escrita por
SINCERIDADE
UM DIA DEPOIS…
CENA 01: RIO DE JANEIRO/EXT./MANHÃ
A cena mostra imagens belíssimas da cidade maravilhosa ao som de “BONEKINHA - Glória Groove”. Percorremos pela praia de Copacabana, onde as pessoas se divertem e apreciam o nascer do sol. Em frente ao mar, focamos num apartamento enorme, de luxo. No exterior, apresentamos uma sala gigantesca, onde há diversas obras de arte nas paredes, prataria, móveis antigos e fotografias de um casal de idosos espalhadas pelos móveis. No sofá, Cecília (Ana Lucia Torre), de 78 anos, viúva de um conhecido empresário, observa um conjunto de documentos sobre a mesa.
CENA 02: APARTAMENTO/INT./MANHÃ
À sua frente, Rakele (Juliana Paiva), uma mulher elegante, na casa dos trinta anos, segura uma xícara de chá. O sorriso dela é doce. Os olhos estão atentos a cada movimento da idosa.
CECÍLIA: Eu não sei se estou fazendo a coisa certa.
RAKELE: Dona Cecília, a senhora me conhece há quase dois anos. Eu jamais faria alguma coisa para prejudicá-la.
CECÍLIA: Eu sei, minha filha. É justamente por isso que estou pensando nisso. Você apareceu na minha vida numa época em que eu não tinha mais ninguém… Meu marido morreu, meus filhos fingem que eu não existo, e as pessoas que se aproximam de mim geralmente é por interesse.
Rakele baixa os olhos, fingindo emoção.
RAKELE: Não fala assim. A senhora me acolheu quando eu mais precisava. Eu nunca vou esquecer disso.
CECÍLIA: Você foi a única pessoa que ficou comigo no hospital quando operei o quadril. Passou noites aqui, cuidou de mim... Até hoje não entendo por que você fez tudo aquilo sem cobrar nada.
RAKELE: Porque eu gosto da senhora.
Cecília segura a mão dela.
CECÍLIA: Sabe, menina… às vezes, eu penso que Deus mandou você para mim.
Rakele engole em seco. Por um instante, parece incomodada com a sinceridade da idosa. Logo recupera o sorriso.
RAKELE: Então não vamos deixar ninguém estragar isso.
O interfone toca.
CECÍLIA: Deve ser o Otávio. Pedi que viesse para conversarmos sobre os documentos.
Rakele se levanta imediatamente.
RAKELE: Eu atendo.
Ela vai até a entrada e abre a porta. Otávio (João Baldasserini), bem vestido, charmoso e com um ar de tranquilidade, entra carregando uma pasta.
OTÁVIO: Dona Cecília! Que prazer revê-la!
Ele beija a mão da idosa e se senta ao lado dela.
CECÍLIA: Otávio, meu filho, você chegou na hora certa. Estou com algumas dúvidas.
OTÁVIO: É natural. Uma decisão importante merece muito cuidado. Por isso mesmo, trouxe tudo para a senhora conferir com calma.
Ele coloca a pasta sobre a mesa. Cecília abre os documentos.
CECÍLIA: A venda daquele terreno em Petrópolis... Você tem certeza de que vale a pena fazer isso agora?
OTÁVIO: Pelo valor que conseguimos, é uma excelente oportunidade. E a senhora mesma me disse que queria se desfazer dos imóveis que só dão despesa.
CECÍLIA: Sim, mas aquele terreno era do meu marido.
RAKELE: Dona Cecília, a senhora não precisa decidir nada hoje.
Otávio lança um olhar rápido para Rakele.
OTÁVIO: Claro que não. Mas seria uma pena perder a proposta. O comprador está disposto a pagar à vista, e nós conseguimos organizar tudo para que a senhora não precise se preocupar com burocracia.
CECÍLIA: E o dinheiro vai para a minha conta?
OTÁVIO: Sim.
Ele diz isso com tamanha segurança que Cecília relaxa e se sente aliviada.
CECÍLIA: Então está bem. Vou assinar.
Rakele se aproxima, ajeitando delicadamente a almofada atrás das costas da idosa.
RAKELE: Tem certeza, dona Cecília?
CECÍLIA: Tenho sim, minha filha. Confio em vocês.
Rakele e Otávio trocam um olhar quase imperceptível. Cecília assina os papéis.
CECÍLIA: Pronto. Agora me contem uma coisa: vocês vão ficar para o almoço? Mandei fazer aquele bacalhau que vocês gostam.
OTÁVIO: Eu adoraria, mas tenho compromissos.
RAKELE: Eu também preciso resolver umas coisinhas na rua. Mas volto amanhã, prometo.
CECÍLIA: Não demore. A casa fica tão vazia quando você não está aqui…
Rakele abraça a idosa. Cecília fecha os olhos, emocionada. Por cima do ombro da senhora, o rosto de Rakele perde toda a delicadeza.
RAKELE (baixo, para Otávio): Vamos.
Assim que a porta se fecha, Rakele larga o sorriso. Otávio espera o elevador, olhando para os lados.
OTÁVIO: Você precisava fazer esse teatrinho todo?
RAKELE: Claro que precisava. A cacura quase desistiu.
OTÁVIO: Mas não desistiu. Ainda bem.
RAKELE: Não desistiu porquê eu sei com quem estou lidando. A velha não queria vender o terreno. Ela queria uma desculpa para continuar falando do marido morto e me fazer prometer que nunca vou abandoná-la.
OTÁVIO: E você prometeu?
RAKELE: Ué, claro. Prometi até que vou visitá-la no Natal.
O elevador chega. Os dois entram.
OTÁVIO: Cê tem um talento especial pra mentir olhando nos olhos das pessoas. Não tem piedade nem com uma idosa.
RAKELE: Ela já viveu muito com grana. Agora é a minha vez.
Otávio desvia o olhar.
OTÁVIO: Você é insuportável, viu?
RAKELE: E você continua comigo nas falcatruas por quê? É amor?
As portas se fecham.
CENA 03: ESTACIONAMENTO/INT./MANHÃ
Os dois entram num carro. Otávio põe a pasta no banco traseiro e liga o motor.
OTÁVIO: Temos que sair do Rio hoje mesmo. A transferência vai chamar atenção e, se o advogado dela resolver conferir os documentos…
RAKELE: O advogado dela tá mais preocupado em receber os honorários do inventário do que em conferir qualquer coisa. Além disso, a Cecília confia em mim.
OTÁVIO: Confiava, né.
Rakele vira o rosto para ele.
RAKELE: Qual é o seu problema?
OTÁVIO: Meu problema é que você se apega demais aos personagens.
RAKELE: Eu não me apego a ninguém. Muito menos a uma velha milionária que acha que eu sou a filha que ela nunca teve.
Ela abre a bolsa, tira um documento e confere a fotografia.
OTÁVIO: Vai trocar de nome de novo?
RAKELE: Rakele já deu o que tinha que dar.
OTÁVIO: E qual vai ser o próximo?
RAKELE: Liliane de Bourbon. Prazer, Lili. E você, mandei trocarem o seu sobrenome brega por Girardelli. A partir de hoje, você se chama Otávio Girardelli.
Ela entrega o documento a ele.
OTÁVIO: Você é maluca.
LILI (rasgando a identidade antiga): Rumo à São Paulo, meu amor! Gente nova, vida nova, dinheiro novo…
OTÁVIO: E se descobrirem quem você é de verdade?
Lili vira lentamente o rosto para ele.
Seu sorriso é frio.
LILI: Otávio, eu não tenho um nome de verdade. Nunca tive. E não vai ser agora que o exército brasileiro vai sair a procura de uma simples camponesa. Vamos!
Otávio liga o carro e sai dali rapidamente com o veículo, em direção ao aeroporto.
