impecável! São vinte e cinco anos de Lubiju, não vinte e cinco minutos! Eu não vou permitir que essa festa pareça uma reunião de condomínio!

Ela encerra a ligação e guarda o celular. Ao se aproximar da bancada, percebe os pratos organizados.

MIMI: Verônica, o que temos aqui? Espero que não seja mais uma dessas invenções culinárias que parecem obras de arte, mas que deixam a pessoa com fome depois de comer.

VERÔNICA: São os pratos do Buffet da Juraci. A Melina veio apresentar algumas opções para a festa.

Mimi ergue os olhos.

MIMI: Ah, então você é a responsável por essas belezinhas?

MELINA: Sou, sim. Melina Ferreira. Muito prazer!

Melina estende a mão, sorrindo para Mimi, que retribui o cumprimento. Em câmera lenta, mostramos elas se encarando enquanto intercalamos entre uma e outra. Mãe e filha se reencontram sem saber que são mais próximas do que imaginam.

CONGELAMENTO EM MIMI E MELINA.