VALE TODO O PEDAÇO - CAPÍTULO 17




 VALE TODO O PEDAÇO - CAPÍTULO 17


criada e escrita por SINCE, FAFÁ, NOVELEX e LARICE


(CENA 01: FÁBRICA & CONFEITARIA LARICÃO/INT./MANHÃ)


A festa de inauguração continua a todo vapor. A cada minuto mais pessoas chegam, enquanto um pagode pesado toca na caixa de som de Larica.


Nô e Larica se encaram. As duas trocam olhares doces e verdadeiros, pelo menos da parte de Larica. 


Larica: Não esperava ver você aqui, aconteceu alguma coisa?


Nô: Não aconteceu nada, eu… Só queria estar presente nesse momento que é tão especial pra você. Olhando ao redor Nossa, que lugar agradável, mamãe. Parabéns pela conquista! 


Larica: Ai, obrigada minha filha, de verdade... Fico muito feliz que tenha vindo.


Nô (falsa): Eu não posso demorar muito, só vim mesmo te dar os parabéns e te dizer que te amo.


Larica: Mas como assim? Você não vai sair daqui sem antes comer uma fatia de bolo. Sei que você adora o de ricota com morango. Ei, psiu, você aí, traga uma fatia de bolo pra minha filha, por favor. (Pegando nas mãos de Nô) Eu estava sentindo a sua falta. Não somente sua, mas também da Maria de Fafá. Falando nela, por que não veio?


Nô: A Fafá anda muito ocupada com as coisas dela, eu mal a vejo, mamãe. Mas eu não vim aqui pra falar sobre ela. Queria saber sobre a senhora. Tá morando onde?


Larica: Por enquanto eu estou morando com uns amigos, na casa da dona Bucê, aqui na Tijuca mesmo. E, além disso, fico no apartamento do Ivanlac.


Nô: Homem de sorte ele por ter você ao lado dele, mamãe… 


Larica: Eu que tive a sorte de encontrar um homem que nem ele, alguém que me dá suporte, apoio… Ivanlac é o homem da minha vida!


Nô (dissimulada): Ai, vocês devem ser tão felizes, não é? Eu fico genuinamente feliz da senhora ter encontrado alguém que lhe complete. 


Larica: E você, hein? Quando é que vai me apresentar o meu genro? Já tem alguém no radar?


Nô (Se fazendo de envergonhada): Ah mamãe, para com isso! Estou focada no meu trabalho como influencer, mal tenho tempo de pensar nessas coisas. E mesmo se tivesse, não quero, por enquanto.


Larica: Eu fico vendo seus ensaios nas redes sociais e acho tão lindos… depois me passa o contato da sua assessora. Eu quero ter ela aqui pra me ajudar no marketing daqui.


Nô: Claro! A Sin se sentiria super honrada em te assessorar, mãezinha. Te passo com o maior prazer! Ah, a conversa está maravilhosa, além desse bolo também, mas eu tenho que ir… 


Larica: Leve esse pedacinho de bolo que preparei pra você.


Larica parte o pedaço e o coloca num pote de sorvete Kibon, entregando para Nô.


Nô: Ah, claro! Levo sim… muito obrigada, mamãe. Vou me deliciar horrores com este bolo mais tarde. 


Larica: Eu… fale para a sua irmã que eu amo ela. Muito obrigada por ter vindo. Apesar de tudo, vocês são as pessoas que eu mais amo.


Nô: Também te amo! Tchauzinho.


Nô se vira e se retira do local revirando os olhos, deixando Larica angustiada pela sua ausência novamente. 


Cenas mostram o Rio de Janeiro ao som de 7 Rings da Ariana Grande.


(CENA 02: RUA/EXT./MANHÃ)


Nô caminha com pressa e enojada com o cheiro do bolo que está carregando. A vilã aborda uma pessoa na rua.


Nô: Oi querida, onde que fica o lixo dessa rua podre? Eu pensei até em oferecer isso aqui para alguém, mas aí eu estaria cometendo um crime.


Bethânia: Fica ali meo. Rsrs.


Nô: Obrigada, moradora de rua.


Bethânia: Mas eu não sou moradora de rua. Volta aqui!


Nô sai correndo e arremessa o bolo no lixo como um jogo de basquete. Bethânia vê tudo de longe e fica horrorizada com a cena. Ela espera a Nô sair de perto para pegar o bolo.


Bethânia: Puta que pariu kkkkkk eita, que isso? Um bolo? 


Ela abre o pote e desmaia.


