VALE TODO O PEDAÇO - CAPÍTULO 05 (29/05/2026)

 

 VALE TODO O PEDAÇO - CAPÍTULO 05


criada e escrita por 

SINCE, FAFÁ, NOVELEX E LARICE



(CENA 01: MANSÃO ROITMAN/INT./NOITE)


Tia Tolyna se encontra na sala, de pernas cruzadas e mordendo os lábios. Ela está vendo várias fotos de homens gostosos e sem camisa na internet.


Tia Tolyna: Nossa amigo, que delícia… jajá estarei indo pro quarto fazer umas coisinhas…


Ela continua a ver as fotos, mordendo o lábio a cada uma que aparece. Distraída, ela não percebe que Raquel está atrás dela, vendo tudo.


Raquel (espantada): Tia? 


Tia Tolyna (jogando o celular na parede): Não é isso que você tá pensando, Raquel. Hackearam minha conta! 


Raquel: Oh sua rapariga deixa de mentira, mulher. Eu vi tudo! Eu vi você olhando foto de macho na internet. Que mulher de bons costumes é esse? Mas que velha safada!


Susuana e Pimeugênio escutam o barraco da cozinha. Ela faz o sinal da cruz e os dois correm pra ver.


Pimeugenio: O que está havendo aqui?


Raquel: Eu que pergunto. Quem é essa aí com você?


Susuana (estendendo a mão): Susuana. Prazer. Lór. Prazer… não gosto de usar muito esta palavra, me soa como safadeza, mas enfim… eu estou me candidatando à vaga de cozinheira e o Pimeugenio me recebeu com muito carinho.


Raquel (rindo que nem otária): Mas você diz com uma intimidade! Eu não perguntei pra você, eu perguntei ao Pimeugênio.


Susuana: Quanta soberba! Eu fui criada no convento, tá? E eu sei muito bem que Deus castiga gente soberba!


Pimeugênio (interrompendo): Me perdoem. Essa não era a intenção. Susuana está aqui para a vaga que foi deixada por Palmirinha. Ela vai ser a nova cozinheira, trabalhou em um convento e, segundo a própria, sabe preparar de tudo.


Tia Tolyna (levantando): Seja muito bem vinda, Susuana. Está contratada! Não sei o porquê, mas eu gostei muito de você.


SONOPLASTIA: BAD GUY - BILLIE ELISH


Susuana se alegra, e não contém o sorriso e a felicidade de conseguir concluir a primeira parte de seu plano.


Susuana: JURA? MEU DEUS, MUITO OBRIGADA. QUAL SEU NOME MESMO?


Tia Tolyna: Tia Tolyna.


Susuana: Ai, fico lisonjeada pelo carinho. Vocês não vão se arrepender!


Raquel: Eu vou. 


Pimeugênio e Susuana se retiram. Raquel se senta ao lado de Tia Tolyna e comenta.


Raquel: Não fui com a cara dessa mulher, tia. Eu não senti uma energia boa vindo dela.


Tia Tolyna (segurando a mão de Raquel): Para com isso, boba. A menina só quer trabalhar, deixa ela. Não vai fazer mal à ninguém.


Raquel: Eu sei tia, foi só uma má impressão.


As duas sorriem uma para a outra enquanto trocam olhares doces. Susuana observa tudo por trás do portal que dá acesso a cozinha, com olhar maquiavélico. A música cresce. Cortamos para imagens do Rio de Janeiro amanhecendo.


(CENA 02: TIJUCA/EXT./MANHÃ)


Nô: Tem pão? 🤣


Atendente: Não.


Nô: E pães?


Atendente: Nães.


Nô: Então tchães 🙄. 


Nô e Maria de Fafá se viram e andam em direção ao apartamento de Cubinho.


Nô: É cada uma viu. Só tem gente imprestável nesse lugar! 


Maria de Fafá: Nem fale. Eu não tenho paciência com essa gentinha…


Nô: Por falar em gentinha, lembrei da nossa mãe. Será que ela mora por aqui? Da última vez você quase deu de cara com ela.


Maria de Fafá: Não sei, não, hein. É melhor a gente tomar cuidado. Se bem que ninguém iria hospedar aquela porca. Deve tá morando debaixo de algum viaduto por aí.


Nô: Pobre e orgulhosa do jeito que é, nem pedindo esmola deve tá.


Maria de Fafá e No começam a rir com deboche. Elas continuam caminhando e chegam no prédio de Cubinho.


Cubinho (abre a porta): Mas de novo?! O que é que vocês querem? Sabiam que eu tô até pensando em me mudar de endereço sem dar satisfação pra ninguém? Tô cansado de problema!


Maria de Fafá: Gente… mas isso é jeito de receber sua filhinha e a irmãzinha dela? Confesso que me senti com a consciência pesada e vim aqui te ver, paizinho.


Cubinho: “inho, inha, irmãzinha”… para de falar assim, você não é assim! Tá querendo o que? Fala logo e cai fora!


Maria de Fafá: Então tá, eu vou direto ao ponto, pelo visto o senhor acordou de ovo virado né! É o seguinte, nós sabemos que você é amigo do Rodnato, primo de Prefeita Aurélia, que por sua vez é um dos chefões da LCA.


Cubinho (interrompendo): Amigo? Quem disse que eu sou amigo do Renato? Nós só fomos colegas de faculdade, é muito diferente.


Maria de Fafá: Ai deixa de palhaçada- quer dizer, paizinho nós sabemos que o senhor ainda tem contato com ele hoje em dia. E sabe se lá que tipo de contato né… Nós sabemos que a LCA está organizando um evento em Angra, bem que o senhor poderia nos ajudar conversando com o Rodnato. 


Cubinho: Tá, mas com que intuito?


Nô: Dar uns closes lá, mo. Minha conta no instalacre vai bombar com isso.


Cubinho (olhando com desdém para Nô): Que mesquinha… olha, se eu fosse a Larica já teria te dado umas boas surras, menina.


Maria de Fafá: Olha como fala com a minha irmã. Ela tem os sonhos dela, você respeite! Mas muito obrigada, pai. O senhor ainda tem um resquício de salvação.


Cubinho: E você não tem nenhum!


Na rua, Larica e Ivanlac caminham em direção ao apartamento de Cubinho. Apressada, Larica está indo até lá para pedir desculpas pelo o ocorrido do piano. 


Ivanlac (tentando contê-la): Tem certeza que vai fazer isso mesmo? Aquele homem te odeia, você indo lá agora vai piorar a situação.


Larica: De jeito nenhum, eu não vou conseguir sossegar enquanto não pedir perdão a ele. Eu até entendo o lado do Cubinho, sabe. 


De repente, um ônibus buzina alto. Larica está andando no meio da rua e sem olhar para os lados. Ivanlac segura ela pelo braço e a puxa para trás, salvando-a de ser atingida pelo veículo.


Larica (gritando): COMPROU A CARTEIRA, SEU MERDA? OLHA PRA RUA! ESSA GENTE NÃO TEM UM PINGO DE NOÇÃO!


Ivanlac: Querida, mas a errada era você.


Larica: Escute, amore, e eu lhe perguntei? Eu hein!


De repente um clima surge entre Larica e Ivanlac, ele olha pra ela com uma mistura de tesão e ternura. “CAJU - Liniker” começa a tocar.


Ivanlac (pensando): Essa é a mulher da minha vida! 


Corte. No próximo take, Larica e Ivanlac já estão no corredor que dá acesso ao apartamento de Cubinho. A mocinha bate na porta com força, mas sem dizer uma palavra. 


Maria de Fafá: Quem será que tá batendo? O senhor tá esperando alguém?


Cubinho: Sim, pedi uns remédios na farmácia. Deve ser eles!


Nô (sussurra): E se for a mamãe? 


Maria de Fafá: Acha mesmo que ela iria bater sem falar ou gritar? Relaxa.


Cubinho abre a porta e se depara com Larica e Ivanlac. 


Cubinho: VOCÊ? Olha aqui, se veio pra quebrar mais alguns objetos da minha casa pode ir se retirando! Isso aqui não é a casa da mãe Joana!


Larica: Fique tranquilo. Eu vim até aqui pra me desculpar com você, Cubinho. Eu pensei muito, e-


Ao dar alguns passos à frente, Larica acaba olhando para Maria de Fafá e Nô, paradas no meio da sala. As três se encaram e a câmera intercala. Um instrumental tenso sobe. Envergonhadas, Maria de Fafá e Nô tentam cavar um buraco ali, mas já não tem como fazer mais nada.


Larica (lacrimejando): Filhas… minhas filhas… vocês estão aqui! Meu Deus! Vocês não sabem o quanto eu pedi a Deus para que ele me mostrasse onde vocês estavam. Eu cheguei a pensar que vocês tinham morrido, ou que alguém tinha feito algo ruim pra vocês…


Emocionada, ela vai até às filhas e abre os braços em um sinal de abraço, mas ao se aproximar de Nô, ela tem uma surpresa.


Nô (olhando a mãe com desdém): Você não sabe o quanto a gente fugiu da senhora e tentou ao máximo evitar te encontrar aqui.


Larica (arregala os olhos, sem entender): Como? 


Maria de Fafá: É isso mesmo, mãe. A gente veio pro Rio de Janeiro porque não aguentavamos mais aquela vidinha medíocre que levávamos naquele lugar medonho.  Você sempre com essa sua adoração à pobreza, com esse espírito de porco, nunca deixou a gente realizar os nossos sonhos! Então a gente decidiu fazer tudo sozinha, sem você por perto pra atrapalhar!


Larica: Mas vocês sempre tiveram tudo, minhas filhas! Eu nunca deixei faltar nada. Sempre dei amor, carinho, educação… 


Nô (ri, debochada): É só isso que você tem a oferecer? A gente cresceu no meio daquela porquice, fedendo à lavagem de porco e farelo de galinha a vida toda, sem nenhuma dignidade, sem nenhuma oportunidade de crescer na vida! E você me vem com esse papinho pra boi dormir?


Larica: Mas era isso o que tinha a oferecer para vocês, minhas filhas. Eu também cresci na roça, na pobreza, mas eu sempre fui feliz com o que a vida me entregou, sempre tentei enxergar o lado bom de tudo.


Maria de Fafá: Porque é uma anta! Esse é o seu problema, mamãe. Você não quer crescer na vida, sempre foi acostumada com essa vidinha xoxa e medíocre que a senhora sempre viveu. Não existe uma pessoa nesse mundo mais burra e idiota que a senhora! Você não é exemplo de nada, apenas de como ser uma pobretona xexelenta!


Ao ouvir isso, Larica desfere um tapa contra o rosto de Maria de Fafá.


Larica (gritando): ME RESPEITA, MENINA, QUE EU AINDA SOU SUA MÃE! (chorando) Eu não sei o que ou quem fizeram a cabeça de vocês contra mim… eu não me conformo com tamanha ofensa vindo das minhas próprias filhas… que eu criei com tanto amor…


Nô: Não é ofensa, mamãe, é a dura e horrível realidade em que a senhora vive e se recusa a enxergar. (ela olha para Ivanlac) E esse aí, quem é? Não vai me dizer que é seu namoradinho. (ela ri) Cuidado pra não pegar cheiro de cebola, tá? 


Maria de Fafá: Ela não teria coragem de fazer isso com o seu pai, Nô. 


Larica (lacrimejando): Eu não deveria estar falando isso pra vocês, mas o Emadeu não está mais entre a gente. Nem ele, e nem o meu pai.


Maria de Fafá e Nô se entreolham, chocadas. Cubinho também encara Larica sem entender nada.


Nô: O que? Do que você tá falando, sua louca?


Larica: É uma longa história e eu não estou com cabeça pra falar sobre isso agora.


Maria da Fafá (indiferente): Então vamos embora, Nô. Não há mais nada para fazer aqui e temos compromissos mais sérios a tratar.


Nô (olhando para Larica, provocante): Claro. A minha carreira de digital influencer me aguarda!


As duas se retiram acenando discretamente para os que ficam.


Larica: Bonito para a sua cara, né, Cubinho? Tava escondendo as duas, sim. VOCÊ ESTAVA MENTINDO PARA MIM!


Cubinho: Não enche, Larica! Você viu que suas filhas não estão nem aí para você e mesmo assim faz todo esse escândalo? Vai quebrar mais o que agora? Porque o meu piano, minha maior conquista de todas, você já destruiu. Melhor ir dando meia volta e saindo da minha casa, porque eu quero PAZ.


Larica segura as lágrimas e se retira sem dizer mais nada. Ivanlac sai junto com ela, tentando consolar.



ABERTURA 




VINHETA DE INTERVALO (VOLTA):



(CENA 03: CASA DE DONA BUCÊ/INT./MANHÃ)


Larica entra chorando com raiva na casa de Dona Bucê, acompanhada de Ivanlac. Ela sobe correndo para o quarto, passando e ignorando todos da sala. Dona Bucê percebe e vai atrás.


Dona Bucê (batendo na porta, entrando pelo quarto ): Dá licença. Larica? O que aconteceu, meu anjo?


Larica (se sentando na cama, secando as lágrimas): Eu nunca me senti tão humilhada na minha vida… nem no dia que eu fui despejada das minhas terras. 


Ivanlac faz um carinho em Larica.


Dona buce (acolhendo Larica): O que foi, minha filha. Pode me contar o que houve, estou aqui pra te ajudar.


Larica: Eu encontrei as minhas filhas.


Dona Bucê (sorrindo): Mas isso não é motivo pra gente comemorar? Você finalmente encontrou elas, Larica! Meu Deus!


Larica: Seria se elas não tivessem feito o que fizeram hoje, agora, praticamente. Elas olharam nos fundos dos meus olhos e se sentiram no direito de me humilhar. Minhas próprias filhas me rejeitaram. Me disseram coisas horríveis que eu não seria capaz de dizer nem pra pessoa que eu mais odeio. 


Dona Bucê: Que horror, Larica. Como que alguém é capaz de te rejeitar, uma mulher incrível que nem você.


Ivanlac: Duas moças que não percebem o que estão fazendo, agindo assim com a própria mãe.


Larica: Mas elas estão iludidas. Iludidas! Tenho certeza que tem alguém fazendo a cabeça delas, elas não são assim, elas nunca me trataram dessa forma. Só sei que agora eu estou sem rumo, meu propósito era encontrar elas, agora que achei não sei mais o que fazer. 


Dona Bucê: Mas você não está sozinha. De jeito nenhum! Nós estamos aqui, com você. E vamos permanecer até quando você quiser. Nascemos pra ajudar uns aos outros.


Larica (sorrindo): Deus colocou vocês na minha vida. Eu realmente não sei o que faria, porque até o meu ex marido me deixou de lado.


Larica se levanta. 


Larica (se ajeitando): Chega! Chega de chorar por quem não merece que eu derrame minhas lágrimas! Já que eu não tenho outra opção, já que eu não posso mudar o que já foi, eu vou mudar o que está por vir!


Dona Bucê: Como assim? 


Larica: Eu vou crescer pelo meu esforço, eu vou crescer pela minha força, de forma honesta! Eu sou a dona do meu destino, a capitã da minha vida. Vou sair dessa fossa, Dona Bucê. Eu vou sair!


O instrumental do congelamento começa a aparecer, e a câmera alterna entre os rostos de Maria de Fafá e Larica da Paz. 


CONGELAMENTO EM LARICA.


ENCERRAMENTO