A FILHA DA MINHA MÃE - CAPÍTULO 19
criada e escrita por
SINCERIDADE
CENA 01: LANCHONETE/INT./TARDE
Melina entra na lanchonete,, observa o ambiente e procura por Lili. Logo a identifica sentada a uma mesa próxima à janela. Lili acena com simpatia. Melina se aproxima.
LILI: Melina! Que bom que você veio!
MELINA: Oi, Lili!
Melina e Lili se cumprimentam.
MELINA: Bom, eu trouxe algumas opções pra você experimentar. Tem coxinha, bolinha de queijo, quibe, empadinha... Separei um pouquinho de cada coisa.
LILI: Ai, que maravilha! Eu tava curiosíssima pra provar. Coloca aqui, pode deixar.
Melina abre a caixa e começa a organizar os salgados em uma bandeja sobre a mesa.
MELINA: Fiz questão de trazer tudo fresquinho.
LILI: Que capricho! Só de olhar já dá vontade de comer tudo.
MELINA: Experimenta! Depois você me diz o que achou.
Lili pega uma coxinha e dá uma mordida.
LILI: Meu Deus! É maravilhosa! A massa é levinha, o recheio é bem temperado... Eu adorei!
MELINA: Essa é a especialidade da casa. Minha tia tem uma receita antiga, que passou de geração em geração.
LILI: Pode ter certeza que vou querer encomendar toda semana! (ri) Mas me conta, como você começou a trabalhar com isso?
MELINA: Foi com a minha tia, a Juraci. Ela sempre trabalhou com comida, fazia encomendas, organizava festas pequenas. Eu fui aprendendo com ela e acabei tomando gosto pela coisa. Hoje, a gente toca o Buffet juntas.
LILI: Que bacana! E vocês são muito próximas?
MELINA: Demais. Ela me criou. É praticamente minha mãe.
LILI: E você nasceu aqui em São Paulo?
MELINA: Nasci, sim.
LILI: E seus pais? Você tem contato com eles?
MELINA: Na verdade, nunca tive pai. Minha mãe me criou sozinha, mas morreu quando eu ainda era criança. Depois disso, a Juraci ficou comigo.
LILI: Nossa, Melina... Sinto muito.
MELINA: Já faz muito tempo. Às vezes sinto falta de ter conhecido melhor minha mãe, de saber como seria minha vida se ela ainda estivesse aqui. Mas a Juraci nunca deixou que me faltasse amor.
LILI (mentindo): Eu sei bem como é isso. Também não tive pai nem mãe. Fui criada num orfanato.
MELINA: Sério?
LILI: Não tenho lembranças de uma família, de uma casa, dessas coisas que parecem tão simples para outras pessoas. Saí de lá ainda jovem e precisei aprender a me virar sozinha.
MELINA: Nossa... Não deve ter sido fácil.
LILI: Não foi. Mas a gente acaba aprendendo a seguir em frente. Meu sonho é reencontrar a minha família.
Melina concorda e sorri. Enquanto conversa, pega um guardanapo para limpar algumas migalhas que caíram sobre a mesa. Lili aproveita o instante em que Melina se inclina para organizar a bandeja e recolhe discretamente um fio de cabelo que ficou preso no encosto da cadeira. Guarda-o cuidadosamente na bolsa.
LILI: E você? Tem irmãos?
MELINA: Não que eu saiba. Minha mãe nunca falou muito sobre meu pai, então não tenho como saber se tenho outros parentes por aí.
LILI: Entendi... (pausa) Mas chega de falar de tristeza! Quero experimentar esse quibe também.
Lili pega outro salgado e dá uma mordida.
LILI: Está tudo delicioso!
MELINA: Fico feliz!
LILI: Gostei muito de você, Melina.
MELINA: Eu também gostei de conhecer você. Quem sabe não seremos grandes bests?
LILI: Tomara, querida!
As duas continuam conversando e experimentando os salgados.
CENA 02: HOTEL ROSEWOOD/INT./TARDE
Lili está sentada na cama do quarto do hotel, mexendo no celular. Otávio sai do banheiro, vestindo uma camisa.
OTÁVIO: Olha só! Chegou e não deu nem um pio.
Lili se levanta, abre a bolsa e retira um pequeno saquinho e mostra a Otávio um fio de cabelo.
LILI (rindo): Consegui.
OTÁVIO: Conseguiu o quê, garota?
LILI: Um fio de cabelo da Melina. Eu me encontrei com ela hoje numa lanchonete, fingi que tava encomendando uns salgados, e aproveitei a chance.
OTÁVIO: E o que você pretende fazer com isso?
LILI: Ué, um teste de DNA, querido. Quero comparar o material genético dela com o da Mimi.
OTÁVIO: Cê acha mesmo que ela pode ser a filha perdida da velha?
LILI: Não sei… tá muito estranha essa história, sabe? Eu fiz um pequeno interrogatório com a Melina, perguntei sobre a família dela, sobre os pais, e ela me disse que não conheceu o pai, apenas a mãe. Ela faleceu quando a Melina era criança e a tia acabou de criar. Isso não bate com o que a gente tá pensando, mas aquele amuleto… aquele amuleto é a única coisa que pode fazer a gente desconfiar de alguma coisa. Por isso tô fazendo isso.
OTÁVIO: Mas você tem mesmo certeza de que esse amuleto é igual ao da menina desaparecida?
LILI: Tenho quase certeza. Eu vi a fotografia da Outono naquela reportagem. A fênix é praticamente idêntica! E não é um pingente qualquer, não. É uma peça antiga, bem específica. Não dá pra simplesmente ignorar isso.
OTÁVIO: Mesmo assim, pode ser coincidência.
LILI: Pode. E é justamente por isso que vou fazer o exame. Não quero ficar trabalhando com suposição. Se a Melina não tiver parentesco com a Mimi, ótimo! A gente segue com o nosso plano até achar a verdadeira Outono.
OTÁVIO: E se tiver?
Lili fica séria por um instante, olhando para o saquinho em suas mãos.
LILI: Se tiver, vamos ter um problema. Porque não dá pra eu me apresentar como filha da Mimi com a verdadeira filha dela viva por aí.
OTÁVIO: Então você vai precisar conseguir o material genético da Mimi também.
LILI: Exatamente. E isso não vai ser difícil. Vou arrumar uma maneira de me encontrar com ela, conseguir um fio de cabelo e mandar os dois materiais para análise.
OTÁVIO: Você tá disposta a ir até o fim com isso?
LILI: Otávio, eu já fui longe demais pra desistir agora. E, se o resultado confirmar que a Melina é a Outono, a gente vai ter que dar um fim nela. Não vou deixar essa garota colocar tudo a perder.
Otávio a observa, um pouco apreensivo.
OTÁVIO: Você fala como se fosse a coisa mais simples.
LILI: E outra coisa: eu quero resolver isso logo! Não aguento mais pagar diária de hotel. Você tem ideia de quanto dinheiro a gente já gastou aqui?
OTÁVIO: Você queria ficar num hotel de luxo, lembra?
LILI: Queria, mas por alguns dias só! Não por uma eternidade! Eu tô cansada de viver com mala aberta, roupa espalhada e a conta chegando. Quero entrar naquela mansão, ter um quarto só meu, um closet enorme e empregados pra fazer tudo!
OTÁVIO: Primeiro a gente precisa conseguir o cabelo da Mimi. Se você quiser, eu posso conseguir pra você. A Mimi me chamou pra jantar hoje na casa dela.
LILI: Ótimo, perfeito!
Lili abre um sorriso ambicioso. .
LILI: A Mimi vai me receber de braços abertos. E ninguém vai tirar de mim a vida que eu estou prestes a conquistar. Ou melhor, que ESTAMOS prestes a conquistar.
Otávio e Lili se aproximam, se beijando em seguida.
SONOPLASTIA: PROPOSTA - ANITTA
Cortamos para imagens de São Paulo, e em seguida, para o exterior de um motel.
CENA 03: MOTEL/INT./TARDE
Verão e Brígida estão deitados na cama, depois de terem acabado de se relacionar. Os dois recuperam o fôlego. Brígida está com os cabelos desgrenhados, satisfeita. Verão pega o celular na mesa de cabeceira.
BRÍGIDA: Tá procurando o quê?
VERÃO: Tô vendo uma coisa aqui.
BRÍGIDA: Sei... Aposto que é o meu vídeo.
VERÃO: Acertou, gostosa. Aliás, foi por causa dele que eu te mandei mensagem.
BRÍGIDA: Ah, então quer dizer que uma dancinha minha foi suficiente pra tirar o senhor de casa?
VERÃO: Você não tem noção! Eu tava tranquilinho, mexendo no celular, quando apareceu aquele vídeo. Depois que eu vi, não consegui mais prestar atenção em nada.
BRÍGIDA (vaidosa): Também, com esse corpíteo! É praticamente um patrimônio nacional.
Ela pega o celular da mão dele e observa a própria publicação.
BRÍGIDA: E você só curtiu? Podia ter comentado alguma coisa. Um elogio, uma declaração...
VERÃO: Eu mandei mensagem no particular. Não precisava fazer escândalo na internet.
BRÍGIDA: Ah, entendi. O senhor é discreto! Principalmente porque tem uma noiva em casa, não é?
Verão muda de posição na cama.
VERÃO: Lá vem você com isso...
BRÍGIDA: Ué, não posso perguntar da Verônica? Ela sabe que você veio me visitar?
VERÃO: Brígida, vamos falar de coisa boa? A noite está tão agradável...
BRÍGIDA: Você é um danado! Danado, gostoso, cheiroso, grande, peitudo, musculoso, uma delícia. Só por isso, você merece uma surpresinha.
Brígida abre um sorriso malicioso. Estica o braço até a bolsa, que está sobre a poltrona, e retira um par de algemas.
VERÃO: O que é isso?
Ela se aproxima, segura os pulsos dele e coloca as algemas. Verão começa a rir, surpreso.
VERÃO: Você é maluca!
Brígida sobe na cama, posiciona-se sobre ele e começa a fingir que lhe dá chicotadas com a mão, acompanhando cada movimento com sons exagerados.
BRÍGIDA: Toma! Toma! Isso é por esconder tudo da namorada!
VERÃO (fingindo): Ai! Socorro! Estão me torturando!
BRÍGIDA: Cala a boca! Ainda não terminei!
VERÃO: Eu quero fazer uma denúncia!
BRÍGIDA: A denúncia foi arquivada!
Os dois caem na gargalhada. Brígida continua a brincadeira, enquanto Verão tenta se esquivar, sem conseguir se livrar das algemas. Brígida se inclina para beijá-lo. Verão corresponde, ainda rindo. A câmera se afasta, deixando os dois entregues ao momento.
HORAS DEPOIS…
CENA 04: MANSÃO FONTANARI/INT./NOITE
A sala de jantar da mansão está impecavelmente arrumada. Mimi desce a escada usando um vestido elegante, brincos chamativos e os cabelos arrumados. Ela observa a mesa, ajeita um guardanapo e sorri, satisfeita.
MIMI: Perfeito!
A campainha toca. Mimi abre um sorriso e caminha apressada até a porta. Ao abri-la, encontra Otávio, muito bem-vestido, segurando um pequeno buquê de flores.
OTÁVIO: Boa noite, Mimi.
CENA 05: CASA DE JURACI E MELINA/INT./NOITE
Melina está sentada no sofá da sala, mexendo no celular. Juraci está acomodada em uma poltrona, lixando as unhas e observando a televisão ligada. A campainha toca.
MELINA: Já vai!
Melina deixa o celular sobre o sofá e caminha até a porta. Ao abrir, encontra José Augusto. Ela fica surpresa, mas logo abre um sorriso.
MELINA: Amor! Oi! Entra!
Ele entra com frieza e cumprimenta Juraci.
MELINA: Olha, antes de qualquer coisa, eu queria te pedir desculpas. De verdade. Eu sei que fui grossa com você, não precisava ter mandado você embora daquele jeito. É que as coisas ficaram muito confusas, você chegou alterado, o Gael estava aqui e…
JOSÉ AUGUSTO: Melina...
MELINA: Não, espera, deixa eu terminar. O Gael só foi até lá porque ficou preocupado comigo depois de tudo o que aconteceu na festa. Ele não estava tentando se meter na nossa relação, nem nada disso. Ele foi gentil, só isso. Eu tava abalada e precisava conversar com alguém. Mas você sabe que eu não queria que aquilo virasse aquela discussão toda.
JOSÉ AUGUSTO: Já acabou?
MELINA: Acabei... Quer dizer, eu só queria que você entendesse o que aconteceu.
JOSÉ AUGUSTO: Eu já entendi.
MELINA: Então pronto. A gente pode conversar com calma, sem brigar. Eu não quero ficar mal com você.
José Augusto olha para ela por alguns segundos, sério.
JOSÉ AUGUSTO: Eu vim justamente pra conversar sobre isso.
MELINA: Ótimo. Também acho que a gente precisa conversar. Eu fiquei pensando no que aconteceu e...
JOSÉ AUGUSTO: Melina, eu quero terminar o nosso noivado.
Melina fica imóvel, tentando entender o que acabou de ouvir.
MELINA: Como assim?
JOSÉ AUGUSTO: Acho melhor a gente acabar com esse relacionamento.
A câmera intercala entre os dois.
CONGELAMENTO EM MELINA.
