A FILHA DA MINHA MÃE - CAPÍTULO 04 (08/10/2026)


 A FILHA DA MINHA MÃE - CAPÍTULO 04

criada e escrita por SINCERIDADE


UM DIA DEPOIS…

CENA 01: CEMITÉRIO/EXT./DIA


INSTRUMENTAL: LOURDES - GUILHERME RIOS


 A câmera mostra o cemitério visto do alto. O céu está nublado, com alguns pingos de garoa caindo. A câmera desce lentamente e revela ao fundo, um grupo de pessoas caminhando em direção ao túmulo que Santiago será enterrado. Todos estão vestidos de preto. Alguns seguram flores, enquanto outros permanecem em silêncio. Entre eles, Mimi, com óculos escuros, aparece completamente abatida. Bebel está ao seu lado, tentando ampará-la. Corte. No próximo take, todos já estão diante da sepultura, prestes a enterrar Santiago. O padre está pronto para iniciar a despedida.


PADRE: Meus irmãos e irmãs… hoje, nesse dia tão cinza, nos despedimos de Santiago Fontanari, um homem íntegro, com valores de bem e que foi muito importante para aqueles que o amam. 


MIMI (chorando): Primeiro foi a minha filha, Bebel… agora o meu marido. O que foi que eu fiz pra merecer tudo isso? 


BEBEL (abraçando-a): Calma, minha amiga. Vai ficar tudo bem. Vai ficar tudo bem.


MIMI: O que vai ser de mim e dos meus filhos? Essa criança que tá na minha barriga nem vai ter o direito de conhecer o próprio pai… meu Deus, que situação. 


BEBEL: Calma.


Entre os convidados, Eleonora surge alguns passos atrás de Mimi, séria, observando a cerimônia. Apesar da rivalidade entre as duas, ela demonstra respeito pelo momento e mantém os braços cruzados, em silêncio. O padre continua.


PADRE: Santiago deixa uma família, filhos e pessoas que certamente sentirão muito a sua falta. Que Deus conforte o coração de todos aqueles que hoje sofrem com essa perda.


Mimi abaixa a cabeça e começa a chorar novamente. Bebel aperta seu braço.


MIMI: Eu não consigo acreditar que ele se foi… não consigo, Bebel… 


BEBEL: Eu sei, querida. Eu sei.


MIMI: Ontem ele estava dentro de casa. Hoje eu estou aqui, enterrando o homem que foi meu marido durante tantos anos. Por mais que eu tenha humilhado aquele imprestável por anos, ele era um ser humano.


Eleonora observa Mimi por alguns segundos. Seu semblante muda, ficando mais sério.


ELEONORA (se aproximando): Apesar de tudo... eu sinto muito, Mimi. De verdade. 


Mimi se vira ao ouvir a voz dela. As duas se encaram. Por alguns segundos, ninguém diz nada.


MIMI (séria): Como é que você tem coragem de pisar aqui depois de tudo, sua vagabunda? Seu amante tá morto! E se veio pra rir da minha tristeza, fique sabendo que quem ri por último, ri melhor.


ELEONORA (ri): Você ainda achando que eu e Santiago tínhamos alguma coisa… 


MIMI: Ah, e não tinha? 


ELEONORA: Já disse que não. Já estou cansada de repetir isso. Você criou essa história maluca na sua cabeça porque precisava de alguém para culpar por tudo que não funcionava entre você e o Santiago. Eu não tenho culpa se ele não sentia mais tesao em você. 



MIMI: Não vem com esse discurso barato. Eu conheço você desde menina e sei muito bem como você é. Você nunca suportou me ver feliz, e quando percebeu que eu tinha alguma coisa que você não tinha, resolveu mirar justamente no meu marido e na minha filha! EU SEI QUE FOI VOCÊ QUE SEQUESTROU A OUTONO!


ELEONORA: Não fala besteira, Mimi.


MIMI: Você sempre teve inveja de mim!  Não me diga que não está satisfeita em me ver no fundo do poço.


ELEONORA: Eu não tenho prazer nenhum na sua desgraça. Mas já que você resolveu colocar a Outono no meio disso, vamos falar dela.


Mimi endurece o olhar.


MIMI: O que tem a minha filha? 


ELEONORA: Você realmente quer saber?


MIMI: claro. Vai confessar que está com ela na sua casa? 


ELEONORA: Para de procurar um culpado e olhe para você mesma.


MIMI: Tá insinuando o quê?


ELEONORA: Que talvez a Outono tenha desaparecido porque ninguém estava olhando por ela como deveria.


MIMI: Retire o que você disse.


ELEONORA: Não.


MIMI (irritada): Retire agora!


ELEONORA: Você quer saber o que eu penso? Eu acho que você passou tanto tempo preocupada com festa, com roupa cara, com a Lubiju e com essa necessidade de provar para todo mundo que é importante, que esqueceu que tem filhos dentro de casa.


MIMI: Você não sabe nada do que tá falando, sua urutu!


ELEONORA: Eu sei o suficiente. (P) Eu já vi você tratar seus filhos como parte da decoração da sua casa. Você mal lembra que eles existem. (P) Mas seus filhos vão crescer, Mimi. E quando crescerem, talvez entendam que a mãe deles estava mais preocupada em ser admirada do que em ser mãe. Eles vão morrer de desgosto!


Mimi perde completamente a paciência.


MIMI: Você não vai falar dos meus filhos desse jeito na minha frente!


Ela parte para cima de Eleonora, empurrando-a com força.


ELEONORA: Sua louca!


MIMI: Louca é você, sua cobra de duas pernas!


Eleonora tenta se afastar, mas Mimi segura seu braço.


ELEONORA: Me solta!


MIMI: Repete! Repete que meus filhos vão morrer de desgosto!


ELEONORA: Você tá completamente descontrolada!


MIMI: Descontrolada? Você vem no enterro do meu marido, me chama de péssima mãe e ainda quer sair daqui inteira?


ELEONORA: Eu só falei o que todo mundo pensa e ninguém tem coragem de dizer!


MIMI: Ah, é? Então pergunta pra eles!


Mimi olha para os convidados.


MIMI: ALGUÉM AQUI ACHA QUE EU SOU UMA PÉSSIMA MÃE?


Mimi encara os convidados por mais alguns segundos. Ninguém responde. Bebel, envergonhada, se aproxima e segura delicadamente o braço da amiga.


BEBEL: Querida, vamos. Não meta os pés pelas mãos. É o enterro do Santiago, todo mundo tá olhando…


Mimi respira fundo, ajeita os óculos e tenta recuperar a compostura.


MIMI: Você tem razão. Eu estou nervosa. É muita coisa acontecendo ao mesmo tempo…


BEBEL: Eu sei, querida, venha.


MIMI: Está tudo bem. Eu vou me controlar. Uh (suspira).


Bebel sorri, aliviada, e começa a conduzi-la para alguns passos mais distante. Eleonora solta o ar que estava prendendo e ajeita a roupa, discretamente. De repente, Mimi para por alguns segundos e volta com tudo em direção a Eleonora.


MIMI: DEMÔNIAAAAAAAAAAAAA!!!!!


Antes que Eleonora possa reagir, Mimi a empurra direto pro chão. 


ELEONORA: ME SOLTA, SUA MALUCA!


As duas se rolam, enquanto os convidados ficam chocados e o padre balança a cabeça, indignado.


MIMI: Maluca é a senhora sua mãe! Você acha que vai falar dos meus filhos e sair daqui toda serelepe? 


ELEONORA: E você acha que eu vou ficar quieta depois de tudo que você falou de mim?


MIMI: Cala a boca!


Mimi dá alguns tapas em Eleonora, que revida imediatamente.


MIMI: Sua desgraçada!


As duas continuam trocando tapas, completamente descontroladas.


BEBEL: PAREM! PELO AMOR DE DEUS, PAREM!


Alguns convidados tentam apartar a briga, puxando Mimi e Eleonora para lados opostos.


MIMI: ME SOLTA! EU AINDA NÃO TERMINEI!


ELEONORA: NEM EU!


As duas conseguem se desvencilhar e voltam a se agarrar, enquanto o tumulto toma conta do cemitério. A câmera começa lentamente a se afastar. Mimi e Eleonora continuam brigando ao fundo, cercadas pelos convidados que tentam separá-las. Bebel gesticula desesperada. O padre permanece parado diante da sepultura, completamente indignado com a situação. A câmera sobe cada vez mais. Um raio corta o céu e cai ao longe, iluminando todo o cemitério por um instante. 


ABERTURA:



BRASILÂNDIA, SP - UM ANO DEPOIS

CENA 02: CASA DE EFIGÊNIA/INT./DIA 

Uma pequena festa de aniversário acontece. Outono, agora se chamando Melina está sentada diante de um bolo enquanto Efigênia e Juraci ficam ao seu lado. 

JURACI: Preparada, meu amorzinho?

MELINA: sim!

EFIGÊNIA: Então fecha os olhos e faz um pedido, minha filha.

Outono/Melina fecha os olhos e sopra as velinhas. Efigênia e Juraci aplaudem.

MELINA: Obrigada, mãe! Obrigada, tia! Eu amo vocês…

Efigênia se emociona e abraça a menina.

EFIGÊNIA: Parabéns, meu amor. Eu te amo muito, muito, muito.

As três de abraçam. Ao som de “Rindo Com Você - Vanessa da Mata”, os anos passam rapidamente. Outono cresce. Novos aniversários, novos bolos, novas fotografias. Ela deixa de ser criança, vira adolescente e, finalmente, uma jovem adulta. Efigênia aparece em todas aquelas lembranças, sempre ao lado dela, mas infelizmente, perde a vida em 2011 após ficar muito doente. Cenas de Mimi sofrendo pela perda da filha também são mostradas.

JANEIRO DE 2026

CENA 03: CASA DE JURACI/INT./MANHà

Melina (Vitória Strada), agora com 27 anos, está sentada à mesa tomando café. Juraci coloca uma xícara diante dela.

MELINA: Obrigada, tia.

JURACI: De nada.

Melina toma um gole e olha para uma fotografia antiga sobre um móvel da sala. É ela, ainda criança, abraçada a Efigênia. Melina sorri discretamente.

JURACI percebe o olhar.

JURACI: Sua mãe ia ficar orgulhosa de ver a mulher que você virou.

Melina passa os dedos pela borda da xícara e permanece olhando para a fotografia.

MELINA: Eu queria tanto que ela tivesse conhecido essa parte da minha vida… dessa nossa rotina… Ah, porque a vida é tão injusta, né? Mamãe se foi há quinze anos e eu nunca superei… mas enfim, vamos parar de chororô que ela não iria gostar de ver a gente assim, tá?

Melina se levanta da mesa, pega sua bolsa que está na cadeira ao lado e se prepara pra sair.

MELINA: Agora deixa eu ir que já tô atrasada e o ônibus já deve tá chegando! 


JURACI: Ai, Melina, fico tão preocupada com você indo trabalhar tão longe… São Paulo é tão perigosa… tem certeza que é isso mesmo que você quer?


MELINA: Não é o que eu quero, tia, mas tá tudo tão difícil, você sabe… Pra eu conseguir fazer a minha tão sonhada faculdade de gastronomia, vou ter que ralar um pouquinho… 


JURACI: Já disse pra você vir trabalhar comigo no buffet.


MELINA: Pra te dar prejuízo? 


JURACI (ri): Como assim?


MELINA: Ué, se eu for trabalhar com a senhora no buffet, a comida vai toda desaparecer misteriosamente, e não é isso que você quer, né? (P) Ai, tia, deixa eu ir! O dia vai ser longo hoje… ninguém aguenta aquela desquerida da Brígida Marques fazendo story o dia todo e divulgando casa de apostas pras pessoas perderem o pouco que tem… 


JURACI: Que horror! 


MELINA: Juro, e o pior é que ela ainda ri da desgraça alheia e torra todo o dinheiro com mesquinharia. Ai se eu pudesse dar uma surra naquela ali… E sabe o que é pior? É ela me chamando o dia todo de “Mê”! (P) Bom, deixa eu ir, preciso ir!


Melina corre apressada até a porta.


MELINA: Beijos, tia, te amo! 


JURACI: Vai com Deus, minha linda! Deus te proteja…


SONOPLASTIA: MIND READER - MIMI WEBB, MEGHAN TRAINOR 


Cortamos para imagens de São Paulo ao som da música citada acima. São mostradas imagens do movimento constante da cidade, pessoas e carros passando a todo momento pelas ruas, o sol iluminando os prédios e refletindo sobre as janelas de vidro. No take seguinte, ainda ao som da música, Melina está parada em um terminal de ônibus, aguardando sua linha. Inquieta, ela olha para o relógio diversas vezes, impaciente com a demora. O tempo passa e 

quase uma hora depois, finalmente o ônibus surge ao longe e se aproxima do terminal. 


CENA 04: MANSÃO DE BRÍGIDA MARQUES/EXT./MANHà


A mansão de Brígida Marques (Ramille) é enorme, impecável e exageradamente decorada. Na área externa, ela está encostada numa planta enorme, que se mexe suavemente com o vento. Ela segura o celular, gravando a si mesma com uma expressão concentrada.

BRÍGIDA: Me faz um carinho, por favor... me faz um carinho...

Ela passa a mão nas folhas, como se estivesse tentando acalmar a planta.

BRÍGIDA: Isso... assim... você gosta, não gosta? Me faz um carinho também.

A planta balança com uma rajada de vento.

BRÍGIDA: Ai, que delicada...

De repente, Melina surge atrás dela feito um fantasma.


MELINA: Bom dia!


BRÍGIDA (se assusta): AI! Que susto, Mê! Não faça mais isso. 


MELINA (ri): Desculpa. O que é que você tava fazendo com essa planta aí? 


BRÍGIDA: Conteúdo, amor. Por milhões de visualizações, vale tudo. (P) Mas vem cá, isso são horas de chegar no trabalho? Já são quase nove horas da manhã, querida! 


MELINA: Eu vim de ônibus.


BRÍGIDA: Ah, e esse ônibus é movido a combustível de caramujo? 


MELINA: Não. É movido a diesel. O caramujo é só o motorista mesmo.


BRÍGIDA: Ai, Mê!


MELINA: É sério. Eu peguei o ônibus das sete.


BRÍGIDA: E chegou quase nove?


MELINA: São dois ônibus, Brígida.


BRÍGIDA: Dois?


MELINA: Um até o terminal e outro até aqui.


BRÍGIDA: Meu Deus. Você faz uma excursão pra trabalhar na minha casa.


MELINA: Não é uma excursão, é o transporte que eu tenho.


BRÍGIDA: Eu não estou reclamando, amor… Estou só dizendo que você precisa se organizar melhor.


MELINA: Eu saí de casa antes das sete.


BRÍGIDA: Então você precisa sair às seis.


MELINA: Pra chegar às oito?


BRÍGIDA: Exatamente.


MELINA: E pra chegar às sete?


BRÍGIDA: Cinco.


MELINA: E pra chegar às seis?


BRÍGIDA: Quatro.


MELINA: Você quer uma funcionária ou uma pessoa que durma na garagem?


Brígida começa a rir.


BRÍGIDA (rindo): Ai Mê, você é muito engraçada. Mas sabe o que é mais engraçado? 


Ela abre o celular, procurando alguma coisa.


BRÍGIDA: Olha isso!


Ela vira a tela para Melina. É uma foto de Brígida fazendo uma careta exagerada, olhos arregalados e boca torta, acompanhada da frase: “UIIIIRRRR”. Brígida começa a rir descontroladamente.


BRÍGIDA: OLHA! UIIIIRRRR!


Ela repete a própria careta.


BRÍGIDA: Eu fiquei muito engraçada!


MELINA: Você fez essa cara de propósito?


BRÍGIDA: Claro! Tem gente usando minha foto em tudo! Olha esse aqui!


Ela desliza o dedo.


BRÍGIDA: “Quando você abre a geladeira e não tem sobremesa: UIIIIRRRR!”


Brígida gargalha.


MELINA (forçando um sorriso): Muito engraçado.


BRÍGIDA: Não é?


MELINA: É.


BRÍGIDA: Olha esse outro!


Ela mostra outro meme.


BRÍGIDA: “Quando a fatura do cartão chega: UIIIIRRRR!”


Brígida começa a rir ainda mais.


BRÍGIDA: Ai chega dessas palhaçadas! (P) Mê, prepara aquele shake de banana pra mim, por favor? Você sabe que eu não fico sem…


MELINA: Claro.


BRÍGIDA: Ah, e depois quero também que você marque a minha avaliação naquela academia chiquérrima que te falei ontem, e quando você terminar, quero que separe o meu look pro evento de amanhã, e eu não quero cores monocromáticas. 


Melina começa a suar frio com tanta informação.


BRÍGIDA: E por falar em look, acho que já passou da hora de você mudar um pouco seu estilo, não acha? Você sempre vem com esses tecidos da 25 de março, com o cabelo desarrumado… não acha que tá na hora de mudar, Mê? Você tem que tá ciente de que é uma funcionária da Brígida Marques, more. Já passou da hora.


As palavras de Brígida entram como um eco na mente de Melina, que, confusa, e cansada de tantas cobranças, decide tomar uma atitude.


MELINA: CHEGA!!! SABE O QUE JÁ PASSOU DA HORA DE ACONTECER, BRÍGIDA? 


BRÍGIDA: O quê, querida? Você começar a entrar nos meus links de apostas online? 


MELINA: ISSO AQUI Ó!


Sem pensar duas vezes, Melina avança rapidamente sobre Brígida e a empurra contra a piscina, que cai sobre a água e começa a se debater. A câmera foca em Melina, assustada com a própria atitude. 


MELINA (com as mãos na cabeça): Ai Jesus, o que foi que eu fiz?


Brígida surge da água, completamente indignada.


BRÍGIDA: VOCÊ ME EMPURROU?! 


MELINA (morrendo de vergonha): Me… me desculpa, pelo amor de Deus, dona Brígida, eu não sei onde tava com a cabeça…


BRÍGIDA: VOCÊ ENLOUQUECEU?! 


Após sair da piscina, Brígida caminha até Melina, completamente furiosa.


MELINA: Por favor, me desculpa…


BRÍGIDA (séria): Eu te desculpo sim, Mê, mas você vai ser desculpada lá no olho da rua! Você tá demitida!


A câmera foca em Melina, assustada, intercalando com Brígida, que a encara seriamente. 


CONGELAMENTO EM MELINA.


ENCERRAMENTO: