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SINCERIDADE
CENA 01: CATIVEIRO/EXT./NOITE
INSTRUMENTAL: PERIGO IMINENTE - DANIEL TAUSZIG, JADECO
A câmera mostra do alto um lugar isolado, com árvores por todo o lado e um casebre abandonado na beira da estrada de terra batida. O veículo dos sequestradores estacionam ali, e em seguida, eles descem, forçando Inverno e Paulinha a entrar.
INVERNO (desesperada): QUE LUGAR É ESSE? ME SOLTA! SOCORRO!
PAULINHA: SOCORRO! ALGUÉM NOS AJUDE!
HOMEM 1: É melhor as duas calarem a boca antes que a gente perca a paciência com vocês.
Contra suas vontades, as duas são arrastadas para o interior do casebre.
CENA 02: APARTAMENTO DE ELEONORA/INT./NOITE
Eleonora está sentada no sofá de sua sala, ainda maquiada e vestida para a festa. Os olhos dela estão vermelhos. Letícia, diante dela, tenta consolá-la.
ELEONORA: Eu não acredito, Letícia! Eu preparei tudo com tanto carinho, escolhi cada detalhe, contratei os melhores profissionais... E ninguém apareceu na Eleo! Ninguém!
LETÍCIA: Calma, Eleonora. Não foi tão ruim assim.
ELEONORA: Não foi tão ruim? Se eu soubesse que ia passar por esse vexame, teria feito uma reuniãozinha aqui na minha sala. Pelo menos não precisava pagar buffet, decoração, música…
LETÍCIA: Você está exagerando.
ELEONORA: Não tô! A Mimi conseguiu, Letícia! Aquela mulher consegue transformar qualquer inauguração de loja num acontecimento nacional. Infelizmente, ela é um fenômeno!
LETÍCIA: Fenômeno? Não sei de onde você tirou isso.
ELEONORA: Ah, Letícia, não adianta tentar me consolar, falar palavras que eu quero ouvir. Eu conheço a Mimi. Ela deve estar neste momento brindando ao meu fracasso, com aquela gargalhada insuportável de gralha velha!
LETÍCIA: Pois saiba que a festa dela também foi um desastre.
Eleonora interrompe o choro e olha para a amiga.
ELEONORA: Oi?
LETÍCIA: O Gael me contou que a comida azedou, os convidados começaram a reclamar, teve uma confusão enorme com o pessoal do buffet... A Mimi perdeu completamente a cabeça e brigou com todo mundo.
ELEONORA (começando a sorrir): Não acredito!
LETÍCIA: Pois é verdade. Pelo que ele contou, foi um fiasco.
Eleonora começa a rir, primeiro discretamente, depois sem conseguir se controlar.
ELEONORA: Ai, meu Deus! A Mimi! A grande anfitriã! A rainha de São Paulo! Passando esse mico diante da sociedade paulistana! Eu amo!
LETÍCIA: Não fique tão animada. Pelo menos ela teve convidados.
ELEONORA: Ah, mas que delícia saber disso! Eu aqui me lamentando, e a outra passando por um vexame ainda maior do que o meu!
LETÍCIA: Não foi maior, Eleonora. Ela conseguiu reunir metade da cidade. Você conseguiu reunir uma pessoa.
Eleonora para de rir e encara Letícia.
ELEONORA: Você tem um talento impressionante para acabar com a minha felicidade, né? Você me odeia.
Letícia ri.
ELEONORA: Mas tudo bem. A Mimi pode até ter seus quinze minutos de glória. Quero ver quando chegar a minha vez de dar o troco. E eu farei questão de rir na cara dela.
LETÍCIA: O que você tá planejando?
ELEONORA: Eu vou até a Lubiju nos próximos dias bater um papinho de comadres com a Mimi.
CENA 03: CASA DE BRÍGIDA MARQUES/INT./NOITE
SONOPLASTIA: ÉRIKA X9 - DANIEL MUSY, RAFAEL LANGONI
Brígida está diante do espelho, usando um roupão de seda. O celular está apoiado em um tripé. Ela termina de retocar o batom e confere sua aparência na tela. Ao lembrar da confusão na festa da Lubiju, abre um sorriso vitorioso.
BRÍGIDA: Ai, Mê... Você achou mesmo que ia sair daquela festa consagrada? Que burrinha!
Ela dá uma risadinha, pega o celular e abre a câmera dos stories. Antes de começar a gravar, muda completamente a expressão. Ela faz uma cara de tristeza, respira fundo e até leva a mão ao peito.
BRÍGIDA: Oi, meus Briguidinhos... Gente, eu tô passando aqui porque eu vi de perto uma situação muito triste que aconteceu na festa de aniversário da Lubiju. Eu fiquei realmente abalada com tudo que aconteceu com a dona Mimi e com os convidados. Uma noite que deveria ser de celebração acabou se transformando num verdadeiro pesadelo. As comidas estavam azedas, cheirando a bosta… isso é um desrespeito, não acham?
Brígida faz uma pausa, simulando emoção.
BRÍGIDA: Eu acho inadmissível que uma empresa seja contratada para prestar um serviço e entregue uma coisa dessas. A gente precisa ter responsabilidade com aquilo que faz, né? Afinal, estamos falando de um evento importante, com pessoas importantes, e muita gente acabou sendo prejudicada. E olha, eu espero sinceramente que a dona Mimi tome as providências necessárias. Porque esse buffet de quinta precisa ser responsabilizado.
Brígida encerra a gravação e publica o story. Assim que a câmera desliga, seu semblante muda. Ela abre um sorriso enorme e se joga na cama.
BRÍGIDA (ri): Ai, como eu sou muito boa nisso!
O celular começa a vibrar com as primeiras respostas dos seguidores. Brígida abre uma delas e lê em voz alta.
BRÍGIDA: “Brígida, você viu quem é a responsável pelo buffet? Só pra eu nunca contratar mesmo.”
Ela continua lendo os comentários, satisfeita com a repercussão. Em seguida, pega uma almofada e a abraça, comemorando o estrago que fez.
CENA 04: MANSÃO FONTANARI/INT./NOITE
Ainda na sala, Mimi está sentada no sofá, desolada. Primavera abraça a mãe, enquanto a consola. Verão, largado no sofá e vasculhando as redes sociais, percebe algo estranho.
VERÃO: Gente… cadê a Inverno? Eu não vi ela pela festa em nenhum momento.
PRIMAVERA: Que pergunta idiota. É claro que ela deve tá trancada naquele quarto. (P) Você tá melhor, mamãe? Quer ir dormir?
MIMI (desolada): Não. Eu quero ficar aqui. A minha festa foi um fracasso! Eu já devo tá em todos os portais de fofoca, em todos os jornais da cidade! AI QUE ÓDIOOOOOO!
Otávio surge pela porta de entrada, com a expressão de preocupação. Ele se aproxima de Mimi, lhe dando as mãos.
OTÁVIO: Eu sinto muito. Sinto muito por isso, Mimi. Essas pessoas precisam ser responsabilizadas pelo o que fizeram.
PRIMAVERA: Pode ficar tranquilo, a gente vai entrar com um processo contra o Buffet.
MIMI (chorando): Minha festa, Otávio! Minha festa! Fui tudo por água abaixo! A festa que eu passei anos organizando, contratando profissionais a dedo…
De repente, o celular de Mimi começa a tocar. A música-toque é “Change - Rita Lee, Roberto de Carvalho”. Mimi ignora, mas a pessoa do outro lado da linha liga incessantemente.
OTÁVIO: Não vai atender, benzinho?
MIMI: Não! Eu não quero falar com ninguém!
O celular continua tocando. Verão, distraído com o próprio aparelho, ergue os olhos.
VERÃO: Mãe, atende. Vai que é alguma coisa importante.
MIMI: Importante? Importante era aquela festa ter dado certo!
PRIMAVERA: Mãe, por favor. Você precisa se acalmar.
MIMI: Como é que eu vou me acalmar, Primavera? Eu estou sendo massacrada! Eu fui pisada que nem bosta. Amanhã vão fazer montagem minha na internet, vão colocar minha cara no meio de uma privada!
Otávio pega delicadamente a mão de Mimi.
OTÁVIO: Olha pra mim. Não deixa essas pessoas tirarem sua paz. Você continua sendo a mulher admirável que sempre foi.
Mimi se comove, mas o celular volta a tocar.
VERÃO: Nossa, mas quem é que tá tão desesperado assim?
Mimi finalmente pega o aparelho, irritada.
MIMI: Eu vou desligar essa merda!
Ao olhar a tela, ela percebe que é um número desconhecido e decide atender.
MIMI: O que foi, inferno?
Do outro lado, uma voz masculina, firme e distorcida, responde.
VOZ: A senhora é a Mimi Fontanari?
MIMI: Depende. Quem está falando?
VOZ: Nós estamos com a sua filha.
Mimi franze a testa. Primavera percebe a mudança em sua expressão.
MIMI: Como assim, minha filha? A Outono?
VOZ: A sua filha Inverno. Ela tá aqui com nóis, tá ligado? E, se a madame quiser ver a patricinha novamente, vai ter que fazer tudo o que nós quer, pode pá?
Mimi fica imóvel e arregala os olhos. O celular quase escorrega de sua mão.
MIMI: O quê?! Isso é um trote! A minha filha tá no quarto dormindo, seu idiota!
PRIMAVERA: Mãe? O que foi?
MIMI: Como assim? Passa pra ela, eu quero falar com ela!
Verão se levanta imediatamente. Otávio se aproxima, atento.
VOZ: Não desliga, não. E não pense em chamar a polícia! Presta atenção, tia: nos quer muita grana, tá ouvindo? Eu quero um bolão de dinheiro e eu sei que a senhora tem. Ou se não, vocês não vão ver a princesinha nunca mais. Eu vou mandar a localização pra tu, e eu não quero que vocês metam a polícia no meio disso.
A ligação é encerrada. Mimi fica em choque, olhando para o telefone.
PRIMAVERA: Mãe, fala comigo! O que aconteceu?
MIMI: A Inverno... Levaram a Inverno! Sequestraram a sua irmã!
Primavera leva as mãos à boca. Verão deixa o celular cair no sofá.
VERÃO: Como assim levaram a Inverno?! Ela tá no quarto, não tá?
Mimi desaba no sofá, aos prantos. Otávio a ampara, enquanto Primavera tenta ligar imediatamente para Inverno.
OTÁVIO: Calma, Mimi. A gente vai encontrar sua filha. Mantenha a calma.
MIMI: Eu não posso perder mais uma filha! Não posso!
Otávio troca um olhar preocupado com Verão e Primavera. Verão, aflito, sobe até o segundo andar para se certificar de que Inverno está em seu quarto. Ao entrar, percebe imediatamente que a irmã não está ali. Ele olha ao redor, mas não encontra nenhum sinal dela. Assustado, desce novamente para a sala.
VERÃO: Ela não tá lá! O quarto tá vazio!
MIMI (aos prantos): Misericórdia!
O celular de Mimi vibra. Primavera entra no aplicativo de mensagens e se depara com a localização, recebida pelo criminoso.
PRIMAVERA: Ele mandou! O bandido mandou a localização!
OTÁVIO: E pra onde eles levaram a Inverno?
PRIMAVERA: Pelo visto, é num fim de mundo. Na zona rural…
VERÃO: Gente, não tem lógica isso. A Inverno não é de sair de casa… será que ela resolveu sair com aquela amiguinha dela, a Paulinha?
MIMI: Não é hora de pensar nisso! Eu só quero que a minha filha seja resgatada.
VERÃO: Tá, mas como é que a gente vai até esse fim de mundo sem comunicar a polícia e levando essa grana toda?
OTÁVIO: Eu posso te ajudar. Eu vou com você até lá. A gente chega, faz a nossa parte, e voltamos. Depois, quando chegarmos, a gente faz o boletim de ocorrência.
MIMI (preocupada): Eu acho melhor vocês chamarem a polícia…
PRIMAVERA: Não é a melhor opção, mãe. A Inverno corre risco.
VERÃO: Então vamos pra lá agora! Não podemos perder mais tempo!
PRIMAVERA: E a grana?
VERÃO: Eu pego lá no cofre e coloco numa mala. Dinheiro não é problema agora. O importante é trazermos a Inverno com vida!
Mimi se levanta e se aproxima de Verão, colocando as mãos sobre o peito do filho.
MIMI: Tome cuidado, meu filho. Por favor, tome muito cuidado.
VERÃO: Pode ficar tranquila, mãe.
OTÁVIO (se aproxima de Mimi): Não se preocupe, Mimi. Tá comigo, tá com Deus.
De repente, o celular de Otávio começa a tocar. Ele atende. É Lili.
LILI (voz): Onde você tá? Eu cansei de te esperar e vim embora de Ureb!
OTÁVIO (disfarçando): Mãezinha… eu ainda tô aqui na festa, mãezinha. Vou demorar um pouquinho, viu? Não precisa se preocupar, pode dormir tranquila. Beijos.
Ele termina a ligação, deixando Lili falando sozinha do outro lado da linha.
OTÁVIO: Desculpa, era minha mãezinha. Então vamos?
VERÃO: Vamos!
MIMI: Eu vou junto!
VERÃO: Nem pensar, mãe!
MIMI: Como assim, nem pensar? É da minha filha que estamos falando! Eu não vou ficar aqui esperando notícias!
OTÁVIO: Mimi, escuta. É melhor você ficar. Se eles perceberem que estamos levando mais pessoas, podem se irritar. Deixa que nós vamos buscar a Inverno.
Mimi respira fundo, tentando conter o choro.
MIMI: Mas vocês vão me ligar? Vão me dar notícias?
VERÃO: Assim que tivermos qualquer novidade, eu te ligo. Prometo.
Verão beija a testa da mãe.
OTÁVIO: Cuide da Mimi, Primavera. E fique tranquila, Mimi. Vamos fazer o possível para que tudo termine bem.
PRIMAVERA: Eu vou ficar com ela. Qualquer coisa, me liga.
Verão pega a mala com o dinheiro. Otávio abre a porta e os dois saem.
CENA 05: CATIVEIRO/INT./MADRUGADA
INSTRUMENTAL: TAMBORES DA GUERRA - ALEXANDRE DE FARIA
Inverno e Paulinha estão sentadas no chão de um cômodo escuro e quase sem iluminação. As duas estão com as mãos amarradas para trás e a boca coberta por fitas. Inverno, apavorada, tenta puxar as amarras, enquanto Paulinha observa o ambiente, aparentemente tão desesperada quanto ela. Inverno faz força, tentando soltar os pulsos, mas a corda não cede. Ela olha para Paulinha e balança a cabeça, indicando que não está conseguindo.
CENA 06: CATIVEIRO/EXT./MADRUGADA
O carro de Verão se aproxima do casebre. Ele estaciona a alguns metros da entrada. Otávio desce primeiro, carregando a mala com o dinheiro. Verão sai logo atrás, olhando ao redor.
VERÃO: Não tem ninguém aqui fora.
OTÁVIO: Talvez estão esperando lá dentro. Vamos com calma.
Os dois caminham em direção à entrada. Antes que consigam chegar à porta, dois homens encapuzados aparecem de repente, cada um vindo de um lado. Um deles aponta uma arma para Verão.
SEQUESTRADOR 1: Parou, parou! Mão na cabeça, caralho!
VERÃO: Calma! A gente trouxe o dinheiro! Tá tudo aí, como vocês pediram!
SEQUESTRADOR 2: Então larga essa porra no chão e dá uns passos pra trás, playboyzinho!
Verão congela. Otávio larga a mala no chão, levantando as mãos.
VERÃO: Cadê minha irmã? Eu quero ver a Inverno! Solta a minha irmã!
SEQUESTRADOR 1: Qual foi, mano? Tá achando que tá em casa pra fazer exigência?
OTÁVIO: Nós trouxemos o que vocês pediram. Agora queremos a garota.
SEQUESTRADOR 2: Cês são muito inocentes, hein? Tão achando que nós quer só a grana?
VERÃO: Como assim?
SEQUESTRADOR 1: A fita é outra, parceiro. As mina não vão sair daqui viva, tá ligado?
VERÃO: O quê?! Tem outra pessoa com a Inverno?
SEQUESTRADOR 2: A amiguinha dela tá junto. É uma gostosa, tem mó corpão.
OTÁVIO: Vocês receberam o dinheiro, poxa. Não precisam fazer mais nada! Deixem elas saírem daqui!
SEQUESTRADOR 1: Cala essa boca! Aqui quem dá as ideia somos nós!
A câmera foca em Verão, tenso, intercalando com Otávio.
CONGELAMENTO EM VERÃO E OTÁVIO.
