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SINCERIDADE
CENA 01: BAILE FUNK/INT./NOITE
Inverno permanece próxima a Paulinha, desconfortável com a movimentação ao redor. Ela tenta ignorar os empurrões e o funk alto, mas continua olhando desconfiada para os rapazes armados que circulam pela área.
INVERNO: Paulinha, na boa, eu não sei como você consegue ficar tranquila num lugar desses!
PAULINHA: Ai, Inverno, para de olhar pra todo lado como se estivesse esperando um extraterrestre aparecer! Fica aqui comigo que vai dar tudo certo. Relaxa.
Nesse instante, um rapaz de boné, olhos avermelhados e jeito inquieto se aproxima. É Fabinho (João Gabriel D'aleluia), conhecido de Paulinha. Ele parece estar sob efeito de drogas e fala de maneira estranha.
FABINHO: E aí, Paulinha! Sumida, hein, fia! Achei que tinha esquecido dos parça!
PAULINHA: Fabinho! Quanto tempo, menino!
Os dois se cumprimentam com intimidade. Inverno observa a cena, sem saber como reagir.
PAULINHA: Ah, deixa eu te apresentar uma pessoa. Essa aqui é a Inverno, minha amiga da faculdade.
Fabinho olha Inverno de cima a baixo, com um sorriso debochado.
FABINHO: Inverno? Que nome é esse, parceiro? Estação de ano?
INVERNO (sem graça): É meu nome mesmo.
FABINHO: Gostei! Diferentona você, hein? E esse cabelinho de shitzu aí?
PAULINHA: Não fala assim dela! Ela é toda certinha, Fabinho. Nunca veio num baile desses. Tive que praticamente arrastar a menina pra cá!
INVERNO (para Fabinho): Você não precisava falar desse jeito!
FABINHO (rindo): Ih, ficou nervosinha! Relaxa, patricinha! Aqui ninguém vai te morder.
Inverno se incomoda e olha para Paulinha, esperando que ela intervenha. A amiga, porém, apenas ri.
PAULINHA: Para de implicar com ela, Fabinho!
FABINHO: Tá bom, tá bom! Foi mal, princesa.
Ele tira do bolso um pequeno objeto e o guarda rapidamente ao perceber que Inverno está olhando. Seu comportamento agitado deixa a filha de Mimi ainda mais desconfortável.
INVERNO (baixinho, para Paulinha): Quem é esse cara?
PAULINHA: É meu amigo, Fabinho. Conheço ele há um tempão.
INVERNO: Ele é estranho.
PAULINHA: Estranho como?
INVERNO: Não sei. Parece que está fora de si. Você tem certeza de que está tudo bem com ele?
PAULINHA (ri): Claro que não, né, ele tá drogado!
Inverno arregala os olhos e volta a olhar para Fabinho, que dança colado em uma moça.
INVERNO: Paulinha! Você fala isso como se fosse a coisa mais normal do mundo! Eu quero ir embora daqui.
PAULINHA: Ai, amiga, não começa! O Fabinho é assim mesmo. Você precisa parar de se assustar com tudo. Nem parece que tem quase vinte e cinco anos!
INVERNO: Eu não estou acostumada com isso! Olha o lugar onde você me trouxe, olha aquelas pessoas armadas...
PAULINHA: E eu só queria te tirar um pouco daquela vidinha sem graça! Você passa o tempo inteiro preocupada com a sua família, com a faculdade, com o que os outros pensam. Quando é que você vai fazer alguma coisa por você?
Inverno desvia o olhar, incomodada.
INVERNO: Eu faço coisas por mim!
PAULINHA: Faz nada! Você vive se escondendo. E, quando finalmente resolve sair, fica aí com essa cara murcha.
INVERNO: Eu tô com medo, Paulinha!
Paulinha segura as mãos da amiga e muda o tom, ficando mais carinhosa.
PAULINHA: Olha pra mim. Você está comigo, não tá? Eu não vou deixar nada acontecer com você. Confia em mim e tenta aproveitar a noite. Pelo menos uma vez, esqueça os problemas.
Inverno respira fundo, tentando se acalmar. Paulinha percebe que a amiga está cedendo e aponta para um balcão próximo, onde algumas bebidas estão sendo servidas.
PAULINHA: Vem cá. Vamos pegar alguma coisa pra beber. Isso vai te ajudar a relaxar.
INVERNO: Beber? Ah, não! Eu quase nunca bebo.
Fabinho, que se aproxima novamente, escuta a conversa e dá uma risada.
FABINHO: Aí, Paulinha! A patricinha nunca tomou uma?
INVERNO (irritada): Eu não sou patricinha!
FABINHO: Tá bom, princesa! Foi mal!
Ele ergue as mãos, debochado, e se afasta em direção à multidão.
PAULINHA: Não liga pra ele.
Paulinha pega dois copos e entrega um deles a Inverno.
INVERNO: O que é isso?
PAULINHA: Uma bebida, Inverno! Não é veneno. Experimenta.
Inverno observa o copo, ainda hesitante. Ao redor, a música continua alta e as pessoas dançam sem parar. Ela olha para Paulinha, que sorri e ergue o próprio copo.
PAULINHA: Um brinde à sua liberdade!
Inverno solta uma risadinha nervosa e finalmente ergue o copo.
INVERNO: Você é muito insistente, sabia?
As duas brindam. Inverno toma um pequeno gole e faz uma careta imediata.
INVERNO: Nossa! Isso é horrível!
Paulinha cai na risada.
PAULINHA: É porque você não está acostumada! Vai devagar.
INVERNO: Como é que alguém consegue gostar disso?
PAULINHA: Com o tempo você descobre!
Inverno ri, apesar do desconforto, e toma mais um pequeno gole. Paulinha observa a amiga atenta e satisfeita
PAULINHA: Viu só? Não tá sendo tão ruim assim.
Inverno olha novamente para o baile. Ainda se sente deslocada, mas, pela primeira vez desde que chegou, tenta acompanhar a música com os pés.
Paulinha se aproxima dela, animada.
PAULINHA: Agora, sim! Essa é a minha Inverno!
Inverno sorri timidamente, sem saber onde está se metendo.
CENA 02: MANSÃO FONTANARI - JARDIM/EXT./NOITE
MELINA (segurando o amuleto): O que tem o meu amuleto?
LILI (disfarçando): Eu achei muito bonito! Nunca vi um desses.
MELINA: Ah, obrigada! Eu uso desde pequena.
LILI: Sério? Ele parece antigo. Tem alguma história especial?
Melina segura o pingente entre os dedos, olhando para ele com carinho.
MELINA: Foi um presente que ganhei da minha falecida mãe.
LILI: Ah, sinto muito… desculpa fazer você relembrar desse momento triste. Eu também não tenho mãe, muito menos pai…
MELINA: Então estamos no mesmo barco. Eu perdi a minha mãe muito cedo, com dez anos de idade. Desde então, foi minha tia que acabou de me criar…
LILI: Que pena. Mas pelo visto você foi bem criada. (P) Olha, me desculpa mesmo pelo desastre. Eu juro que não queria ter esbarrado em você.
MELINA: Tá tudo bem. Não se preocupe.
LILI: Seu nome?
MELINA: Melina. E o seu?
LILI: Lili!
Melina sorri, enquanto Lili aperta sua mão. A golpista tenta manter a naturalidade, mas não consegue evitar uma última olhada no amuleto.
LILI: Bom, Melina, foi um prazer conhecer você. Espero que a gente se encontre de novo por aí.
MELINA: Quem sabe? Você está aproveitando a festa?
LILI: Estou, sim! A Mimi arrasa muito.
Ao acabar de recolher os cacos de vidro do chão, Melina se afasta para ajudar Tiffany com as bandejas. Lili permanece parada por alguns instantes, acompanhando-a com os olhos. O sorriso simpático desaparece aos poucos de seu rosto.
LILI: É muita coincidência! Essa garota só pode ser ela… essa garota é a Outono.
Do outro lado do jardim, Mimi posa diante dos fotógrafos, satisfeita com a repercussão do evento. Perto da mesa do buffet, Melina, Juraci e Tiffany acompanham a movimentação, orgulhosas do trabalho.
MIMI: Amorecos, eu quero todo mundo experimentando essas delícias! Vinte e cinco anos de Lubiju merecem uma comemoração à altura, não merecem?
Os convidados aplaudem. Mimi manda beijos para as câmeras e se aproxima de um totem em tamanho real de Eleonora, que não está presente.
MIMI: Quem é que disse que Eleonora não está aqui? Manda beijo pra câmera, querida!
Mimi beija o totem sob flashes.
Na mesa do buffet, um convidado pega um canapé. Ele leva o petisco à boca, mastiga e, de repente, faz uma careta.
CONVIDADO: Que cheiro é esse?
A mulher ao lado dele fareja o ar, incomodada.
INSTRUMENTAL: SOMEBODY IS HERE - IURI CUNHA
CONVIDADA: Nossa! Parece cheiro de peido! Meu Deus, que coisa horrível! O gosto tá pior!
Os comentários começam a se espalhar. Algumas pessoas tapam o nariz e outras se afastam da mesa, indignadas. Melina percebe a movimentação e se aproxima, sem entender.
MELINA: Aconteceu alguma coisa?
CONVIDADA: Minha querida, eu não sei o que vocês colocaram nessa comida, mas está com um cheiro horrível e o gosto tá intragável!
Melina aproxima o rosto de uma das bandejas e sente o odor. Ela se afasta imediatamente, horrorizada.
MELINA: Não pode ser! Essa comida estava perfeita quando a gente terminou de preparar!
Tiffany pega um guardanapo e tenta abanar o ar, mas o cheiro continua. Os convidados começam a reclamar em voz alta. Do outro lado do jardim, Brígida observa a confusão com uma taça na mão. Ela contém o sorriso, fingindo surpresa, e se aproxima do grupo.
BRÍGIDA: Gente, o que está acontecendo? Por que todo mundo está fazendo essa cara?
CONVIDADO: A comida está com cheiro de scat!
Brígida leva a mão à boca, fingindo estar chocada.
BRÍGIDA: Ai, meu Deus! Que horror! Logo numa festa tão chique! Como vou publicar isso nos stories?
Nesse momento, Mimi se aproxima ao ver o tumulto. Ao sentir o cheiro, para imediatamente e arregala os olhos.
MIMI: Mas que desgraça é essa?!
Ela olha para a mesa, depois para os convidados que se afastam, tapando o nariz.
MIMI: Eu organizo uma festa de aniversário de vinte e cinco anos da minha marca, convido a nata da sociedade paulistana e vocês me oferecem um buffet com cheiro de privada entupida?!
MELINA: Dona Mimi, eu juro que estava tudo certo! A gente não sabe o que aconteceu!
MIMI: Me poupe! Você acha que eu sou idiota? Olha em volta! Está todo mundo tapando o nariz! Tem gente abandonando a festa por causa dessa imundície!
MELINA: Eu entendo que a senhora esteja nervosa, mas a gente preparou tudo com muito cuidado. Quando saímos da cozinha, a comida estava perfeita!
MIMI: Ah, estava perfeita? Então me explica como é que, em questão de minutos, os seus pratos viraram um risco biológico!
Alguns convidados riem. Melina abaixa a cabeça, constrangida, enquanto Tiffany se aproxima para defendê-la.
TIFFANY: A senhora não precisa falar assim com ela! A gente trabalhou o dia inteiro pra entregar tudo direito!
MIMI: E entregaram essa porcaria! Quer que eu faça o quê? Que eu distribua máscaras de gás para os meus convidados?
TIFFANY: A senhora pode, pelo menos, parar de humilhar a gente na frente de todo mundo!
MIMI: Humilhar? Minha filha, vocês conseguiram transformar uma festa de luxo numa cisterna! Se alguém está sendo humilhado aqui, esse alguém sou eu!
Primavera e Verão chegam, atraídos pela gritaria. Primavera observa os convidados afastados e a mãe completamente transtornada.
PRIMAVERA: Mãe, o que aconteceu?
MIMI: O que aconteceu, Primavera, é que eu contratei um buffet que conseguiu estragar a comida da minha festa! Olha isso! Olha o estado dessa mesa!
VERÃO: Mas que cheiro podre!
Ao ver o tumulto, Juraci se aproxima.
JURACI (séria): O que tá acontecendo aqui? Que tumulto é esse? (percebe o cheiro) Que cheiro é esse, gente?
MIMI: Que cheiro é esse? Você ainda tem coragem de perguntar?
MELINA (desesperada): Tia, esse cheiro tá vindo da comida que foi preparada pela gente… eu juro que assim que saímos da cozinha, tudo estava em perfeito estado. Não tava?
JURACI: Mas é claro que tava, Melina.
MIMI: Vocês são três incompetentes, é isso que vocês são! Eu não sei onde eu tava com a cabeça quando contratei essa podridão.
JURACI: Pera lá, pera lá, pera lá! A madama acha que é quem sair ofendendo o buffet dos outros assim?
MIMI: Eu sou a dona da festa! Eu, como anfitriã, esperava que a comida pelo menos fosse à altura da cerimônia e de quem a preparou.
GAEL: Dona Mimi, a senhora está sendo injusta. Se a comida estava boa antes, alguma coisa pode ter acontecido depois. Pelo menos deixe que elas tentem entender o que houve.
MIMI: Ah, Gael, você também? Virou advogado de pobre agora?
JURACI: Você lava a sua boca pra me chamar de pobre!
MIMI: Ué, e você é o que? A primeira dama do Brasil?
VERÔNICA: Mimi, chega!
TIFFANY: Isso é muito injusto. A gente trabalhou o dia todo, fez tudo com amor e carinho pra no fim tudo dar errado e sermos feitas de chacota…
MELINA: Doma Mimi, a senhora não está sendo justa! A gente não sabe o que aconteceu com a comida, mas vamos descobrir!
MIMI: Descubra na sua casa, querida! Porque aqui você não trabalha mais! E pode esquecer qualquer indicação minha, qualquer contato, qualquer oportunidade! Eu não vou colocar meu nome embaixo de um buffet que não sabe nem conservar a própria comida!
GAEL: A senhora está condenando o trabalho delas sem nem saber o que aconteceu!
MIMI: E você está defendendo as três como se fosse o dono da empresa! Por acaso você vai pagar o prejuízo da minha festa?
GAEL: Não, mas também não vou ficar calado vendo a senhora humilhar pessoas que estão tentando se explicar!
MIMI: Pois faça um favor a si mesmo e fique calado! Você já está me dando dor de cabeça suficiente!
VERÔNICA: Mimi, chega! Você está perdendo completamente a razão. Tem gente filmando tudo!
MIMI: Ótimo! Que filmem! Quero que todo mundo veja o que acontece quando alguém tenta me fazer de palhaça!
TIFFANY: Ninguém tentou fazer a senhora de palhaça! A gente veio trabalhar! Mas a senhora está tão preocupada com a sua imagem que nem consegue enxergar que tem gente de verdade na sua frente!
VERÃO: Gente, pelo amor de Deus! Vamos parar com isso antes que alguém faça uma besteira!
JURACI: Besteira foi eu ter aceitado trabalhar pra essa mulher! Eu devia ter escutado meus instintos! Vamos embora, meninas. A gente não precisa provar nada pra essa gente. Mas isso não vai ficar assim, ouviu ô sua… tampinha!
MIMI: Você me chamou do que?
JURACI: TAMPINHA!
MIMI: TAMPINHA É A MÃE! Você sabe com quem está falando, sua maluca?!
JURACI: Sei muito bem! Tô falando com uma mulher que precisa subir num banquinho pra enxergar a própria arrogância!
Alguns convidados não conseguem segurar o riso. Mimi fica possessa ao perceber a reação das pessoas.
MIMI: Segurança! SEGURANÇA! Tirem essa mulher daqui antes que eu mesma resolva essa situação!
JURACI: Pode chamar até o Exército, sua tampinha! Eu não tenho medo de você!
MELINA: Tia, chega! Vamos embora!
TIFFANY: Isso mesmo! Não vale a pena perder mais tempo com essa mulher!
MIMI: Perder tempo? Vocês já me fizeram perder tudo! E ainda querem sair daqui como se fossem as vítimas!
GAEL: Chega, Mimi! A senhora já passou de todos os limites!
JURACI: Vem garotas, vamos embora!
Juraci, Melina e Tiffany dão as costas e deixam o jardim.
MIMI: Vão mesmo, suas pigs!
JURACI (ao longe): Vai ter volta! Pode esperar que vai ter volta.
Juraci olha pra trás, lançando um olhar raivoso para Mimi. Os convidados começam a se retirar, um por um. Brigida acompanha tudo de longe, rindo da situação. Perto dali, Lili acompanha tudo em silêncio. Otávio, que estava em meio aos convidados, se aproxima de Mimi para prestar solidariedade.
OTÁVIO: Mimi! Eu sinto muito por isso.
MIMI (surpresa): Você?!
OTÁVIO: Pois é, eu cheguei já faz tempo. Estava apreciando essa maravilha de festa no meio dos convidados…
VERÔNICA (para Primavera): Quem é esse?
OTÁVIO: Oi, pessoal! Desculpem-me chegar assim sem me apresentar. Eu sou Otávio Girardelli, cliente assíduo da Lubiju.
MIMI (sem graça): Que generosidade a sua, querido. Eu agradeço pela preocupação comigo, mas já estarei tomando todas as providências possíveis. Esse episódio de hoje não vai ficar assim. Aquelas três ratazanas vão pagar caro por esse bodrio que fizeram na minha festa.
PRIMEIRA (para Verônica): A mamãe tá bem calma pra quem acabou de ter uma festa destruída…
ALGUM TEMPO DEPOIS…
CENA 03: MANSÃO FONTANARI/INT./NOITE
A cena já começa com Mimi arremessando objetos contra a parede. Verão, Primavera e Verônica tentam impedi-la, mas já é tarde demais.
MIMI (furiosa, arremessando um vaso): AAAAAAAAAAAHHHH! QUE ÓDIOOOOOO!
PRIMAVERA (desesperada): Mãe, pelo amor de Deus! Chega!
MIMI: Aquelas vacas vão pagar caro pelo o que fizeram com a minha festa! A minha festa que eu estou planejando há cinco anos, que eu me dediquei, que até parei de comer por isso... A festa que eu achei que acabaria de vez com a Eleonora! Aquelas pestes acabaram com tudo!
VERÔNICA: Mimi, não fala assim… as meninas disseram que não foi culpa delas.
VERÃO: Será que alguém sabotou a comida?
MIMI: É claro que não! Foram elas! (P) É claro, meu Deus, como eu não pensei nisso ? É claro que elas foram contratadas pela Eleonora pra destruir a minha festa!
PRIMAVERA (ri): Ah, mãe, não começa! A Eleonora não tem nada a ver com isso dessa vez.
MIMI: Tem sim. Aquela diaba quer me ver na sarjeta, na pindaíba. Mas ela não vai conseguir!
CENA 04: CASA DE JURACI E MELINA/INT./NOITE
A porta é aberta por Juraci, acompanhada de Melina e Tiffany. As expressões das três revelam o sentimento de derrota e tristeza.
MELINA (inconformada): Gente, não tem lógica! A comida estava intacta, perfeita!
TIFFANY: Será que alguém tentou sabotar a gente?
JURACI (séria): Chega! Chega de teorias da conspiração, eu não aguento mais ouvir esse chororô, esse mimimi desde o caminho.
Silêncio. Juraci se senta no sofá.
JURACI: Eu avisei pra vocês, não avisei? Eu disse que essa festa não seria tão boa quanto vocês pensavam, não disse? Você é muito teimosa, Melina! Teimosa!
MELINA: Tia, por favor, você também tem que entender que-
JURACI (interrompe): Entender o quê? Que você resolveu se meter no meio de gente rica, que olha pra gente como se a gente fosse lixo? Eu conheço esse tipo de gente! Eles pisam em você e ainda esperam que você agradeça!
MELINA: Mas não foi só por causa deles! A gente tava fazendo um trabalho importante! Era uma oportunidade de mostrar o nosso serviço, de conseguir novos clientes!
JURACI: E olha o resultado! Fomos humilhadas na frente de todo mundo! Fomos chamadas de pobres, de incompetentes, de sei lá mais o quê!
TIFFANY: Eu tô com tanta raiva! A gente passou o dia inteiro trabalhando, preparando cada prato, cuidando de cada detalhe. Eu não consigo aceitar que tudo tenha terminado daquele jeito.
JURACI: Pois aceite, porque aconteceu! E agora eu quero que vocês duas tirem isso da cabeça. Amanhã a vida continua.
MELINA: É isso, nós não vamos abaixar a cabeça pra essa gente. Somos mulherões, não somos?
JURACI: Somos. Eu, pelo menos, não vou desistir de lutar. O Buffet da Juraci continua!
TIFFANY: Amo!
As três se dão as mãos, formando uma roda no meio da sala.
JURACI: E eu não quero nunca mais ter que olhar pra cara daquela velha ridícula!
CENA 05: RUA/EXT./NOITE
Inverno e Paulinha caminham juntas após saírem do baile funk. Inverno está visivelmente alterada, com os olhos vermelhos e os movimentos fora de controle. Paulinha, por outro lado, segue perfeitamente lúcida, observando o caminho.
INVERNO (rindo sozinha): Ai, Paulinha... eu ainda não acredito que você me levou praquele lugar! Minha cabeça tá rodando até agora!
PAULINHA: Gostou, amiga?
INVERNO: Gostar é uma palavra muito forte. Tinha umas coisas que... Nossa! Aquele seu amigo, o Fabinho, é muito estranho e chato!
PAULINHA: O Fabinho é meio doido mesmo, mas não pode ligar com o que ele diz. Mas você também não estava muito normal, né? Bebeu, experimentou umas coisas... Amanhã vai acordar com uma dor de cabeça daquelas.
INVERNO: Eu nem sei direito o que eu fiz! Minha mãe vai me matar se descobrir que eu saí escondida.
INVERNO: Ainda bem que eu tenho você, viu? Lá em casa ninguém me entende. Parece que eu sou sempre a esquisita, a que faz tudo errado...
PAULINHA: Eu sei, amiga. Por isso você precisa sair um pouco daquela bolha. Não dá pra viver só estudando e aguentando desaforo dos outros.
Inverno sorri, emocionada, e apoia a cabeça por alguns instantes no ombro de Paulinha enquanto caminham. De repente, um carro escuro surge lentamente na esquina, aproximando-se das duas. Inverno nem percebe.
INVERNO: E sabe o que foi mais engraçado? Eu achei que ia morrer de vergonha quando cheguei lá, mas depois…
O carro freia bruscamente ao lado delas.
INSTRUMENTAL: SINKING IN DEEP SEA - IURI CUNHA
PAULINHA: Mas o que é isso?
As portas se abrem. Dois homens encapuzados descem rapidamente do veículo.
INVERNO (assustada): Que isso? Quem são vocês?
Antes que as duas consigam reagir, um dos homens agarra Inverno pelo braço, enquanto o outro segura Paulinha e a empurra em direção ao carro.
PAULINHA: EI! SOLTA A GENTE! SOCORRO!
Inverno tenta se soltar, mas, ainda sob efeito das substâncias que consumiu, está desorientada e não consegue reagir com firmeza.
INVERNO: Me solta! O que vocês querem?!
HOMEM 1: Cala a boca e entra! Isso é um sequestro!
Ele força Inverno para dentro do veículo. Paulinha tenta chutar o homem que a segura, mas ele a domina e a joga no banco traseiro, ao lado da amiga.
PAULINHA: Vocês estão malucos?! A gente não tem dinheiro!
HOMEM 2: Quietas!
O homem fecha a porta com violência e entra no carro. O outro assume o volante. Inverno tenta alcançar a maçaneta, mas o veículo arranca antes que consiga abrir a porta.
INVERNO (desesperada, batendo no vidro): SOCORRO!
CONGELAMENTO EM INVERNO.
