A FILHA DA MINHA MÃE - CAPÍTULO 05 (09/10/2026)


A FILHA DA MINHA MÃE - CAPÍTULO 05


criada e escrita por 

SINCERIDADE


CENA 01: MANSÃO DE BRÍGIDA MARQUES/EXT./MANHà


Brígida surge da água, completamente indignada.


BRÍGIDA: VOCÊ ME EMPURROU?! 


MELINA (morrendo de vergonha): Me… me desculpa, pelo amor de Deus, dona Brígida, eu não sei onde tava com a cabeça…


BRÍGIDA: VOCÊ ENLOUQUECEU?! 


Após sair da piscina, Brígida caminha até Melina, completamente furiosa.


MELINA: Por favor, me desculpa…


BRÍGIDA (séria): Eu te desculpo sim, Mê, mas você vai ser desculpada lá no olho da rua! Você tá demitida!


A câmera foca em Melina, assustada, intercalando com Brígida, que a encara seriamente. 


INSTRUMENTAL: ÉRIKA - DANIEL MUSY, RAFAEL LANGONI 


MELINA (desesperada): De… demitida? Brígida, por favor, me perdoa! Eu juro que foi por impulso. 


BRÍGIDA: Ah, por impulso? Você pensa que eu sou o quê, hein? (P) Depois de tantos meses fazendo o papel de boa patroa, é isso que eu mereço? Um banho de água fria? VOCÊ ME ODEIA?


MELINA: Pelo amor de Deus, dona Brígida, me perdoa, eu faço o que você quiser pra eu ser perdoada.


BRÍGIDA: Eu quero é que você saia da minha casa agora! 


MELINA: Brígida, eu juro que não queria que isso acontecesse. Você começou a falar aquelas coisas, eu fiquei nervosa… 


BRÍGIDA: Você é uma louca, é isso que você é! Chega! Não quero mais ver essa sua cara na minha frente nunca mais. Volte pro buraco onde você mora e seja feliz com sua vidinha brega! 


MELINA: Quer saber? CHEGA! CHEGA! Eu cansei de você, cansei desse seu jeito de achar que o mundo gira ao seu redor! Você é uma descompensada, louca de pedra. Os seus seguidores devem ter pena de você. 


BRÍGIDA: Você é muito abusada! Eu devia ter percebido isso desde o primeiro dia!


MELINA: Devia mesmo! E eu devia ter percebido que, por trás desse monte de maquiagem, roupa de grife e foto com filtro, não tinha nada além de uma mulher mimada que não sabe ouvir um não!


BRÍGIDA: Olha como você fala comigo!


MELINA: Eu tô falando como você merece! Cê humilha as pessoas, faz pouco caso de quem trabalha pra você e acha que dinheiro dá o direito de pisar nos outros. E ainda quer posar de mulher maravilhosa na internet! Me poupe, garota. 


BRÍGIDA: Você vai se arrepender de todas essas palavras que disse. Eu vou acabar com a tua raça! 


MELINA (serena): Eu pago pra ver. 


Brígida fica encarando Melina, incrédula com a tranquilidade dela.


BRÍGIDA: Ah, cê tá achando que eu tô brincando? Eu vou fazer questão de que você nunca mais consiga emprego nessa cidade!


MELINA: Nossa, que medo. Vai fazer um story falando mal de mim? É bom que assim eu também ganho uma parcela de fama.


BRÍGIDA: OLHA AQUI SUA…


Brígida leva a mão ao rosto, furiosa, e percebe que Melina já está pegando a bolsa.


BRÍGIDA: Some daqui! SUMA!


Melina segue em direção à saída, mas para por um instante e olha para trás.


MELINA: Ah, e vê se toma cuidado com esses joguinhos de aposta, viu? Uma hora a conta chega. 


BRÍGIDA: FORA DA MINHA CASA!


Melina sai jogando beijinhos. Brígida fica sozinha, tremendo de raiva. Ela tenta respirar fundo, passa as mãos pelos cabelos molhados e olha para o próprio reflexo no vidro do portão.


BRÍGIDA: Eu vou acabar com essa garota.


SONOPLASTIA: DREAM - JOHN PIZZARELLI, MARTIN PIZZARELLI, DON SEBESKY 


Ao som da música acima, mostramos imagens de São Paulo. Logo depois, cortamos para a fachada da Lubiju, empresa de Mimi. 


