GATO & SAPATO - CAPÍTULO 17 (02/01/2026)

 GATO & SAPATO - CAPÍTULO 17

NOVA YORK


CENA 01: APARTAMENTO/INT./MANHà


INSTRUMENTAL: DRAMÁTICO - MU CARVALHO 


Sentadas à mesa, Adelaide e Alzira tomam um chocolate quente enquanto conversam.


ALZIRA: Tem certeza que quer mesmo voltar? Você já conquistou tanta coisa aqui… se tornou uma cientista renomada, se formou em tecnologia avançada… 


ADELAIDE: De que adianta ter diploma, ter renome, mas não ter o amor da minha vida ao meu lado? Eu inventei aquele robô com o rosto da Violeta só pra tentar ficar perto da Alyra de alguma forma… mas, pelo visto, ela nunca mais voltou na mansão depois que a cobra foi morar lá.


ALZIRA: Cobra é apelido. Aquela mulher tem a alma podre, não mede esforços pra passar por cima de ninguém. Tentou acabar com a sua vida, e eu não duvido que tenha sido ela a assassina do Olavo.


ADELAIDE: Não sei… aquela lá era fascinada pelo meu marido, não sei se teria tamanha petulância.


ALZIRA: Eu não duvido de nada vindo dela. Não lembra o que ela tentou fazer com você? Me lembro daquele dia como se fosse ontem.


FLASHBACK - INÍCIO 


SÃO PAULO, 1990.


A cena mostra Olavo sentado à mesa enquanto Alzira serve o jantar. Adelaide desce a escada e vai até a mesa.


ADELAIDE: Que mania feia, hein? Chegou e nem foi no quarto dar um oi pra mim e pra sua filha.


OLAVO (frio): Dia cheio, amor. Reunião atrás de reunião. Eu só quero comer em paz. Ainda tenho mais uma reunião depois das oito.


ADELAIDE: Eu só tô esperando a Alyra crescer pra me mudar daqui. Acho que a nossa relação não faz mais sentido. Depois quero ter uma conversa séria com você.


OLAVO (se enrola): Como assim?


ADELAIDE (firme): Pode retirar o meu prato, Alzira, hoje eu não vou jantar. Depois você sobe, que eu quero conversar com você, Olavo.


INSTRUMENTAL: TENSO LEVE AA #4 - MU CARVALHO 


Ela se retira e sobe a escada, chorando em silêncio. Olavo tenta impedir mas já é tarde. Sem nem tocar no prato, ele sobe. Ao chegar lá, ele vê a esposa chorando, enquanto cantarola para Alyra, que está em seu berço.


OLAVO: Eu decidi não comer de tanto pensar no que você tem de tão importante pra me falar.


Adelaide se vira, e seu rosto demonstra o sentimento de ódio e repulsa que está sentindo. Sem mais, ela desfere um tapa contra o rosto de Olavo.


ADELAIDE (grita): CANALHA!!! 


Ela então dá alguns passos e vai até a cômoda, pegando algumas fotos que estão sobre o móvel. Ela pega as fotos e esfrega na cara de Olavo. Nelas mostram o pai de Alyra e Violeta, sua secretária, aos beijos.


ADELAIDE: MONSTRO!!! ORDINÁRIO!!! OLHA AQUI O QUE VOCÊ É!!! VOCÊ NÃO PRESTA!!!


Ela dá alguns tapas em Olavo, mas ele a consegue conter.

OLAVO (tenso): Me escuta, Adelaide! Não é o que você tá pensando!

ADELAIDE (grita): NÃO É O QUÊ, SEU DESGRAÇADO?! Eu tô cega, é isso?! As fotos mentem?! Eu vi com esses olhos que a terra há de comer, Olavo! Você e aquela... aquela víbora da Violeta! A tua secretária! 

OLAVO (nervoso): Onde achou essas fotos?

ADELAIDE: Eu contratei um detetive!

Ela se afasta, desolada. A voz embarga.

ADELAIDE: Eu te dei tudo... tudo, Olavo. Eu te dei uma filha, eu te dei a minha vida! E você me retribui com isso?

Silêncio. Alyra, no berço, começa a chorar.

Olavo se aproxima, tentando tocar o rosto da esposa, mas ela recua.

ADELAIDE (fria): Se aproxima da minha filha e eu juro que te mato.

OLAVO: Adelaide...

ADELAIDE (olhos marejados): Não fala mais nada. Em alguns dias, eu sumo da sua vida. Você vai ter o que sempre quis: liberdade pra se deitar com a sua amante. E eu vou embora dessa casa e vou levar a Alyra junto comigo!

FLASHBACK - FIM

ADELAIDE: Depois disso o Olavo me pediu perdão, disse que nunca mais iria me trair e que iria demitir a Violeta no dia seguinte, e eu o perdoei. (pausa) Aquela bisca sabia que eu fazia doações pra uma instituição de caridade no interior e provavelmente me seguiu.

FLASHBACK - INÍCIO 

Violeta está à espreita, esperando o momento certo de agir. Ela observa Adelaide entrar para o interior da Instituição. Adelaide entra com algumas sacolas e a vilã aproveita o momento para colocar o plano em prática. Com uma máscara cobrindo parcialmente o rosto, ela se aproxima do carro da rival e se deita debaixo, cortando os freios.

FLASHBACK - FIM

ADELAIDE: E foi ali que a minha vida virou um inferno. Assim que saí da instituição, o carro perdeu o controle e despencou. Eu não lembro de mais nada… só fui recobrar a consciência no hospital daquela cidade, e você já tava lá, do meu lado. Nesse momento, todo mundo já achava que eu tinha morrido.

ALZIRA: Você não quis voltar… e eu nem teimei. Ainda bem que não voltamos.

ADELAIDE (emocionada): A minha sorte foi o Tadeu… o advogado da família. Ele nos ajudou muito quando cedeu a casa da família dele aqui em Nova York pra gente se esconder.

ALZIRA (pensativa): Eu só fico me perguntando… quem será que foi enterrado no teu lugar, hein?

ADELAIDE: Essa é a pergunta que não sai da minha cabeça, Alzira. Quem será que estava naquele caixão? Quem colocaram no meu lugar? Só o Tadeu mesmo que poderia resolver esse problema sem deixar nenhuma ponta solta…

ALZIRA: Será que a Alyra vai te perdoar?


ADELAIDE: Não sei… eu não faço ideia do que a minha filha possa ter se tornado. Trinta e cinco anos, Alzira… trinta e cinco anos longe de tudo. Trinta e cinco anos fingindo estar morta, me passando por outra pessoa… eu não quero morrer assim. Eu quero ter um fim digno, ao lado da minha filha. Se ela não me perdoar, pelo menos vou ter a alegria de ver como ela está, de poder olhar pra ela… de poder abraçá-la. (pausa, emocionada) Eu vou voltar, Alzira. Eu vou voltar pra ter a minha filha de volta e pra acertar as contas com aquela vagabunda da Violeta. Se ela pensa que vai mandar e desmandar em tudo o que um dia foi meu, ela tá muito enganada!


CENA 02: MANSÃO TRAJANO/INT./MANHà


Violeta, Rafael e Rúbia estão sentados à mesa enquanto Noêmia serve o café da manhã.


VIOLETA: E o casamento, hã? 


RAFAEL: Tudo sob controle. Aliás, nem tudo. Eu estive conversando com a Rúbia e a gente decidiu adiantar a cerimônia em cinco meses.


VIOLETA (se engasga com o café): O QUÊ?


RÚBIA: Mãe… é por uma boa causa. Explica pra ela, amor.


RAFAEL: A Rúbia me disse que depois do tal vídeo vazado, a Bella Glamour está passando por problemas graves como fornecedores, clientes e patrocinadores pulando fora do barco. Não é?


VIOLETA: É… realmente, depois daquele maldito vídeo a minha vida virou um inferno. Tudo culpa daquela salgadete dos infernos.


RAFAEL: Eu tenho uma solução, Violeta.


INSTRUMENTAL: SUSPENSE ETHEREO #1 - MU CARVALHO 


VIOLETA (surpresa): Solução? E isso tem solução?


RAFAEL: Claro. Olha, pelo o que a Rúbia andou me contando, eu vejo que vocês duas não tem a mínima capacidade de ficar na linha de frente de uma empresa do porte da Bella Glamour. Você ainda tem sim alguma noção sobre finanças, não é? Mas a Rúbia me disse que não entende de absolutamente nada.


VIOLETA: É, realmente eu só sei o básico. Mas qual é a tal solução?


RAFAEL: A solução sou eu, Violeta. Eu sou filho de fazendeiro, fiquei dos meus 25 aos 37 anos à frente dos negócios do meu pai, e as minhas estratégias nunca falharam.


RÚBIA (complementando, manipulada): Mãe, eu me casando com o Rafael, vai ficar muito mais fácil pra ele ajudar a gente com esse problema. Ele pode muito bem assumir a minha parte na empresa e aproveitar pra tirar a Bella Glamour do buraco, mas até tudo se ajeitar, óbvio.


RAFAEL: Mas não pode demorar, se não vai ser tarde demais. Muito tarde.


Pensativa, Violeta suspira fundo e passa a mão na testa. 


VIOLETA: Tudo bem… eu aceito sua ajuda, Rafael. O que eu mais quero é a Bella de volta pro topo. 


RAFAEL: Perfeito. Muito bem!


VIOLETA: Mas vamos esperar alguns dias. Eu quero ver até onde isso vai dar.


HORAS DEPOIS…


CENA 03: AP. DE RAFAEL/INT./NOITE

Verinha está sentada aos pés da cama de Rafael, cruzando as pernas, mexendo no celular e fumando. Rafael sai do banheiro, enxugando o cabelo, sem camisa. Ela observa de longe com um sorriso de puro deboche.

VERINHA (rindo baixo, venenosa): Eu não acredito que vai ser tão fácil assim. A Violeta… coitada, me surpreendeu. Eu achava que ela tinha pelo menos meio neurônio funcionando.

RAFAEL (seca o peito, tranquilo): Ela disse que vai pensar uns dias. Pensar o quê? A Bella Glamour tá afundando a cada dia. Ela tá encurralada e ainda acha que tem escolha.

VERINHA: E a panguá da Rúbia, hein? Tá aceitando tudo isso de boa?


RAFAEL: Tá caindo feito um patinho. A Rúbia se diz malvada, mas é uma anta. Até a Alyra tem mais faro que ela.


VERINHA: Eu quero mais é que elas vão pro raio que o parta. (encara Rafael com segundas intenções) Você é tão gostoso… Ai, que sorte a minha ter você juntinho na cama todos os dias. Vem cá, vem.


Rafael se aproxima de Verinha e os dois começam a se beijar intensamente, até que se deitam na cama e fazem amor. A cena escurece.


SONOPLASTIA: SANTO - CHRISTINA AGUILERA, OZUNA


Duas semanas se passam ao som da música citada, enquanto são exibidas muitas imagens de São Paulo. Corta para a fachada elegante da Bella Glamour.


CENA 03: BELLA GLAMOUR/INT./MANHà


A recepção está lotada de candidatos a uma entrevista de emprego. Amélia está sentada, se abanando com um leque improvisado no próprio currículo.


AMÁLIA (se abanando): Jesus… e esse calor, hein?


MULHER: Calor? Isso aqui tá o próprio purgatório, querida. Eu espero muito que me contratem, tô precisando demais desse emprego. Tipo, MUITO mesmo. Eu saí lá da casa do caralho pra chegar aqui. 


AMÁLIA: Sinto lhe informar, lindona, mas… esse emprego é MEU!


INSTRUMENTAL: JEFINHO PISADINHO - NANI PALMEIRA, RAFAEL LANGONI


A mulher olha para Amélia com cara de indignação.


MULHER: Egoístinha você, hein? Tá se achando a última bolacha por quê? Tem um caso com a dona daqui? É isso? Tá dormindo com a chefe?


AMÁLIA: Ainda pergunta? É caso antigo, benhê. E ela é muito gostosa, viu? 


A entrevistadora abre a porta após uma candidata se retirar.


ENTREVISTADORA: Amélia Maria!


AMÉLIA: Chegou a hora de brilhar.


Ela ajeita o cabelo, manda beijinho debochado e caminha com passos exagerados.


Já na sala de entrevistas, a entrevistadora, uma mulher elegante e séria, senta com uma prancheta nas mãos. Amélia entra toda produzida, com sorriso largo.


ENTREVISTADORA (olhando o currículo): Amália Maria de Souza?


AMÉLIA: Isso. Para os íntimos, apenas Amélia. Alguns chamam de Memé, outros de Mariazinha, Amelinha, Inha…


ENTREVISTADORA (ergue a sobrancelha): Hm. Certo… sente-se, por favor. Está pronta?


Amélia senta, cruza as pernas exageradamente, derruba a caneta da mulher sem perceber.


AMÉLIA (empolgada): Prontíssima!


A entrevistadora pega a caneta do chão, respira fundo e continua.


ENTREVISTADORA: Vejo aqui que você… hm… trabalhou em diversas áreas diferentes nos últimos anos. Telemarketing, manicure, frentista, balconista de supermercado…


AMÉLIA: Multitarefada, né, amor? 

 

ENTREVISTADORA (fria): Vejo que ficou apenas três semanas em cad-


AMÉLIA (interrompendo): Ambiente tóxico! Sabe como é, né? Gente negativa pesa o ar e eu sinto as baixas vibrações de longe.


ENTREVISTADORA: Entendi… E você tem experiência em rotina administrativa?


AMÉLIA: Claro que tenho! Eu administro minha irmã todo santo dia pra lavar a louça. Se eu consigo coordenar uma mulher velha e preguiçosa, amor, administrar planilha é fichinha.


ENTREVISTADORA: E por que você quer trabalhar aqui?


Amélia ajeita o cabelo e respira fundo.


AMÉLIA: Porque é o meu sonho desde criança… (coloca a mão no peito) sempre admirei essa empresa, desde que vi o primeiro comercial na televisão… As cores… a estética… a vibe, sabe? A Belle Glamour é-


ENTREVISTADORA: Bella. Bella Glamour. Não Belle.


AMÉLIA: Ah! Bella! Lógico. Perdão, eu testei você pra ver se tava atenta. Parabéns, passou.


A gerente fica chocada com a audácia, mas tenta manter a compostura.


ENTREVISTADORA: Certo… E como você lida com pressão?

AMÉLIA (endireita a postura): Ah, benhê… pressão? Queridinha, se tem uma coisa que eu entendo nessa vida é de pressão. Pressão é minha religião, é meu pão com manteiga, é a menina dos meus olhos, a tampa do meu pote. More, deixa eu te falar uma coisa: eu lido com tanta pressão que até a panela lá de casa desistiu de competir comigo. Ela olhou pra mim e disse: “doll, você venceu”. Pressão é quando minha irmã rouba meu shampoo. Pressão é quando o boy me dá vácuo e aparece três dias depois pedindo minha senha da LacrePlus. Pressão é quando o boleto vence e eu finjo que não tô vendo, mas ele sabe que eu sei, e eu sei que ele sabe que eu sei. E quando tudo isso junta, queridinha? Eu respiro fundo, conto até três, dez, vinte, às vezes até cinquenta e oito e sigo a vida.

ENTREVISTADORA: E com prazos curtos? Como você lida com isso?


AMÉLIA: Hm… depende. Curto quanto? Tipo, curto igual o shorts que eu uso no carnaval? 


A mulher coloca o currículo sobre a mesa.


ENTREVISTADORA: Uma última pergunta… você tem algum problema com hierarquia?


AMÉLIA (rindo): Só com gente chata. Fora isso, tô de boas. Eu respeito a liderança, desde que a liderança me respeite, néah?


A mulher fica olhando para Amélia por alguns segundos.


ENTREVISTADORA: Hm.. contratada.


AMÉLIA: Oi?


Focamos no rosto de Amélia, intercalando com a entrevistadora.


CONGELAMENTO EM AMÉLIA.


Encerramos o capítulo 17 ao som de “Bixinho (Remix) - DUDA BEAT, Lux & Tróia”.


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