SONOPLASTIA: CICLO SENIL - SCALENE
Ao som da música acima, mostramos imagens do Rio de Janeiro. Em seguida, cortamos para o Aeroporto Santos Dumont.
CENA 04: AEROPORTO SANTOS DUMONT/INT./MANHÃ
O saguão está movimentado. Passageiros atravessam o terminal, malas passam pelas esteiras e os avisos de embarque ecoam pelo ambiente. Lili aparece usando óculos escuros, uma peruca de corte diferente e roupas discretas. Otávio vem alguns passos atrás, carregando duas malas pequenas.
OTÁVIO: Você tem certeza de que é melhor ir para São Paulo?
LILI: Tenho. É uma cidade enorme. Ninguém vai ficar procurando duas pessoas no meio de milhões.
OTÁVIO: E se alguém já tiver descoberto?
LILI: Você pode parar de falar em descoberta, por favor? Parece que tá torcendo para dar tudo errado.
Ela para diante de um painel de voos e confere o horário.
RAKELE: Nosso embarque começa em poucos minutos. Vamos passar pelo controle e entrar no avião. Simples.
Os dois seguem pelo terminal. Antes de chegarem à área de embarque, uma voz os interrompe.
VOZ MASCULINA: Senhorita Rakele?
Eles congelam por uma fração de segundo.
Um homem de terno, acompanhado por um agente de segurança do aeroporto, aproxima-se. Atrás deles está um rapaz que Lili reconhece: o advogado de Cecília.
ADVOGADO (apontando): É ela. Foi essa mulher que estava no apartamento da dona Cecília!
Lili tira os óculos devagar.
LILI: O senhor está me confundindo com alguém. Eu me chamo Liliane.
ADVOGADO: Não estou, não. Dona Cecília acabou de me telefonar. Ela recebeu uma ligação do banco sobre a movimentação dos valores da venda e descobriu que havia alguma coisa errada. O dinheiro desapareceu da conta dela e foi parar na sua! Pediu que eu viesse atrás de vocês.
Otávio segura a alça da mala com mais força.
OTÁVIO: Isso é um absurdo. Nós não fizemos nada!
ADVOGADO: Então não terão problema em conversar com a polícia.
O agente se aproxima.
AGENTE: Senhora, preciso que me acompanhe, por favor.
Lili olha para Otávio. Ele entende o recado imediatamente: é pra correr.
LILI: Eu não vou a lugar nenhum com vocês!
INSTRUMENTAL: O GRANDE ASSALTO - ROGÉRIO VAZ, RAFAEL LANGONI
Ela se vira e dispara pelo saguão.
OTÁVIO: RAKELE! Quer dizer… Lili!
Otávio larga uma das malas e corre atrás dela.
AGENTE: PAREM! SEGURANÇA!
O terminal entra em alvoroço. Passageiros se afastam, uma criança começa a chorar e um funcionário tenta impedir que Otávio atravesse uma área de acesso restrito.
Lili derruba um expositor de folhetos ao passar. Otávio quase escorrega, recupera o equilíbrio e continua correndo.
OTÁVIO: Me espera, sua maluca!
VOZ: Atenção, passageiros do vôo com destino a São Paulo: embarque em instantes. Repito: Embarque em instantes.
Eles passam por uma fileira de cadeiras e viram num corredor lateral. Os agentes vêm logo atrás.
AGENTE: PAREM AGORA!
Lili olha para trás e vê que estão perto demais. Ela puxa Otávio pelo braço e entra numa área movimentada do terminal, desviando de passageiros. Para se desvencilhar do agente, eles correm em círculo, até fazer o segurança os perder de vista.
AGENTE (ofegante): Eles foram! Já era. A gente perdeu.
ADVOGADO: Como assim, “perdeu”? Você não viu para que fila eles foram?
AGENTE: Não.
Minutos depois, os dois reaparecem com outra aparência. Lili trocou a roupa e prendeu os cabelos de um jeito diferente. Otávio usa um boné e carrega uma mochila. Eles seguem para o balcão de atendimento de uma companhia aérea, tentando manter a tranquilidade.
ATENDENTE: Bom dia. Em que posso ajudar?
Lili sorri, simpática.
LILI: Bom dia, querida. Precisamos de duas passagens para São Paulo.
ATENDENTE: Para hoje?
LILI: Se for possível, meu amor, pra ontem!
ATENDENTE: Temos um voo com embarque imediato para Congonhas. Mas preciso dos documentos dos dois.
Lili mantém o sorriso. Otávio, ao lado dela, baixa a cabeça e finge mexer no celular.
LILI: Claro, querida. Só um instantinho.
Ela abre a bolsa e tira duas identidades, entregando elas à atendente, que confere os dados no computador.
ATENDENTE: A senhora, Liliane de Bourbon, e o senhor, Otávio Girardelli?
LILI (simpática): Exatamente, querida! Esse aqui é o meu marido.
OTÁVIO: Marido?!
Lili dá uma cotovelada discreta nele, sem perder o sorriso.
LILI: É, amor! Tá nervoso por quê?
Enquanto a atendente conclui a operação, Otávio se inclina na direção de Lili.
OTÁVIO (baixo): Você ficou maluca? Marido?!
LILI (baixo): Você prefere que eu diga que somos dois fugitivos?
A atendente entrega os cartões de embarque. Lili os pega rapidamente e puxa Otávio pelo braço, seguindo em direção ao portão indicado.
ATENDENTE: Bom voo para vocês!
LILI (simpática): Obrigada, querida! Igualmente!
OTÁVIO (afastando-se): Igualmente o quê, mulher? Ela vai ficar aqui!
Eles se afastam do balcão e seguem até o portão de embarque.
ABERTURA:
SONOPLASTIA: SOU VOCÊ - ERIC MAIA
Ao som da música citada acima, cortamos para São Paulo. O destaque vai para o movimento constante da cidade, com carros e pedestres circulando a todo momento. Corte. A câmera se aproxima de uma mansão enorme, localizada num bairro nobre da cidade.
CENA 05: MANSÃO GARCIA/INT./MANHÃ
Na sala de refeições, Letícia Garcia (Alexandra Richter) termina de organizar os guardanapos sobre a mesa. Elegante e usando um vestido de seda e jóias discretas, ela confere o relógio pela terceira vez. Na cabeceira, está Ricardo Garcia (Tony Ramos), deputado renomado, lendo alguns documentos enquanto toma uma taça de vinho.
LETÍCIA (preocupada): Será que o Gael vai demorar muito?
RICARDO (sem tirar os olhos dos papéis): Não sei, Letícia. Por quê?
LETÍCIA: Nada. É que eu mandei preparar aquele risoto de que ele ama. Você sabe como nosso filho anda comendo mal… Ontem mesmo ele chegou em casa e disse que tinha passado o dia todo sem almoçar. Tudo bem, ele conseguiu um cargo alto na Lubiju, mas também não precisa sacrificar a própria vida por causa de um emprego mal pago.
RICARDO: Ele é um homem adulto. Se não sabe a hora de comer, não sou eu que vou ensinar.
LETÍCIA: Claro, querido. Eu só fiquei preocupada.
RICARDO: Você se preocupa demais com esse menino.
Letícia se cala. Nesse instante, Gael (Filipe Bragança) entra na sala. Ele está de camisa, com as mangas dobradas, e carrega uma pasta debaixo do braço. Cumprimenta a mãe com um beijo no rosto.
GAEL: Oi, mãe.
LETÍCIA: Meu filho! Finalmente. Mandei fazer seu prato preferido.
GAEL: Obrigado, mãe. Depois eu como.
LETÍCIA: Como assim, “depois”? Gael, você precisa se alimentar, meu amor… passa o dia todo trancado naquela empresa sem poder sair… Você tá se hidratando?
GAEL: Tô, mãe. Eu tô bem. Fica calma.
RICARDO (sério): Sente-se, Gael. Precisamos conversar.
GAEL (sentando-se): O que foi dessa vez?
RICARDO: Bom, vejo que você está acompanhando as movimentações sobre o projeto de Brasilândia-
GAEL (interrompe): Tô e eu acho uma palhaçada!
Letícia interrompe o que está fazendo e olha para o filho.
LETÍCIA: Gael, por favor, vamos almoçar primeiro… não quero que vocês discutam.
Ricardo fecha a pasta com calma.
RICARDO: O Campo do Horizonte ocupa uma área que será destinada a um empreendimento imobiliário super lucrativo, Gael. O projeto vai gerar empregos, movimentar a economia e valorizar a região. É um investimento muito importante.
GAEL: Pra quem? Pros moradores que vão perder o único campo de futebol do bairro? Ou pros empresários que estão loucos pra botar a mão naquele terreno?
RICARDO: Não seja ingênuo. A cidade precisa crescer.
GAEL: Crescer não significa passar por cima de todo mundo!
LETÍCIA: Gael, querido, seu pai deve ter os motivos dele…
GAEL: Mãe, você já foi lá? Já conversou com aquelas pessoas? Tem criança que passa a tarde naquele campo porque não tem acesso à escola. Tem um pessoal que organiza campeonato, festa, arrecadação de alimentos... Aquilo é o ponto de encontro do bairro inteiro.
RICARDO: E desde quando você virou especialista na vida de Brasilândia?
GAEL: Desde que resolvi sair dessa bolha e olhar pra fora do portão de casa! Eu conheço muitas pessoas que moram lá e que acham essa ideia de vocês um absurdo.
Letícia percebe a mudança na expressão do marido e tenta intervir, aflita.
LETÍCIA: Gael, não fala assim com seu pai. Ele só quer o melhor pros moradores.
RICARDO: Não precisa me defender, Letícia. Gael tá fazendo um escândalo por causa de um campo de várzea.
GAEL: Não. Eu tô indignado porque você trata a vida dos outros como se fosse um obstáculo no seu caminho. Tudo isso é por causa de que? Dinheiro? Ganância?
RICARDO: Você não faz ideia do que está falando. Eu passei anos construindo uma carreira, estabelecendo contatos, negociando projetos que beneficiam milhares de pessoas. Não vou colocar tudo em risco porque meu filho resolveu bancar o salvador da pátria.
GAEL: Então não coloque. Só não espere que eu fique de braços cruzados enquanto o senhor faz tudo isso.
RICARDO: E o que você pretende fazer? Organizar uma manifestação? Subir num carro de som? Dar entrevista para meia dúzia de jornais de bairro?
GAEL: Se for necessário, sim. Eu faço.
Ricardo solta uma risada curta, sem humor. O celular dele toca, e ele atende.
RICARDO: Alô? Sou eu. Ah, claro, é pra já.
Ele encerra a ligação, guarda o celular no bolso e se levanta, ajeitando o paletó.
LETÍCIA: O que foi? Aconteceu alguma coisa?
RICARDO: Nada demais. Apenas uma reunião urgente.
Ricardo dá um beijo rápido no rosto de Letícia e sai da sala. Ela acompanha o marido com os olhos até ouvir a porta da entrada se fechar.
GAEL: Mãe, você ouviu o que ele falou! Ele tá disposto a acabar com um lugar que é importante pra milhares de pessoas.
LETÍCIA: Seu pai tem as responsabilidades dele. Você precisa entender que a política é muito mais complicada do que parece, meu filho.
GAEL: Lá vem você defender o indefensável.
LETÍCIA: Eu não estou defendendo ninguém! Só acho que você deveria ter mais cuidado com a maneira como fala com ele.
GAEL: Já vi que esse assunto não tem mais jeito…
Letícia fica em silêncio.
LETÍCIA: E a Mimi? Como ela está?
Gael encara a mãe, percebendo a estratégia.
GAEL: Ah, pronto. Mudamos de assunto?
LETÍCIA: Eu só perguntei da sua patroa, meu filho.
GAEL: Tá bom, mãe. A Mimi está ótima. Ótima pra ela, pelo menos. Pra quem trabalha na Lubiju, depende do dia.
LETÍCIA: Ela continua com aquela história da Eleonora?
GAEL (ri): Essa história ainda vai parar nos livros didáticos! Não sei se você sabe, mas a Eleonora abriu uma loja de grife recentemente e a Mimi quer morrer com isso.
LETÍCIA: Ah, sim, Eleonora me contou. Achei o nome bem curioso e minimalista. Mas elas sempre foram assim, desde o colégio essa guerra vem acontecendo. Mas vai muito além de uma rivalidade de colégio.
GAEL: A senhora sabe de alguma coisa que eu não sei?
LETÍCIA: Trate de cuidar da sua vida, rapaz! Você já tem problemas suficientes com seu pai.
GAEL: Mãe…
LETÍCIA: O quê?
GAEL: A senhora tá feliz?
Letícia fica imóvel, sem esperar a pergunta.
LETÍCIA: Que pergunta é essa, Gael?
GAEL: Responda.
LETÍCIA: Ué, eu tenho uma casa, um casamento feliz, conforto, um filho que eu amo... Não me falta nada.
GAEL: Eu não perguntei se não falta nada. Perguntei se a senhora é feliz.
Letícia desvia o olhar.
LETÍCIA: Você precisa parar de fazer essas perguntas difíceis, filho.
Gael se levanta e beija a testa dela.
GAEL: Só queria que a senhora soubesse que não precisa concordar com tudo o que o pai fala pra continuar sendo amada por ele.
Letícia aperta a mão do filho por um instante. Os olhos ficam marejados, mas ela disfarça.
GAEL: Bom, deixa eu voltar pra empresa que ainda tem o segundo round! Fica bem, tá?
LETÍCIA: Vai lá, meu filho, bom trabalho.
Ele se afasta. Letícia permanece sozinha à mesa, pensativa.
SONOPLASTIA: AZIZAM - ED SHEERAN
São mostradas imagens da Avenida Paulista ao som da música citada acima. Em seguida, cortamos para Brasilândia.
CENA 06: CASA DE JURACI E MELINA/INT./FIM DA MANHÃ
A organização para mais uma festa está a todo vapor. Com a ajuda de Tiffany (Mell Muzzillo), Melina confere uma pilha de recibos no balcão e Juraci, usando avental, termina de fechar algumas caixas de salgados.
JURACI: Melina, vem aqui um instantinho!
MELINA: O que foi? Você vai me bater?
JURACI: Engraçadinha! Preciso que você faça um favor pra mim.
Juraci pega um papel e entrega à Melina.
JURACI: Tá vendo esse endereço? É da Silvana, aquela cliente que fez a festa de aniversário da filha mês passado. Ficou faltando uma parte do pagamento e até hoje ela não acertou comigo.
MELINA: Aquela caloteira que queria pagar cento e cinquenta salgados pelo preço de cinquenta?
JURACI: Essa mesma! Engraçado que ela me mandou muitas mensagens elogiando a comida, a organização da festa, e quando chegou a hora de pagar, ela me bloqueou.
TIFFANY: Eu no seu lugar, já teria arrancado o mega hair dessa daí!
Melina ri, tirando o avental.
MELINA: Tá, mas a senhora quer que eu vá buscar o dinheiro lá? E se ela for uma criminosa e mandar sumirem comigo?
TIFFANY (ri): Que besteira, Melina.
JURACI: Eu quero que você converse com ela e receba o que está faltando. Com educação, viu? Não vai chegar lá arrumando confusão.
MELINA: Eu sou a educação em pessoa, tia.
JURACI: E eu sou a rainha da Inglaterra. Pega o recibo, confere o dinheiro e não volta de mãos abanando.
Juraci tira uma chave da gaveta e a coloca na mão da sobrinha.
MELINA: Que isso? A chave do carro? A senhora vai me emprestar o seu carro?
JURACI: Vou, ué. Você vai atravessar a cidade a pé?
MELINA: Tia, aquele carro tá numa fase delicada da vida. Acho que ele precisa de acompanhamento médico, de um check up… eu não sei se teria coragem de dirigir aquela lata velha.
JURACI: Melina!
MELINA: Tá bom, tá bom! Eu vou com todo o carinho do mundo. Se ele pegar no tranco, já considero uma vitória.
JURACI: Melina, você já sabe muito bem como ele funciona. É uma lata velha do bem. (P) Mas vê se volta logo, temos uma encomenda à tarde e eu preciso do carro.
MELINA: Pode deixar. Daqui a pouco tô de volta, com o dinheiro e sem nenhuma peça do carro na bolsa!
TIFFANY: Quer que eu vá com você, Melina?
JURACI: Você vai ficar aqui! (Pausa, olhando pra Melina, que está parada feito uma estátua) Vai, menina!
Melina dá um beijo no rosto da tia, pega a bolsa e sai dali.
CENA 07: CASA DE JURACI E MELINA/EXT./FIM DA MANHÃ
INSTRUMENTAL: 1HFETFUNT1 - IURI CUNHA
Melina chega ao velho carro de Juraci estacionado em frente a casa. Ela abre a porta, coloca a bolsa no banco do passageiro e se acomoda ao volante. Ela encaixa a chave na ignição e gira. O motor engasga. Melina espera alguns segundos e tenta novamente. O carro faz um barulho estranho, mas não liga.
MELINA: Inferno! Vamos lá, Irineu. Eu tenho uma dívida pra receber!
Ela gira a chave mais uma vez. O motor finalmente pega, fazendo a carroceria vibrar.
MELINA: Isso! Sabia que você não ia me deixar na mão! Lindo, Irineu!
Melina ajeita o retrovisor, coloca o cinto de segurança e engata a marcha. O carro sai lentamente da vaga e segue pela rua, rumo à casa da cliente. A câmera mostra o carro ao longe, que solta muita fumaça e faz um barulho estranho.
O instrumental citado acima segue tocando, quando cortamos para imagens do trânsito intenso de São Paulo.
CENA 08: AVENIDA/EXT./COMEÇO DA TARDE
O trânsito está completamente congestionado. Carros avançam poucos metros e param novamente. Melina está ao volante do velho carro de Juraci, batendo os dedos no volante, impaciente.
MELINA: São Paulo… a cidade que não dorme porque ninguém consegue chegar em casa pra dormir.
O carro da frente avança. Melina tira o pé do freio e tenta arrancar, mas o motor engasga. Ela gira a chave, o veículo dá uma sacudida e morre de vez.
MELINA: Não, não, não! Você não vai fazer isso comigo agora!
Ela tenta ligar novamente.
MELINA:: Vamos lindinho, obedece a titia. Vamos, vamos. VAMOS PESTE, OBEDECE!
Melina não tem resultados. Atrás dela, um SUV preto começa a buzinar insistentemente.
MELINA: Ai, meu Deus. Já vai!
A buzina soa outra vez, longa e aguda. Melina olha pelo retrovisor e vê Gael ao volante, visivelmente irritado.
MELINA: Ah, pronto.
Gael e os outros motoristas buzinam mais uma vez.
MELINA (gritando pela janela): O carro morreu! Quer que eu faça respiração boca a boca nele?!
Gael abre a porta, desce do veículo e vai até o carro dela.
GAEL: Você pretende ficar aí o dia inteiro?!
MELINA: Você não tá vendo que esse carro lindo e maravilhoso simplesmente parou de funcionar? Quer que eu faça o que?
GAEL: Que você saia da minha frente e de milhares de motoristas que precisam passar.
MELINA: Nossa, que ideia brilhante! Por que eu não pensei nisso antes?
GAEL: Olha aqui, eu tenho compromisso!
MELINA: Eu também tenho, tá?
Gael olha para o veículo, incrédulo.
GAEL: Você devia ter pensado antes de sair com o carro nessas condições.
MELINA: Ah, claro! Porque eu acordo todo dia e penso: hoje vou sair com um carro caindo aos pedaços só pra irritar desconhecidos!
GAEL: Pelo visto, é exatamente isso que você faz!
MELINA: Escuta aqui, seu... (abrindo a porta do carro e saindo para discutir) Escuta aqui, querido, eu já tô atrasada, tenho uma cliente caloteira e talvez criminosa pra cobrar, minha tia vai me matar se eu não voltar a tempo e esse carro tá fazendo tudo o que pode pra acabar com a minha vida! Então, se você não vai ajudar, pelo menos para de atrapalhar!
INSTRUMENTAL: SE ESQUECERAM DO FRED - IURI CUNHA
Nesse momento que o carro dá um pequeno solavanco e começa a voltar lentamente para trás, sem que eles percebam.
GAEL: Ah, claro, pelo visto só a alecrim dourado tem problemas aqui, né? Eu preciso trabalhar, tá legal? E pra melhorar, a minha chefe só liga pro próprio umbigo e não vai gostar de saber que eu me atrasei porque fiquei discutindo com uma mal educada no trânsito!
MELINA: Mal educado é você, se liga!
Gael percebe que o carro começa a ganhar velocidade ladeira abaixo.
GAEL (assustado): O carro…
MELINA: O QUE TEM O CARRO? TÁ ACHANDO FEIO? É FEIO SIM MAS E DAÍ? É UMA LATA VELHA, MAS É DA MINHA TIA E A GENTE AMA MUITO ELE! SEU CLASSISTA!
GAEL: O CARRO, GAROTA, O CARRO TÁ DESCENDO A LADEIRA!
O velho carro de Juraci está descendo a ladeira sozinho, sem ninguém ao volante, ganhando velocidade a cada segundo.
MELINA: O quê? (ela se vira e se desespera ao ver que o carro está prestes a fazer uma catástrofe) MISERICÓRDIA!
Ela dispara atrás do veículo, desesperada.
MELINA: PARA! PARA, DESGRAÇA! VOLTA AQUI!
GAEL: Como é que você deixou isso acontecer?!
MELINA: EU ESQUECI O FREIO DE MÃO!
GAEL: VOCÊ O QUÊ?!
MELINA: A CULPA É SUA QUE FICOU FALANDO BOSTA NA MINHA CABEÇA!
O veículo ganha velocidade e passa por um automóvel estacionado. Melina corre atrás, quase tropeçando nos próprios pés.
MELINA: MINHA TIA VAI ME MATAR! EU VOU SER DESERDADA! EU NEM TENHO NADA PRA SER DESERDADA! (apontando com o dedo) PEGUEM O IRINEU! PEGUEM O IRINEU!
GAEL: Quem é Irineu?
MELINA: Ué, o carro.
O carro se aproxima do cruzamento. Melina leva as mãos à cabeça, desesperada.
MELINA: MEU DEUS DO CÉU! TEM GENTE NA RUA!
Gael acelera o passo, procurando uma maneira de interceptar o veículo antes que ele chegue ao cruzamento.
GAEL: SAIAM DA FRENTE! O CARRO TÁ SEM MOTORISTA!
Melina continua atrás, gritando alto.
MELINA: SEGURA ESSE CARRO! PELO AMOR DE DEUS, SEGURA ESSE CARRO! IRINEEEEEEU!
O veículo desaparece na curva, seguido pelos gritos de Melina e Gael.
CONGELAMENTO EM MELINA E GAEL.
ENCERRAMENTO:
