O ÚLTIMO UIVO DOS LOBOS
escrita por Raquel Assunção
Capítulo 10
Cena 1- Mansão Castanhari Vasconcelos. Escritório. Int.
Num tom misterioso, a câmera passeia pelo cômodo. A iluminação não é das melhores, há apenas uma luz provinda de um abajur num estilo clássico próximo à mesa do escritório.
Nos aproximamos de Lázaro, usando luvas pretas, ele está de costas repousando sobre uma cadeira, fala ao celular;
Lázaro (expressa prazer na fala): Deu tudo certo ? … (ri brevemente) Que bom ! Irei efetuar a segunda parte do nosso combinado. (desliga o celular) Isso é o que acontece com quem ousa desafiar Lázaro Castanhari Vasconcelos!
Cena 2- Hospital. Quarto de Loreta/Lorena. Int.
Augustine está em frente a Loreta, quem acredita ser Lorena, a jovem se encontra fraca, mas seu olhar selvagem denuncia algo a mais do que isso.
Augustine: Oh minha querida, como você está ? Está bem ?.
Loreta: Estou sim… Na medida do possível. Agora que minha irmã morreu… Nem sei como vai ser. Aquela cadela era uma desgraçada mas era minha única parente né.
Augustine percebe a farsa e a confronta.
Augustine: Para com esse teatrinho barato. Tá na cara que você não é a Lorena, você é péssima até nisso. Você pode até querer ser a Lorena, mas sempre vai ser a fracassada da Loreta.
Loreta: Ah é ? Então vamos falar apenas a verdade. A começar por Antônia (Augustine se abate levemente). Esse nome te diz alguma coisa ?.
Augustine: Não sei do que você está falando.
Loreta: Oh oferenda rejeitada pode parar com esse fingimento. A Lorena estava desconfiando de você e pediu para te investigarem. Descobriu que você é filha do Honório com uma putinha que ele comia às escondidas-
Augustine: Não fala assim da minha mãe!
Loreta: Ah, ótimo! Que bom que decidiu falar a verdade… Você armou esse acidente para matar a minha irmã, não foi ? CONFESSA !
Augustine: Da onde você tirou isso ? A inveja da sua irmã consumiu seu cérebro ?.
Loreta: Vamos fazer o seguinte. Você assume seu lugar de honra como filha do Honório, cala a boquinha sobre eu estar assumindo o lugar da minha irmã e ficamos quites, o que acha ?.
Cena 3- Mansão Vázquez de Queiroz. Sala de estar. Int.
Júlia, Miranda e Honório estão sentados sobre os sofás da espaçosa sala de estar, enquanto tem uma conversa informal.
Júlia: Tinha algum motivo a mais para que os senhores fossem à festa do Gregório ?.
Miranda: Que motivo a mais teríamos ?.
Honório: Não entendo esse questionamento a essa altura da investigação, Júlia. Deveria investigar outros suspeitos.
Júlia: Ah, mas o senhor entende sim. E não adianta negar. Das Juwel des Teufels. Esse nome lhes diz alguma coisa ?.
Miranda (tentando dissimular): Ah, creio que já posso ter escutado sobre.
Honório: Onde quer chegar, Júlia ?.
Júlia: Só vou adverti-los que estou a par sobre a ambição desmedida que levou o casal e o Gregório à essa busca incessante por essa jóia.
Miranda: Já que está a par da verdade, agora deveria ir por outra linha de investigação. Até porque, quem garante que não nos enganaram de propósito para assassinar o Gregório e nos incriminar ?.
Júlia: Todas as linhas de investigação estão sendo averiguadas e consideradas. Estamos nos aproximando da verdade, e não se preocupe, porque quem cometeu esse crime vai pagar.
Cena 4- Horas mais Tarde. Mansão Castanhari Vasconcelos. Entrada/ Sala de estar. Ext/Int.
“Don’t blame me- Taylor Swift” vem ao fundo com um leve toque de suspense. Lázaro e Nathália entram na casa de mãos dadas, Doralice vem logo atrás.
Dona Mari (irônica): Nathália! Você saiu, que bom. Vamos iniciar mais uma contagem regressiva para o seu próximo surto. Lázaro, eu já mandei esconderem todas as bebidas alcoólicas. Com bêbado tem que ser assim, não pode dar brecha, um deslize e eles já tão ó (faz sinal como se tivesse tomando).
Nathália: Como você é petulante. Tantos anos num lugar que não te pertence não foram suficientes para aprender o mínimo da finesse.
Dona Mari (rindo): Oh que linda! Ela aprendeu a se defender sem atacar as pessoas. Realmente admirável seu esforço. (passiva agressiva) Pena que você vai morrer tentando, mas NUNCA vai agradar seu pai ou qualquer outra pessoa, porque você não passa de uma cachaceira fracassada, e todo o dinheiro do mundo não vai preencher o seu vazio.
Doralice (se intromete): Quem é você para falar de vazio, Marieta ?
Dona Mari (irritada): CALA A BOCA! Marieta morreu, e todos vocês sabem muito bem disso.
Lázaro (misterioso): A Marieta morreu, ou foi substituída pela sua pior versão ? A Marieta era sagaz, sonhadora. Mas a Mari, a mulher que você decidiu se transformar, é falsa. (Mari se choca ante a revolta do marido). Cruel. Maldita. Sórdida.
Dona Mari: Porque você está agindo assim ?.
Lázaro: Você não imagina ? (ri) Mari, eu já sei de tudo. (chocada, ela recua alguns passos) Eu passei todos esses anos casado com a maior VAGABUNDA que Belo Horizonte já viu. Ordinária. Salafrária. (grita) DESGRAÇADA.
Dona Mari (aos berros): Ah, então a pentelha abriu a boca ? Sua mal parida, isso que você é, igual essa pé de cana que é a sua mãe.
Nathália (sobe o tom): Olha lá como você fala da minha filha, sua sapo cururu.
Aos fundos já se pode ouvir a baixaria, nesse momento Rômulo chega da academia e vai entrando aos poucos na casa.
Dona Mari (gritando): MAS VOCÊ CONTOU TUDO MESMO, DORALICE ? CONTOU INCLUSIVE QUE O SEU PAI, O RÔMULO -
Lázaro se descontrola e dispara um tapa na cara de sua esposa.
Lázaro: Sua maldita. EU TE ODEIO.
Dona Mari: É MUITO FÁCIL ME AGREDIR. MAS FALAR, DE FATO, A VERDADE, NINGUÉM QUER (ri descontrolada). Pior que a minha traição, foi a do seu marido, Nathália. Seus babadores de ovo te contaram, que o Rômulo é GAY ? E QUE ELE TE TRAI COM OUTRO VIADINHO ?
Mari cai na gargalhada. Rômulo adentra na sala de estar nesse momento após ter escutado seu nome ser citado. Nathália se descontrola e parte para cima de sua madrasta.
Nathália (agredindo Mari): Sua monstra. Desgraçada. Eu te odeio… Eu te mato. Mentirosa.
Nathália puxa os cabelos dela. Mari, tentando se defender, rasga a roupa da rival, distribui arranhões pelo pescoço, as duas acabam caindo pelo chão. A enteada dá três tapas seguidos no rosto da madrasta, que revida dando um soco no olho dela, Nathália fica desnorteada, Mari vira o jogo e fica em cima dela, também dá dois tapas na cara dela. À essa altura ambas têm sangue escorrendo pelo nariz. Mari começa a enforcar Nathália, que arranha a bochecha dela. Por fim, as duas são separadas por empregados.
Nathália (gritando, descontrolada): DESGRAÇADA, EU TE MATO. MENTIROSA. (vê Rômulo). MEU AMOR, ESSA PUTA VELHA TAVA MENTINDO SOBRE VOCÊ.
Romulo: Nathália… Ela não mentiu. Eu tive um caso com um rapaz. Ela descobriu e me chantageou. Eu fui covarde e aceitei te internar em troca do silêncio dela.
Nathália não suporta a dor de saber a terrível verdade e parte pra cima do marido.
Nathália (gritando): SEU DESGRAÇADO. COMO PÔDE FAZER ISSO COMIGO ? COVARDE. VIADINHO DESGRAÇADO. MEU DEUS. QUANTOS CHIFRES EU NÃO DEVO TER. FOI MUITO ESFORÇO PRA VOCÊ FICAR COMIGO DURANTE TODOS ESSES ANOS, NÃO FOI ? SEU BOSTA.
Ela distribui tapas desenfreados pela cara do marido, Arranha o rosto dele e o pescoço dele. Rasga a camisa dry fit do marido. Lázaro e Doralice a seguram.
Lázaro (olhando com ódio para Mari): Tudo foi culpa sua. VOCÊ VAI SAIR AGORA DA MINHA CASA.
Nathália ( p/Rômulo): ELE TAMBÉM.
Num corte, Lázaro leva Mari a força para fora, outros dois empregados expulsam Rômulo. Com a brutalidade que foi expulsa, Mari cai no chão.
Mari: Seu ridículo. Patético. Isso não vai ficar assim.
Lázaro: Não vai mesmo. Eu vou fazer você conhecer o inferno na terra.
Cena 5- Noite. Mansão Vázquez de Queiroz. Sala de estar. Int.
Augustine, Loreta - fingindo ser Lorena -, Honório e Miranda se encontram na sala. As duas primeiras acabaram de chegar, os donos da casa foram pegos de surpresa. A trilha “Imperador- Felipe Alexandre, Eduardo Queiroz” vai tomando conta aos poucos da cena.
Honório: Nós sentimos muito pelo que aconteceu a você e a sua irmã, Lorena.
Miranda: A vida realmente é um sopro, querida. Mas ela era tão… Coitadinha não é ? As vezes foi até melhor-
Honório (interrompe): Em que podemos ajudá-la ? Querem uma água, um café…
Loreta: Corrigir o erro que a sua mulher cometeu, você pode sim.
Miranda: Perdão ?
Augustine: Deixa que eu falo. Você (p/ Honório) já sabe tudo que aconteceu com a mulher que você amou ? Pois então, eu vim fazer justiça pela memória dela.
Miranda: Do quê você tá falando ? Olha, aqui não é o caps.
Honório: Eu ainda não entendi. O que a Antônia tem a ver com isso ?
Augustine (p/Miranda): Se lembra do filho que a Antônia teve do Honório ? Do que você fez para ele ?...
Miranda começa a ficar nervosa.
Augustine: Que você mandava um dinheiro irrisório pra enganar ela ? Depois, ela adoeceu. Implorou para que você pagasse o tratamento dela, e se lhe acontecesse o pior, que cuidasse do filho amado dela. (seus olhos enchem-se de lágrimas) Ela piorou, não tinha mais forças para continuar lutando pelo que lhe era de direito. Ameaçada, coagida, isolada numa cidade do interior, ela se viu sem opções. Morreu lentamente. O filho dela a viu morrer em seus braços.
Honório (já chorando): Como você sabe disso ?
Augustine (às lágrimas): Então, você se apossou da guarda dele, mas ao invés de cuidar, você o descartou… O mandou para um prostíbulo. O chamava de viadinho. (Miranda Já percebeu o que vem a seguir) Ele cresceu cheio de ódio, com desejo de vingança, sem entender a sua verdadeira identidade. Cheio de marcas do sofrimento que passou… Ela fugiu, entendendo quem realmente era. Eu me transformei. Eu sobrevivi. Você não conseguiu me matar como fez com a minha mãe… (p/ Honório) Eu sou a sua filha, Honório.
Honório cai às lágrimas com a revelação. Miranda segue chocada, suando de nervoso.
Honório: Mas como…
Augustine: Eu sempre fui mulher. Na adolescência, quando ainda estava sob os cuidados da cafetina, comecei, aos poucos, a transição. Fui juntando uma grana. Até que consegui uns contatos de umas travestis que moravam em São Paulo. Elas me ajudaram em tudo.
Miranda: Você está mentindo. Mentirosa. Eu nunca fiz isso. O menino da Antônia era complicado, ele fugiu de mim, eu não tinha controle sobre ele.
Augustine: Fala a verdade uma vez na vida, Miranda. Seja sincera.
Honório (p/Miranda): Você é um monstro. Como eu pude ser casado durante tantos anos com uma mulher tão desprezível ? Eu tenho nojo de você.
Miranda: Honório, não acredita no que esse traveco está falando, eu jamais faria isso. Ela deve está planejando algum golpe ! É isso!
Augustine: Suas palavras não me atingem. Tudo que você me fez passar me fez dura na queda. Não é a primeira vez que sou ofendida. Mas o que me conforta é que você, Miranda, concorre com muitas chances de ganhar, ao prêmio de maior dissimulada que Minas já viu.
Miranda: Como você ousa ? Saia da minha casa. Sua ordinária. Você não é o filho da Antônia. É só uma golpista salafrária qualquer. Volta pro bêco onde você se prostituía.
Com a última citação, Honório percebe que sua filha está falando a verdade.
Honório: “Onde você se prostituía” ? Você acabou de confirmar o que ela disse. Então é verdade.
Miranda : O quê? Eu não disse nada disso. (ri de nervoso) Ela mesma disse que -
Honório (ruge como um leão): CHEGA ! VOCÊ É A PIOR PESSOA QUE EU JÁ CONHECI NA VIDA. O SEU TEATRO ACABA AGORA.
Miranda (tentando se defender): Calma lá! Também não é assim. Se formos falar de podridão, você não fica muito atrás. VOCÊ CHEGA A SER MAIS PODRE DO QUE EU, MEU BEM. SE EU TENHO MEUS CORPOS ENTERRADOS, VOCÊ TAMBÉM TEM MUITOS PECADOS, E OLHA QUE SE ELES VIEREM À TONA, NÃO VAI SER FÁCIL PARA VOCÊ SE EXPLICAR
Honório se enfurece com a ameaça e a pega pelos braços, levando-a para fora da casa.
Miranda (chorando, enquanto é expulsa): Meu Deus, minha bolsa ! Me solta, eu vou te denunciar por violência.
Honório a larga na rua, como se estivesse se desfazendo de um saco de lixo.
Honório: Aguarde o peso da minha mão sobre sua vida. Você sofrerá até o seu último dia de vida.
Cena 6- Resort Vila Real. Ala dos funcionários. Quarto de Bruna. Int.
O instrumental “Oculto- Guilherme Rios, Eduardo Queiroz” está ao fundo, dando um toque de suspense. Bruna, que agora dorme só em seu quarto, procura a carta que Úrsula lhe havia confiado, entretanto se surpreende, após ter revirado seu quarto a procura e não encontrá-la de jeito nenhum.
Bruna: Meu Deus… Se não está aqui… Como ela sumiu ?...
Cena 7- Apart-Hotel de Miranda. Banheiro. Int.
Miranda e Dona Mari estão numa banheira, elas estão molhadas, tentando relaxar depois de serem humilhadas. Miranda está com a cabeça encostada no ombro de Mari, sentada no colo dela. A mesma música que se iniciou na cena anterior segue presente nessa.
Dona Mari: Isso não vai ficar assim… Não vai mesmo.
Miranda: Eu ainda estou horrorizada com toda essa barbárie.
Dona Mari: Nós vamos destruí-los !.
A câmera foca nos olhares intensos de Dona Mari e Miranda, as duas se beijam. “Preciso dizer que te amo- Marina Lima” toca ao fundo. Mari distribui um chupão por volta do pescoço de Miranda, que delira de prazer.
As amantes celebram seu amor em meio ao caos que se aproxima de suas vidas.

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