A FILHA DA MINHA MÃE - CAPÍTULO 18 (05/11/2026)


 A FILHA DA MINHA MÃE - CAPÍTULO 18

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SINCERIDADE 

CENA 01: MANSÃO FONTANARI/INT./DIA

Mimi está deitada na cama, sob os lençóis, usando um tapa-olho. Primavera bate à porta três vezes, mas não recebe resposta.

PRIMAVERA: Mãe? Tá tudo bem? A senhora não apareceu hoje na Lubiju, fiquei preocupada…

Sem ouvir resposta, Primavera abre a porta e entra no quarto. Aproxima-se da cama e, ao perceber que a mãe está acordada, retira delicadamente o tapa-olho de seu rosto. Mimi está com os olhos inchados e marejados de tanto chorar.

MIMI: Eu tô arrasada, Pri… arrasada. 

PRIMAVERA: Mas porquê, mãe? Tá tudo bem agora. Inverno já está em casa, sã e salva.

MIMI: Tudo bem? Você chama isso de tudo bem, Primavera? Eu estou vivendo uma desgraça atrás da outra! Primeiro aquela festa horrorosa, depois aquela comida com cheiro de esgoto, aquele buffet de quinta categoria... E, pra completar, minha filha é sequestrada! Eu devo ter salgado a Santa Ceia, só pode!

Mimi leva as mãos ao rosto e começa a chorar novamente.

PRIMAVERA: Mãe, calma…

MIMI: Não! Eu sou um fracasso, Pri! Um fracasso como empresária, como anfitriã,, como mãe! A Lubiju faz vinte e cinco anos e o que acontece? Um vexame público! Meus convidados passando mal, aquela gente toda filmando, a imprensa comentando... E pra fechar com chave de bosta, minha filha é quase morta por marginais.

PRIMAVERA: Mas a Inverno está em casa. É nisso que a senhora tem que se concentrar agora.

MIMI: E aquele Buffet daquelas pobretonas? Você acha que eu vou deixar aquilo barato? Eu vou processar a Juraci! Aquela mulher vai responder por cada centavo que me fez perder! Olha o que aconteceu naquela noite! Minha filha quase morreu!

PRIMAVERA: Mãe, uma coisa não tem nada a ver com a outra. O sequestro da Inverno não foi culpa da Juraci.

MIMI:  Foi sim, e da Eleonora também! Aposto que aquela jararaca ficou sabendo de tudo e está comemorando até agora!

PRIMAVERA: A senhora precisa parar com isso! Toda vez que alguma coisa dá errado, procura alguém pra culpar. É a Juraci, é a Eleonora, é o buffet, é todo mundo! Mas nunca olha pra si mesma!

MIMI: Cê tá dizendo que a culpa é minha?

PRIMAVERA: Eu estou dizendo que a senhora precisa assumir os próprios problemas! A festa foi um desastre, sim. A senhora se excedeu com a Juraci, humilhou pessoas na frente dos convidados e não soube lidar com a situação. E, quanto à Inverno, a senhora precisa reconhecer que não estava prestando atenção no que acontecia com ela.

Mimi abaixa a cabeça, sentindo o peso das palavras.

MIMI: Eu sei... Eu sei que errei. Mas parece que tudo de ruim acontece comigo! Eu não aguento mais!

PRIMAVERA: Então chega de ficar deitada chorando e se lamentando! A senhora é Maria Mirtes Fontanari! É dona da Lubiju! Já enfrentou tanta coisa nessa vida e não vai ser uma festa desastrosa que vai acabar com você.

Primavera puxa delicadamente o edredom e estende a mão para a mãe.

PRIMAVERA: Vamos! Levanta dessa cama!

MIMI: Eu não tenho forças, amore. Estou um trapo humano.

PRIMAVERA: Tem, sim. Levanta, mãe. Ergue essa cabeça, mete o pé e vai na fé. Não adianta ficar esperando que os problemas desapareçam enquanto a senhora se esconde debaixo dos lençóis.

Mimi olha para a mão estendida da filha. Depois de hesitar, segura-a e se levanta lentamente. Primavera ajeita os travesseiros e ajuda a mãe a se sentar na beirada da cama.

MIMI: Eu chorei litros, Primavera. Litros! Acho que desidratei uns três quilos.

PRIMAVERA: Então já está na hora de parar, né?

MIMI: Olha pra mim... Uma mulher da minha posição, reduzida a isso. Eu estou me sentindo um pequeno jumento!

Primavera segura o riso com a comparação.

PRIMAVERA: Um pequeno jumento, mãe?

MIMI: Um jumentinho, Pri! Daqueles que ficam parados no meio da estrada sem saber pra onde ir. É exatamente assim que eu me sinto agora!

PRIMAVERA: Pois então vamos tirar esse jumentinho da estrada. Vamos lá, tome um banho e fique linda! Vamos, vamos!

Mimi respira fundo mais uma vez e ajeita os cabelos, começando a recuperar a compostura.

MIMI: Está bem. Chega de lágrimas. Uma Fontanari não pode se entregar assim.

PRIMAVERA: Isso!

Mimi se levanta de vez, ainda abatida, mas decidida a reagir. Primavera sorri, satisfeita por ter conseguido tirá-la da cama.

CENA 02: LUBIJU/INT./DIA

Mimi está em sua sala na,  com o celular nas mãos. Na tela, aparecem notícias e publicações sobre o fiasco da festa de aniversário da loja. Ela lê alguns comentários, passa de uma publicação para outra e fica cada vez mais louca.

MIMI: Ai, meu Deus... Olha isso! Estão acabando comigo! 

Ela enxuga uma lágrima com a ponta dos dedos, respira fundo e procura um contato no celular. Ao encontrar o nome de Otávio, sorri discretamente e faz a ligação.

OTÁVIO (voz): Alô?

MIMI: Oi, meu herói!

OTÁVIO: Mimi? Que surpresa boa! Como você está? Tá melhor depois de ontem?

MIMI: Ah, chuchu... Se eu disser que estou bem, vou estar mentindo. As notícias sobre a festa estão por toda parte. Eu tô ficando é louca de tanto navegar nas redes sociais.

OTÁVIO: Não fica assim. Essas coisas acontecem. Daqui a pouco aparece outra notícia e todo mundo esquece.

MIMI: Você acha, benzinho? Porque eu estou achando que vou precisar trocar de país, de nome e até de identidade… (P) E ainda teve o sequestro da Inverno... Ai, Otávio, quando eu penso no que poderia ter acontecido com a minha menina, começo a chorar de novo.

OTÁVIO: Mas ela tá em casa, Mimi. Está segura. E é nisso que você precisa pensar.

Mimi sorri, emocionada.

MIMI: Graças a você, meu gostoso! Eu nunca vou esquecer o que fez pela minha família. Você foi maravilhoso, meu herói! Muito obrigada.

OTÁVIO: Eu só fiz o que precisava ser feito. Não podia deixar vocês passando por aquilo.

MIMI: Ah, mas eu quero agradecer direito! Você não vai escapar de mim, não, hein? Quero convidar você para jantar lá em casa. Hoje à noite. Uma noite agradável, sem sequestradores, sem cheiro de cu e, de preferência, sem notícias tendenciosas!

OTÁVIO: Um jantar com você? Seria um prazer!

MIMI: Então está combinado, chuchu! Espero você às oito.

OTÁVIO: Pode ficar tranquila. Estarei aí.

Mimi sorri, satisfeita. De repente, fica com um sorriso malicioso.

MIMI: E tem mais uma coisinha...

OTÁVIO: O que foi?

MIMI: Aquele beijo...

OTÁVIO: Ah, o beijo...

MIMI: Pois é! Confesso que fiquei pensando nele a noite toda. Você me pegou completamente de surpresa, benzinho. E que beijo, hein?

OTÁVIO: Espero que tenha gostado.

MIMI: Eu amei! (ri) 

Mimi solta uma gargalhada, ajeitando os cabelos.

OTÁVIO: Bom, Mimi, é um prazer estar falando com você, mas eu preciso desligar. Até mais tarde, Mimi.

MIMI: Até, meu herói! Um beijo bem gostoso!

Ela encerra a ligação e fica alguns segundos olhando para o celular, sorrindo sozinha. 

CENA 03: HOTEL ROSEWOOD/INT./DIA

LILI: Jantar? Mas essa velha tá muito emocionada!

OTÁVIO: Pois é, a Mimi me ligou toda agradecida por eu ter salvo a filha dela e pelo beijo também, claro… 

LILI: E você vai? 

OTÁVIO: Claro, ué.  E vou perder essa chance?

LILI: Você sabe que o próximo passo é conquistar a velha até conseguir pedir ele noivado, não é? Mas pelo amor de Deus, não se apaixone. Finja, minta, mas não se apaixone por ela, ouviu bem?

OTÁVIO: Que isso? Tá com ciúmes?

LILI: Não é ciúmes, Otávio. Mas eu já vi diversos casos em que o golpista acaba se apaixonando pela vítima. Tem muitos filmes com esse plot, aliás. E esse não é o plot que a gente quer no momento. 

OTÁVIO: Pode ficar tranquila. Essa é a última coisa que eu vou fazer. Não está nos meus planos. (P) Mas e você, hã? Já pensou em como vai se aproximar e investigar a vida da tal Melina do buffet? 

LILI: Já. Já tenho sim um plano em mente.

CENA 04: CASA DE JURACI E MELINA/INT./DIA

Melina está na sala, organizando algumas anotações. Ainda abatida com o episódio da festa da Lubiju, ela tenta se concentrar no trabalho. A campainha toca. Ela se levanta e abre a porta. É Gael.

MELINA (surpresa): Gael? O que você está fazendo aqui?

GAEL: Ué, eu vim saber como você está. Depois daquela tragédia na festa, você não deve tá nada bem… 

MELINA: Eu tô bem.

GAEL: Tem certeza? Sua cara não mostra isso… poxa, eu fiquei bastante preocupado com você.

MELINA: Ah, Gael... Não precisava. Já passou.

GAEL: Passou pra quem? Porque eu vi o jeito que a Mimi falou com você. Você não merecia aquilo. Ninguém merece ser tratado daquele jeito.

MELINA: Eu não gosto nem de lembrar, mas parece que aquela cena fica martelando na minha mente, sabe? 

GAEL: Esquece isso. Lembre que você trabalha, se esforça, corre atrás do seu negócio. Não tem nada de errado nisso.

Melina sorri, sem graça..

MELINA: Obrigada por ter vindo. De verdade. Eu tava precisando de um ombro amigo.

GAEL: Não precisa agradecer. Eu me preocupo com você.

Os dois trocam um olhar. Nesse momento, a porta se abre e José Augusto entra. Ao perceber Gael, fecha a expressão imediatamente.

JOSÉ AUGUSTO: O que esse mauricinho tá fazendo aqui? Veio te salvar de novo?

MELINA: José Augusto, por favor...

GAEL:  Oi pra você também.

JOSÉ AUGUSTO: Eu não tô falando com você.

MELINA: José Augusto, mas o que é isso? Isso é jeito de tratar as pessoas? Você acha que é quem?

JOSÉ AUGUSTO: Eu sou o seu noivo, Melina. Esqueceu? 

MELINA: Isso não significa que eu seja sua propriedade! Você não tem o direito de chegar aqui e decidir quem pode ou não pode me visitar. O Gael só veio saber como eu tô depois de toda a humilhação que passei naquela festa!

JOSÉ AUGUSTO: Mas sempre esse sujeito? No dia que o carro saiu que nem doido no meio da rua, quem tava com você era ele.

GAEL: Primeiro, sujeito tem nome. Segundo, eu vim porque me preocupo com ela. Coisa que, pelo visto, você não faz.

JOSÉ AUGUSTO: Ah, pronto! O mauricinho resolveu dar lição de moral! Cê acha que eu não conheço seu tipo? Aparece todo bonzinho, oferece ajuda, faz cara de bom moço... Quando a gente percebe, já está se metendo onde não foi chamado. O próximo passo é dar o bote!

MELINA: Chega! Eu não vou ficar ouvindo vocês dois se comportarem como dois moleques!

JOSÉ AUGUSTO: Melina, eu sou seu noivo. É natural que eu não goste de encontrar outro homem aqui.

MELINA: E eu já disse que não sou sua propriedade! Se você confia em mim, não tem motivo pra esse tipo de cena. 

GAEL: Eu não quero causar problema entre vocês. Só vim saber se ela estava bem. Mas, pelo visto, minha presença incomoda demais, não é?

JOSÉ AUGUSTO: Finalmente falou alguma coisa que preste. Então já sabe o caminho da porta. 

José Augusto aponta para a porta. 

MELINA: Não! Quem vai decidir quem fica ou sai daqui sou eu. E, neste momento, quero os dois longe de mim! Saiam daqui! Os dois! Agora! 

Os dois se surpreendem.

GAEL: Melina, eu...

MELINA: Não, Gael. Obrigada por ter vindo, mas eu preciso ficar sozinha. Vou aproveitar que minha tia saiu e espairecer a cabeça, sem ninguém me atentando a paciência.

Gael percebe que ela está no limite e concorda com a cabeça. Antes de sair, lança um último olhar para José Augusto.

JOSÉ AUGUSTO: E eu? Você também tá me tocando daqui?

MELINA: Sim. Não quero discutir com você agora. Você chegou aqui me desrespeitando, desrespeitando uma pessoa que veio me oferecer apoio. Se quiser conversar comigo, vai ter que aprender a me tratar como uma mulher adulta, não como uma marionete.

José Augusto fica sem reação por alguns segundos. Gael aproveita para sair. Contrariado, José Augusto também caminha até a porta.

JOSÉ AUGUSTO: Depois a gente conversa. Isso não vai ficar assim.

José Augusto sai, fechando a porta com força. Melina permanece parada por um instante, respira fundo e passa as mãos pelo rosto, exausta. De repente, seu celular toca. Ela atende.

MELINA: Alô? Com quem falo?

VOZ: Oi, Melina, tudo bem? Aqui quem fala é a Lili, lembra de mim?

MELINA (tentando se lembrar): Lili? Desculpa, mas não lembro. É alguma cliente da minha tia?

VOZ: Não! Eu esbarrei em você na festa da Lubiju, deixei aqueles copos de whisky caírem no chão… se lembrou agora?

MELINA: Ah, claro! Mas não se preocupa com isso, lindinha. Os problemas que surgiram depois foram muito maiores.

LILI (voz): Eu sei… e eu sinto muito. Olha, eu vi que vocês tem algumas opções de salgados e eu me interessei bastante. Adoro coxinha! Será que você me encontraria pra levar esses salgados pra mim, e pra gente conversar melhor? Eu me sinto muito culpada por aqueles copos, de verdade.

MELINA: Ah, não precisa se sentir culpada… tá tudo bem. Mas eu adoraria levar os salgados pra você! A gente está precisando mesmo de novos clientes depois de tudo que aconteceu.

LILI (voz): Então pronto! Você teria disponibilidade mais tarde? Podemos nos encontrar em algum lugar tranquilo. Eu pago pelos salgados, é claro.

MELINA: Tenho, sim. A tardezinha consigo organizar tudo com calma e levo pra você.

LILI (voz): Maravilha! Vou te mandar o endereço e o horário por mensagem. E, Melina... obrigada por não ter ficado chateada comigo.

MELINA: Imagina, querida! Até depois então.

LILI (voz): Até, lindinha!

Melina encerra a ligação e observa o celular. Do outro lado, Lili sorri com perversidade após conseguir dar mais um passo pro seu plano sórdido.

CENA 05: CAMPO DO HORIZONTE/EXT./TARDE

Letícia e Antônio Carlos caminham tranquilamente por uma das ruas da Brasilândia. Passam por pequenos comércios, cumprimentam alguns moradores e observam o movimento do bairro.

ANTÔNIO CARLOS: Então quer dizer que você tá mesmo disposta a ajudar a gente?

LETÍCIA: Claro! Por que não estaria?

ANTÔNIO CARLOS: Sei lá. Fiquei pensando depois da nossa conversa. Você é casada com o Ricardo, conhece o mundo dos negócios dele... Imagino que não seja muito fácil ficar no meio dessa situação.

LETÍCIA: Olha, Antônio, uma coisa é o meu casamento, outra coisa são as minhas convicções. Eu não acho certo prejudicar uma comunidade inteira em nome de um empreendimento imobiliário.

ANTÔNIO CARLOS: É muito bom ouvir isso. Porque tem muita gente aqui preocupada. O campo faz parte da vida de todo mundo.

LETÍCIA: E eu percebi isso quando estive aqui. Vocês têm uma história muito bonita. Seria uma pena perder tudo por causa de um projeto.

ANTÔNIO CARLOS: Não é só o campo. Tem famílias que dependem daqui, crianças que não têm outro espaço pra brincar, projetos sociais... Ricardo olha pra esse lugar e enxerga um pasto cheio de vagas gordas que irão lhe dar bons frutos. 

LETÍCIA: E vocês já conseguiram algum apoio nessa luta?

ANTÔNIO CARLOS: Estamos conversando com algumas associações, procurando advogados e tentando chamar a atenção de pessoas que possam nos ajudar. Também estamos preparando uma mobilização maior.

LETÍCIA: Uma manifestação?

ANTÔNIO CARLOS: É uma possibilidade. Mas antes queremos organizar uma reunião com os moradores. Precisamos definir tudo direitinho.

LETÍCIA: Acho que posso ajudar nessa parte. Tenho alguns contatos que talvez possam dar visibilidade ao movimento. Seria interessante mostrar para a cidade o que está acontecendo aqui.

ANTÔNIO CARLOS: Nossa, isso seria maravilhoso! Quanto mais gente souber, melhor.

LETÍCIA: Pode contar comigo. E não precisa ficar me agradecendo. Acho que tô fazendo apenas o que é justo.

Antônio Carlos sorri, satisfeito.

ANTÔNIO CARLOS: Você sabe que eu gostei de você, né?

LETÍCIA (rindo): Já estava na hora!

ANTÔNIO CARLOS: Eu tô falando sério. É bom encontrar alguém que tenha influência e esteja disposto a olhar para quem geralmente ninguém enxerga.

Os dois trocam um sorriso. Antônio Carlos continua caminhando, contando histórias sobre o bairro. Letícia o acompanha, atenta a cada informação.

CENA 06: LUBIJU/INT./DIA

Verônica está sozinha em sua sala, com o celular grudado nas mãos. Seus olhos estão fixos na tela do aplicativo do tigrinho.

VERÔNICA: Vamos, meu filho! Hoje a mamãe precisa de você! Solta essa carta! Solta!

Ela aperta freneticamente o botão de jogar. Os símbolos giram. Nada. Verônica franze a testa.

VERÔNICA: Não! Não, não, não! Como assim? Passou pertinho! 

Ela confere o saldo e faz uma careta. Respira fundo, abre o banco digital e realiza outro depósito.

VERÔNICA: Só mais cem reais. Cem reais não vão me deixar pobre. Pelo contrário! Daqui a pouco eu recupero tudo e ainda saio no lucro.

Ela volta ao jogo. Os símbolos giram novamente. Uma pequena animação aparece, mas o prêmio é insignificante.

VERÔNICA: Cinquenta centavos?! Você está de brincadeira com a minha cara, seu idiota?

Ela começa a jogar mais rápido, cada vez mais agitada.

VERÔNICA: Agora vai! Eu tô sentindo! É hoje que esse tigrinho vai me dar uma alegria!

A tela anuncia mais uma rodada perdida.

VERÔNICA: Ah, desgraçado! Você tá fazendo isso de propósito!

Verônica se ajeita na cadeira, passa a mão pelos cabelos e olha o saldo. Já perdeu uma quantia considerável. Mesmo assim, não consegue parar.

VERÔNICA: Calma, Verônica. Calma. Você não vai desistir agora. É justamente quando a gente pensa em desistir que vem a grande vitória!

Ela deposita mais dinheiro. O jogo continua. Uma rodada, duas, três... Nada.

VERÔNICA: NÃO É POSSÍVEL!

Ela se levanta da mesa, começa a andar pela sala e volta a se sentar imediatamente.

VERÔNICA: Eu vou recuperar. Eu vou recuperar cada centavo. Esse aplicativo de merda não vai me vencer!

O celular vibra. Uma notificação informa que o saldo está quase zerado. Verônica arregala os olhos.

VERÔNICA: Peraí... Quanto eu já coloquei aqui?

Ela abre o histórico de transações. Seu sorriso desaparece. Confere os valores uma vez, depois novamente, como se esperasse que os números mudassem.

VERÔNICA: Cinco mil reais?!

Ela leva a mão à boca.

VERÔNICA: Cinco mil reais! Meu Deus do céu! Eu perdi cinco mil reais!

Verônica fica imóvel por alguns segundos. Em seguida, começa a andar de um lado para o outro, desesperada.

VERÔNICA: Não, não, não! Isso não pode estar acontecendo! Eu só queria ganhar um dinheirinho! 

Ela volta ao aplicativo e procura alguma opção para recuperar o dinheiro.

VERÔNICA: Cadê? Tem que ter um jeito! Não é possível que eu tenha perdido tudo assim!

Nesse instante, ouve passos no corredor. Verônica se assusta, bloqueia o celular e o coloca sobre a mesa.

MIMI (voz): Verônica? Você está aí?

Verônica tenta recuperar a compostura, mas está visivelmente nervosa.

VERÔNICA: Estou! Estou aqui!

MIMI (voz): Você viu meu carregador?

VERÔNICA: Não! Quer dizer... Acho que não!

Mimi aparece na entrada da sala e estranha a agitação da mulher.

MIMI: Que escândalo é esse? Parece que viu um fantasma!

VERÔNICA: Eu? Imagina! Estou ótima. Maravilhosa. Em paz com a vida!

MIMI: Sei... E por que tá suando?

VERÔNICA: Calor!

MIMI: Com o ar-condicionado ligado?

Verônica força um sorriso.

VERÔNICA: É um calor interno, Mimi. Coisa da idade! Eu já tenho quarenta, né…

Mimi revira os olhos e sai em direção à escada. Assim que fica sozinha novamente, Verônica recupera o celular e encara o aplicativo.

VERÔNICA: Cinco mil... Eu preciso desses cinco mil de volta.

HORAS DEPOIS ...

“Amar de Novo - Paula Fernandes”, mostramos imagens de São Paulo. 

CENA 07: LANCHONETE/INT./TARDE

Melina entra na lanchonete, observa o ambiente e procura por Lili. Logo a identifica sentada a uma mesa próxima à janela. Lili acena com simpatia. Melina se aproxima.

LILI: Melina! Que bom que você veio!

As duas se encaram. A câmera intercala entre elas.

CONGELAMENTO EM MELINA, SORRINDO.