CENA 02: LUBIJU/EXT./MANHà


A fachada exala poder com cores fortes e letras brilhantes. Um carro luxuoso para em frente ao prédio da Lubiju. O motorista desce e abre a porta traseira. Mimi sai toda toda, usando óculos enormes, bolsa de grife e um conjunto que parece ter sido escolhido para ser visto a quilômetros de distância. Ela ajeita os cabelos e confere o próprio reflexo no vidro do carro.


MIMI (mordendo os lábios): Ai, meu Deus, que mulher! Delícia…


Mimi segue até a entrada da empresa, onde passa pela recepção e entra no elevador. Dentro dele, ela ajeita a roupa e retoca o batom, olhando para o pequeno espelho de mão. No andar onde fica sua sala, funcionários andam pelos corredores para organizar tudo que está fora de ordem.  Ao sair do elevador, Mimi entra no seu escritório e se depara com Primavera (Yanna Lavigne) e Verônica (Nathalia Dill).


PRIMAVERA (sorrindo): Bom dia, mãezinha! Chegou cedo hoje.


MIMI: Mas o que é isso? Minha sala virou plantão de pronto socorro agora? Saudades de quando vocês trabalhavam, e não ficavam aqui me enchendo o saco.


VERÔNICA: Que horror, dona Mimi. A gente só veio te receber com carinho. Depois de uma semana de folga, a senhora merece uma recepção calorosa…


MIMI: Ai, foi ótimo… eu merecia mais uns dias de folga… quem sabe um ano, dois? três? dez?


PRIMAVERA: E a Lubiju ia ficar a Deus dará? Nada disso, queridinha. A senhora tem muito o que fazer aqui ainda, tá? 


MIMI: Tô cansada disso aqui, sabe? Cansada de ser rica, de ter status, fama, rivalidade com aquela bruxa da Eleonora… depois que a Outono sumiu, a minha vida virou um nada, um marasmo. Eu vivo porquê tem que viver. 


PRIMAVERA: Não fala assim, mãe. A senhora tem a mim, ao Verão, que por mais sem juízo que seja, ele ainda te ama muito, e a Inverno.


MIMI (ri): Ai, querida, a única coisa que a Inverno ama neste mundo é o quarto dela, e olhe lá. Aquela lá só não foi morar na rua ainda porque eu não deixei.


VERÔNICA: Que horror, ela deve ter depressão.


PRIMAVERA: Que nada, é frescura dela. Inverno sempre teve tudo de mão beijada, mas não dá valor. (P) Verão é outro que só sabe ir pra farra, beber até cair, e sair dirigindo aquele carro feito um louco. Desculpa, tá, Verônica? Eu sei que é seu namorado, mas eu não posso mentir.


VERÔNICA: Eu sei, Pri. Eu conheço muito bem o namorado que eu tenho. Sei que ele não é santo… já não sei mais o que faço, sabe? Já levei ele pra Grécia, fiz jantar romântico, fiz feitiço, e nada…


MIMI (assustada): Pera aí, você fez o quê? 


VERÔNICA: Ué, dona Mimi, qual o problema?


MIMI: PORQUÊ NÃO ME CONTOU QUE LEVOU ELE PRA GRÉCIA?


Primavera ri. 


PRIMEIRA: Ai, vocês são muito engraçadas. (P) Tá, mas a gente tá aqui por um motivo muito maior, mamãe.


MIMI: O quê, foi? Sua irmã foi encontrada? VERÔNICA, PELO AMOR DE DEUS, VOCÊ NÃO É A OUTONO NÃO NÉ?


VERÔNICA (ri): Não, dona Mimi, pode ficar tranquila. O motivo da gente tá aqui é bem pior.


PRIMAVERA: Bom, eu acho que a senhora ainda não sabe, mas… a sua digníssima Eleonora Valença está prestes a inaugurar uma loja de grife. 


Mimi se ajeita na cadeira, franzindo a testa. 


MIMI: Quê?


PRIMAVERA: Pois é, a sua queridinha que você tanto ama, abriu uma loja que está prestes a concorrer com a Lubiju. Eleo é o nome da carcaça.


MIMI: Eleo? Mas que desgraçada! Quando é que aquela garça comprida vai parar de gracinha pro meu lado e aceitar que perdeu? Eleo… isso é nome de sabonete íntimo?


VERÔNICA: Desculpa, mas todo mundo tem o direito de empreender…


MIMI (levantando rapidamente, batendo na mesa): VOCÊ TÁ DEFENDENDO ELA?


VERÔNICA (se assusta): Não. Jamais faria isso, dona Mimi, só falei a verdade… ué.


Pensativa, Mimi anda de um lado para o outro.


MIMI: Primavera, mande o pessoal do marketing mudar toda nossa campanha para esse mês. Esqueça tudo e mande eles mudarem o tema da campanha. Agora vai ser “MATE A COBRA COM UMA CAJADADA SÓ”. Se ela tiver o mínimo de intelecto, vai saber que foi pra ela.


PRIMAVERA: A senhora ficou louca? A campanha desse mês é sobre os 25 anos do desaparecimento da Outono.


MIMI: Ai, como vocês são incompetentes… façam duas campanhas então! Uma a cada quinze dias. Pronto. AQUELA BRUXA NÃO VAI SER MINHA CONCORRENTE, NÃO VAI!


PRIMAVERA: A senhora tá exagerando!


MIMI: E você tá me irritando! É uma pena, porque eu gosto tanto de você quando você tá quietinha.


Primavera fica ofendida.


VERÔNICA: Mimi, vamos manter a cabeça fria.


MIMI: Cabeça fria é o que eu tenho quando tô no cabeleireiro. Aqui eu quero sangue nos olhos!


Ela aponta para a porta.


MIMI: Chama o marketing! Agora! Quero todo mundo aqui em dez minutos!


PRIMAVERA: Vamos lá, Verônica, vamos fazer o que mamãe pede.


MIMI: ISSO, ISSO! OBEDEÇAM A MESTRA! VÃO MESMO!


Elas sem. Mimi fica na sala, suando frio e tremendo toda. Ela pega seu celular e entra nas redes sociais, quando se depara com uma foto de Eleonora.


MIMI: Tá rindo, né, sua ordinária? Tá rindo porquê?


Ela começa a gritar.


MIMI: VOCÊ NÃO VENCEU NADA! VOCÊ ABRIU UMA LOJA! UMA LOJA! NÃO GANHOU A ELEIÇÃO PRA PRESIDENTE DO PLANETA! EU VOU MOSTRAR PRA ESSA MULHER O QUE É CONCORRÊNCIA! VOU FAZER UMA COLEÇÃO QUE VAI DEIXAR A ELEO PARECENDO UMA LOJA DE COISAS USADAS! VOU FAZER UMA CAMPANHA TÃO CARA, TÃO LINDA, TÃO MARAVILHOSA QUE ELA VAI TER QUE VENDER A PRÓPRIA CASA PRA PAGAR A CONTA DE LUZ!


VERÔNICA (voltando) Mimi, pelo amor de Deus! Lá de fora a gente tá escutando tudo!


MIMI: E VOCÊ PARA DE FALAR "PELO AMOR DE DEUS"! DEUS NÃO TEM NADA A VER COM ISSO! QUEM TEM A VER COM ISSO SOU EU!


Ela ergue o celular, encara mais uma vez a fotografia de Eleonora e solta um grito estridente.


MIMI: EU ODEIO ESSA MULHER! ODEIO! ODEIO! ODEIOOOOOO!


O celular é arremessado contra a parede.


ABERTURA:



ALGUM TEMPO DEPOIS…


CENA 03: CASA DE JURACI E MELINA/INT./DIA


JURACI: DEMITIDA?


MELINA: Tia, não precisa gritar. Eu já tô com a cabeça desse tamanho. 


JURACI: Como é que eu não vou gritar, menina?! Você tinha um emprego! E agora me chega aqui dizendo que foi mandada embora de uma hora pra outra? Que ideia maluca foi essa de jogar a menina na piscina?


MELINA: Tá bom! Eu empurrei. Mas foi depois de ela me tirar do sério! Aquela mulher é impossível!


JURACI: E você não podia ter respirado fundo e simplesmente ter vindo embora?!


MELINA: Podia. Devia. Sei lá! Na hora fiquei tão nervosa que, quando vi, já tinha acontecido.


Juraci larga os ingredientes sobre a bancada e se senta diante da “sobrinha”.


JURACI: Olha, eu não vou dizer que você não tinha motivo pra ficar nervosa. Pelo que você me conta dessa mulher, paciência é uma coisa que você precisa comprar no atacado pra trabalhar naquela casa. Mas precisava chegar a esse ponto? Você nunca foi de agir assim… 


MELINA: Eu sei… eu fiz besteira…


JURACI: E agora? Vai ficar esperando aparecer outro emprego?


MELINA: Vou procurar. Amanhã mesmo começo a mandar currículo.


JURACI: Currículo pra quê, minha filha? Já disse que você pode muito bem trabalhar comigo no buffet! Tô precisando de ajuda, tem encomenda que eu quase não dou conta de entregar sozinha… eu e Tiffany não damos conta só nós duas.


MELINA: Ai, tia, de novo isso?


JURACI: De novo, sim! Você tá sem emprego e eu tô precisando de uma pessoa de confiança. Que oportunidade melhor que essa? Você pode ficar só na parte das entregas, se quiser.


MELINA: Tá… tá bom. Eu aceito. Só não reclama quando seus salgados sumirem, tá?  


Juraci abraça Melina, confortando-a.


JURACI: O José Augusto já sabe que você foi demitida?


MELINA: Ainda não. Ele tá na estrada. Deve chegar mais tarde.


JURACI: Pois é. E como é que você vai contar isso pra ele?


MELINA: Ué, vou contar a verdade. Não tenho por que esconder nada dele.


JURACI: Eu sei, mas vocês tão noivos, Melina. Vocês precisam conversar sobre essas coisas. Ainda mais agora, que tão tentando organizar a vida pra casar.


MELINA: A gente vai dar um jeito. Eu vou pro buffet, ele continua trabalhando com o caminhão e, aos poucos, a gente vai ajeitando tudo.


JURACI: Você fala dele com tanto amor... Mas, às vezes, eu fico pensando se o José Augusto tá tão envolvido nesses planos quanto você.


Melina franze a testa.


MELINA: Como assim?


JURACI: Ah, não sei. Não quero me meter no relacionamento de vocês, mas acho ele meio distante, minha filha. Vive na estrada, passa um tempão longe, vocês mal conseguem ficar juntos... E quando ele tá aqui, parece que tá sempre com a cabeça em outro lugar.


MELINA: Tia, ele é caminhoneiro! Não trabalha sentado num escritório, com hora pra entrar e sair. A vida dele é essa, viajando de um canto pro outro.


JURACI: Eu sei, menina. Não tô dizendo que ele tá fazendo alguma coisa errada. Só acho que, de vez em quando, você precisa sentir que também faz parte da vida dele, entende?


Melina fica pensativa por um instante, mas logo balança a cabeça.


MELINA (se levanta): Bom, já que agora eu faço parte do buffet mais chique dessa cidade, mãos na massa!


Melina pega um dos ingredientes da bancada e começa a ajudar Juraci.


JURACI: Amooo!


As duas riem. Melina volta a mexer nos ingredientes, um pouco mais tranquila. Mesmo assim, de vez em quando olha para o celular, esperando a ligação de José Augusto. De repente, alguém bate à porta. 


JURACI: Deixa que eu vou lá.


Juraci abre a porta e se depara com José Augusto (Sérgio Malheiros) ali, parado, segurando um buquê de flores.


JURACI (surpresa): José Augusto? Meu Deus, a gente tava falando de você a pouco.


JOSÉ AUGUSTO: Bem ou mal?


Ao ouvir a voz do noivo, Melina vai correndo até ele, sorrindo.


MELINA: AMOR! Ai, você não sabe o quanto senti a sua falta… e essas flores lindas?


JOSÉ AUGUSTO: São pra mulher mais linda que existe nesse mundo. Você.


Ele entrega as flores a ela, que recebe toda sorridente. Ela cheira as plantas e o abraça.


MELINA: O que foi que aconteceu? Você disse que chegava só mais tarde.


JOSÉ AUGUSTO: Pois é, eu tava indo pro sul, mas acabou que cancelaram a carga e eu tive que voltar. Não aguentava mais de saudades.


Melina pula no colo dele e eles se abraçam e se beijam. Juraci se sente constrangida.


JURACI: Melhor deixar vocês à sós…


MELINA: Você não sabe o que me aconteceu, amor. Fui demitida.


JOSÉ AUGUSTO: Como é que é? Demitida? Poxa, mas você tava tão feliz com o emprego.


MELINA: Com o emprego, né, se formos falar da empregadora… Eu perdi a paciência com aquela mulher e acabei jogando ela na piscina.


JOSÉ AUGUSTO (sem acreditar): Você fez o quê?


MELINA: Pois é, isso mesmo que você ouviu. Mas pode ficar tranquilo que sem emprego eu não vou ficar. Minha tia me convidou pra trabalhar junto com ela no buffet e eu aceitei.


JOSÉ AUGUSTO: Menos mal, amor. Logo agora que a gente tá arrumando tudo pra casar.


MELINA: Eu quero ser a noiva mais linda que essa cidade já viu! Ao lado do noivo mais lindo…


Eles se encostam.


JOSÉ AUGUSTO: Lembra quando a gente se conheceu? Você era tão, mas tão implicante comigo… nunca pensei que a gente fosse nos tornar o que somos hoje.


MELINA: Eu, implicante? Você que era insuportável, garoto! 


Eles riem.


JOSÉ AUGUSTO: Ainda bem que o tempo mostrou o contrário. 


MELINA (dando beijinhos nele): Eu te amo, te amo, te amo. Te amo muito!


JOSÉ AUGUSTO: Eu te amo mais.


Os dois trocam carícias no sofá, e se beijam. A câmera se afasta.


SONOPLASTIA: SPICY MARGARITA - JASON DERULO, MICHAEL BUBLÉ 


Mostramos várias imagens de São Paulo e o movimento intenso da cidade. Anoitece. No centro da cidade, a câmera percorre a Avenida Paulista e dá destaque a uma lamborghini vermelha. Em alta velocidade, o carro corta as ruas e atravessa o sinal vermelho. A câmera se aproxima e revela o motorista: Verão Fontanari (Bruno Montaleone). 


CENA 04: CARRO/INT./NOITE


Ao lado de uma garota de programa, Verão ouve a música que foi citada acima e acelera sem dar importância aos outros, quase atropelando uma idosa. Sua amante arregala os olhos.


AMANTE: Cuidado, chuchu! Eu não quero me meter em encrenca.


VERÃO: Fica tranquila. Gente velha é um perigo, é atropelada por qualquer coisinha… mas e aí, gostou da nossa tarde?


AMANTE (mordendo os lábios): Se eu gostei? Eu amei… amanhã tem de novo?


Verão percebe que a mulher se apaixonou e desconversa.


VERÃO: Amanhã? Poxa, que pena, amanhã tenho que levar meu cachorro no cachorrologista.


AMANTE: Então a gente marca pra outro dia… você é maravilhoso. 


Verão estaciona o carro.


VERÃO: Pronto. Chegamos. Pode ir pra sua casinha descansar agora. 


AMANTE (se aproxima dele): Quer continuar aqui no carro, bebê?


De repente, o celular de Verão toca e ele  atende imediatamente para se livrar da mulher.


MIMI (voz): Onde você tá, seu inconsequente? A sua namorada tá aqui, te esperando pra comer! Vem logo! AGORA!


VERÃO: Eu tô indo, mãe. Calma. Eu vim resolver uns problemas aqui com o meu sócio, mas já tô indo.


Ele termina a ligação. 


VERÃO: Eu vou ter que ir. Na próxima a gente se vê.


A mulher, já desistindo, apenas aceita o fora e desce do veículo, batendo a porta com violência. Corte. Mostramos o exterior da imponente Mansão Fontanari, toda iluminada e absurdamente decorada.


CENA 05: MANSÃO FONTANARI/INT./NOITE


Na mesa, Mimi, Verão e Verônica estão sentadas, prontas para o jantar. De repente, Verão entra pela porta e vai até Verônica, lhe dando um beijo breve e se sentando em seguida.


VERÔNICA: Poxa, amor, a gente cansou de te esperar. O que é que você tanto faz que some o dia todo? 


VERÃO (gagueja): Eu… eu tava junto com o meu sócio da loja de vinhos, amor… a gente tava trocando uma ideia sobre os lucros pra esse ano…


MIMI: Vinhos… sei.


PRIMAVERA: Cadê a Inverno? Sério mesmo que ela vai ficar enfurnada naquele quarto? 


VERÃO: Aquela garota não tem mais jeito. A gente vai ter que isolar ela até ela começar a sentir nossa falta.


VERÔNICA: Que horror, não fala assim da sua irmã. 


MIMI (séria): Eu vou lá. Vou lá trazer ela pra jantar. Por bem, ou por mal.


Mimi se levanta da mesa e sobe as escadas, indo em direção ao segundo andar. 


CENA 06: MANSÃO FONTANARI/INT./NOITE


INSTRUMENTAL: ANGÚSTIAS DA VIDA - DANIEL TAUSZIG 


No quarto de Inverno (Klara Castanho), a câmera mostra a jovem largada na cama, sem ânimo algum. Ela veste um traje preto, quase gótico. Nos aproximamos do rosto dela, que revela estar abatido e com os olhos inchados. De repente, Mimi começa a bater na porta.


MIMI: Você tem um minuto pra abrir essa porta, Inverno! Ou você abre, ou eu arrombo! 


Inverno permanece na mesma posição em que estava.


MIMI: Vai abrir ou não? Você tem trinta segundos!


Inverno decide se levantar e ir até lá. Ela nem se preocupa em disfarçar seu rosto abatido. Com fraqueza, ela abre a porta e se depara com a mãe, que entra feito um furacão dentro de seu quarto.


INVERNO: O que você quer? 


MIMI (olhando em volta): Misericórdia, o que foi que aconteceu nesse quarto? olha só a bagunça! Olha essa cama toda desarrumada! Você resolveu se identificar como uma porca, minha filha?


INVERNO (séria): Fala logo o que você quer.


MIMI: Me respeita que eu sou a sua mãe! Fala direito comigo! (P) Eu vim te chamar pra comer. Tá todo mundo lá na mesa. Eles estão te esperando.


INVERNO: Pois eu espero vocês saírem de lá pra eu ir. Quanto menos gente eu ver, melhor.


MIMI: Eu fico perplexa com essa situação que você chegou, menina… olha só pra sua cara. Parece que a alma já foi embora a muito tempo.


INVERNO: Você me odeia, né? Desde pequena… você sempre me deixou de lado, nunca reconheceu o carinho que eu tinha por você… 


MIMI: Não fale o que não sabe.


INVERNO: Eu ficava a maioria do tempo sozinha dentro dessa casa enorme enquanto você vivia preocupada em fazer dinheiro e pagando detetive pra achar a minha irmã… agora me fala: que culpa eu tive nisso? Se nunca gostou de mim, por que não me deixou num abrigo, na porta de um convento? Teria sido menos doloroso do que ter que conviver com uma pessoa que se diz mãe, mas nunca me deu um abraço.


MIMI: Tá vendo, é impossível conversar com você! Esse seu vitimismo me cansa, Inverno! (P) Vai sair, vai ver gente! Você fica nesse quarto o dia todo, fazendo sei lá o que, enquanto a faculdade tá abandonada há três semanas. 


INVERNO: Eu vou voltar semana que vem.


MIMI: Ótimo! Perfeito, porque eu não vou ficar gastando o meu dinheiro com coisas que você não usufrui. (P) Sabe o que você precisa? Ter amigos. Ter uma pessoa do seu lado pra ouvir essas baboseiras que você fala, que te dê apoio. Os seus irmãos não tão nem aí pra você, e eu já tô velha demais pra ser amiguinha de uma pessoa que acabou de sair da adolescência. 


INVERNO: Amigos? Você não sabe o quanto é horrível tentar se encaixar num lugar onde as pessoas te olham com nojo, fazem bullying e piadinhas a toda hora. 


MIMI: Se não pode com os inimigos, vire amiga deles, ué.


INVERNO (séria, lacrimejando): Sai do meu quarto. Sai, antes que eu comece a gritar. SAI! SAI! 


Mimi olha pra filha com desdém, e se retira. Inverno bate à porta com força e começa a chorar, sentando-se na beira da cama. A câmera se aproxima de seu rosto.


CONGELAMENTO EM INVERNO.

ENCERRAMENTO: