A FILHA DA MINHA MÃE - CAPÍTULO 11 (20/10/2026)


 A FILHA DA MINHA MÃE - CAPÍTULO 11


criada e escrita por

SINCERIDADE


CENA 01: RESTAURANTE LUXUOSO/INT./DIA


Após Mimi convidar Lili para almoçar, elas se sentam à mesa. Mimi ajeita sua bolsa na cadeira enquanto Lili olha ao redor, fingindo estar encantada e envergonhada.


LILI: Foi muita gentileza da sua parte me convidar pra almoçar… eu nem sei o que dizer.


MIMI: Ah, querida, você salvou a minha coxinha de ser abocanhada por aquele cão. Nada mais justo… eu gostei de você, sabe? 


LILI: Gentileza a sua. Eu já vi você nas revistas, nos jornais… me desculpe se eu for indelicada, mas eu vi que a sua filha tá desaparecida há vinte e cinco anos, né? Eu imagino como deve ser a dor.


MIMI (muda o semblante): É, eu não sei como cheguei até aqui… a minha filha foi roubada, tirada de mim à força. Mas eu sei que vou encontrá-la. 


LILI: Nós possuímos praticamente a mesma dor. Eu cresci sem mãe, sem pai, sem ninguém no mundo… 


MIMI: Sério? 


LILI: Sim. Eu cresci num orfanato. Eu era cercada de amiguinhos, mas não tinha um adulto pra me apoiar, sabe? 


MIMI: Poxa, que pena… eu sinto muito. Quantos anos você tem? 


LILI (mentindo): Vinte e sete. Bom, pelo que consta nos documentos, né…


MIMI (Pensativa): A mesma idade da minha filha…


LILI: Quanta coincidência! Olha, eu torço do fundo do meu coração que você encontre a sua filha que tudo se resolva! De verdade. (P) Sabe, eu achava que a senhora fosse uma pessoa esnobe, arrogante… mas o que vejo aqui é uma mulher com o coração muito bom. 


MIMI: Que nada, querida! Você que é boa. 


O garçom se aproxima com o cardápio e elas escolhem. A câmera se afasta. 


HORAS DEPOIS…


CENA 02: HOTEL ROSEWOOD/INT./TARDE


INSTRUMENTAL: THAT IS ALL I KNOW DARLING - IURI CUNHA


Otávio se encontra em frente ao espelho, penteando os cabelos e ajeitando a gola de sua camisa. Instantes depois, Lili abre a porta e entra no quarto, com o semblante de quem acabou de conseguir o que queria.


OTÁVIO: E aí, como foi?


LILI (Sorrindo): Foi perfeito! Você acredita que enquanto eu observava a Mimi de longe criando uma desculpa pra me aproximar dela, a bolsa dela simplesmente caiu no chão e chegou um cachorro querendo comer a coxinha que tava lá? Eu obviamente me aproximei e ajudei. 


OTÁVIO (incrédulo): Mentira. 


LILI: E depois a velha me chamou pra almoçar. 


OTÁVIO: Almoçar? Mas assim, logo de cara? 


LILI: Meu amor, eu tenho o molho né. Sei muito bem como me aproximar de uma idosa carente. (P) Bom, ela me falou umas coisinhas muito importantes sobre a vida dela. 


OTÁVIO: E qual é? 


LILI: Ela me disse sobre a filha desaparecida, contou sobre a morte do marido que ocorreu no mesmo dia, sobre os filhos, sobre a rivalidade com uma mulher chamada Eleonora Valença… enfim, a vida dessa mulher é um verdadeiro hospício. 


OTÁVIO: E você já sabe como nós vamos fazer pra dizer que você é filha dela? 


LILI (pensativa, andando de um lado pro outro): Não… pra eu conseguir entrar dentro da casa dela, primeiramente você vai ter que se aproximar da mulher o quanto antes. Pra não deixar nenhum pingo de desconfiança. 


OTÁVIO: Certo. E como é que eu vou fazer isso? 


LILI: Sei lá, você pode fingir ser um cliente emocionado e ir até a sala dela só pra elogiar um produto, ou que precisa decorar seu imóvel… ela vai gostar, eu te garanto. Mas por favor, mantenha a pose de riqueza, use terno, gravata e penteie esse cabelo, please! 


OTÁVIO: Você me mete em cada roubada…


LILI: Agora não adianta chorar o leite derramado. A gente tá nessa até o fim. (P) Eu não vejo a hora de estar morando na mansão daquela mulher e me passando pela Outono Fontanari, a filha boazinha e do bem. 


Lili se joga na cama, rindo. Otávio a encara, passando a mão pela testa. 


SONOPLASTIA: A LAJE - BAYANASISTEM, EMICIDA, MELLY, KANDACE LINDSAY 


Ao som da música acima, cortamos para imagens da Brasilândia. 



CENA 03: CAMPO DO HORIZONTE/EXT./TARDE


O Campo do Horizonte está movimentado. Adolescentes jogam futebol pela área. Perto de uns bancos, Antônio Carlos (Fabrício Boliveira) conversa com um amigo enquando observa o movimento. 


ANTÔNIO CARLOS: E pensar que aquele sujeito quer transformar isso aqui num condomínio de luxo… olha só a felicidade da turma em ter um lugar pra se divertir. Esses meninos têm um lugar pra jogar, pra conviver, pra aprender a trabalhar em equipe. Tem garoto que passa a semana inteira esperando chegar aqui pra bater uma bola com os amigos. Pra muita gente, esse campo é a única opção de lazer que existe por perto. E o Ricardo acha que pode apagar tudo isso porque apareceu com um projeto milionário debaixo do braço.


AMIGO: E se a prefeitura ficar do lado dele? 

ANTÔNIO CARLOS: A gente continua lutando. Não vou prometer que vai ser fácil, porque não vai. Mas desistir antes de tentar? Isso eu não faço.

O amigo concorda, pensativo. Nesse instante, Letícia entra no campo, um pouco deslocada em meio ao ambiente simples e movimentado. Ela observa os moradores até localizar Antônio Carlos. Respira fundo e caminha em sua direção.

AMIGO (vendo ela chegar): Irmão, acho que tão procurando você.

Antônio Carlos se vira. Letícia para diante dos dois.

LETÍCIA: Com licença. Você é o Antônio Carlos?

ANTÔNIO CARLOS: Sou. Pois não?

LETÍCIA: Meu nome é Letícia Garcia. Eu gostaria de conversar com você.

Os dois se encaram. A câmera intercala entre eles. 


CENA 04: FACULDADE - PÁTIO/EXT./TARDE

Inverno está sentada em um banco do pátio da faculdade, com alguns desenhos apoiados sobre a mochila. Paulinha se aproxima com um sorriso simpático e se senta ao lado dela.

PAULINHA: E aí, como você tá? Melhorou um pouquinho?

INVERNO: Mais ou menos. Minha mãe continua achando que tudo se resolve com um puxão de orelha e um discurso sobre como eu preciso ser forte. Ela não me entende, nunca vai entender. 

PAULINHA: Ah, Inverno… às vezes os pais acham que sabem o que é melhor pra gente, mas não fazem ideia do que a gente passa de verdade.

INVERNO: O pior é que eu nem quero que ela resolva nada. Só queria que me escutasse. Que perguntasse como eu tô, sabe? Mas parece que até isso é pedir demais.

PAULINHA: Eu te entendo. E você não precisa ficar se justificando pra ninguém. Pelo menos aqui você tem alguém com quem pode contar.

Inverno olha para a amiga, agradecida.

INVERNO: Sério, Paulinha, eu não sei o que teria sido de mim nesses últimos dias se você não tivesse aparecido. Você foi a única pessoa que me estendeu a mão quando eu mais precisei.

PAULINHA: Não precisa me agradecer por isso. Eu gosto de você, de verdade. E não suporto ver gente sendo tratada daquele jeito. Você não merece passar por tudo isso.

INVERNO: Às vezes eu fico tão nervosa que parece que vou explodir. 

PAULINHA: Não fica assim. Você precisa encontrar alguma maneira de relaxar, de tirar um pouco esse peso das costas. Não dá pra viver o tempo todo com essa angústia.

Paulinha abre a bolsa, remexe discretamente entre seus pertences e tira um vape. Ela o segura entre os dedos.

PAULINHA: Olha, eu tenho uma coisa aqui que talvez te ajude a se acalmar um pouquinho.

Inverno olha para o objeto, sem entender.

INVERNO: O que é isso?

INSTRUMENTAL: ED S SUITE - IURI CUNHA

Paulinha sorri e estende o vape na direção dela.

PAULINHA: Ué, um vape. Nunca viu? Experimenta, vai. Talvez você consiga relaxar um pouco e esquecer toda essa confusão, nem que seja por alguns minutos.

Inverno encara o aparelho, hesitante. Paulinha mantém o sorriso, esperando pela resposta.

CONGELAMENTO EM INVERNO.