Nô (seguindo em frente): Era só o que me faltava mesmo, eu ia condenar o meu estômago com uma porcaria dessa. Mas pelo visto foi mais fácil me reaproximar dela do que eu pensava. Agora é só o Frégis fazer o que ele mais sabe fazer, dar em cima da mamãe. 


A cena é cortada por carros que passam depressa. 


(CENA 03: APARTAMENTO DE FRÉGIS/INT./TARDE)


Nô sai do banho enrolada numa toalha. Ela entra pelo quarto e se senta na cama. 


Nô (passando um creme): Ai, que lugar fedido, você tinha que ver! Tentei tirar ao máximo o que aquele lugar deixou impregnado em mim.


Frégis (sorrindo cinicamente): É, mas você vai ter que se acostumar, meu bem. É lá que você vai morar agora.


Nô: Tá doido, Frégis? Minha mãe não vai ficar naquele fim de mundo, não se depender da gente. Mas vamos com calma. Primeiro a gente precisa pensar num jeito de fazer a minha mãe terminar com o chato do Ivanlac. 


Frégis: Mas isso vai ser muito fácil. É só ela olhar pra mim. Duvido que esse tal de Ivanlac seja mais atraente, gostoso e bonito que eu.


Nô (com tesão, se levantando): Ah, mas não é mesmo. 


Os dois começam a se beijar. Frégis tira a toalha de Nô e mama seus peitos. Eles caem na cama e começa o vuko vuko.


Corta para imagens do Rio de Janeiro ao som de “Taki Taki - DJ Snake, Ozuna, Selena Gomez, Cardi B”.


(CENA 04: RESTAURANTE/INT./TARDE)


A cena mostra o interior de um restaurante de classe alta, com mesas e decorações muito bem colocadas, e música clássica tocando ao fundo. Em uma das mesas, está Taís, olhando o cardápio com atenção, mas ao mesmo tempo, está inquieta, esperando por alguém. Ela coça a cabeça, fazendo a caspa cair no prato.


Taís: Cadê aquela alphavelada que não chega? Brasileiro e essa mania feia de se atrasar…  país de quinta mesmo. 


Maria de Fafá aparece na porta do restaurante e é surpreendida por um atendente que insiste em revistar sua bolsa. Ela diz que está acompanhada e se direciona a mesa de Taís.


Maria de Fafá: Me perdoe por te fazer esperar, dona Taís. Não tive a intenção.


Taís: Está bem, está bem. Vamos direto ao assunto que eu não tenho muito tempo. 


Maria de Fafá: Pode começar. A senhora disse que é um assunto importante.


Taís: Antes de tudo, sem esse tipo de cerimônia, minha querida. Não precisa me tratar dessa forma, acho melhor estreitarmos nossa relação. Bom… pelo que eu sei você vive junto daquela garotinha rebelde que namora com o meu filho, e sei que vocês são amigas, não são?


Maria de Fafá: Olha… se a senh- se você está se referindo a SOLange Duprat, sim nós vivemos juntas. Ela é sim muito simpática, um amor de pessoa. Nos aproximamos e acabamos criando um certo vínculo. Mas sinceramente… não somos tão amigas quanto você pensa.


Taís: Como não? Se moram juntas!


Maria de Fafá: Por mais que a SOLange tenha me acolhido em sua casa, ultimamente tenho percebido algumas atitudes controversas da parte dela. Ela paga de amiga da Sin da agência, mas vive falando mal da coitada pelas costas, além de que se importa mais com o trabalho do que com o relacionamento entre ela e o João. Não posso fechar meus olhos para atitudes um tanto quanto impertinentes.


Taís: Pois bem, então as minhas primeiras impressões relacionadas a ela não são apenas paranóias… eu confesso que não gostei nenhum pouco daquela mulherzinha, e só de pensar que será a minha nora… o estômago chega a embrulhar. Ter que conviver com uma pessoa que nem aquela, chega a ser um martírio.


Maria de Fafá: Tá, mas até agora a sen- você não me disse o motivo de ter me chamado até aqui. Foi só pra falar mal da SOLange? Quer dizer, longe de mim pensar que você faz fofoca de alguém, mas não estou entendendo o intuito dessa conversa.


Taís: Maria de Fafá… desde o primeiro momento que nos encontramos, eu vi algo diferente em você…  vi que você, apesar de ter tudo, ser de uma boa família, como você mesma diz, é uma pessoa com sede e desejo de ter tudo o que quer, não é? 


Maria de Fafá: Claro. Acho que todo mundo tem suas ambições.


Taís: Eu percebi os seus olhares direcionados ao meu filho na festa. 


Maria de Fafá (se fazendo de boba): Olhares? Que olhares? 


Taís: Não se faça. Eu sei perceber de longe quando uma pessoa está interessada em outra. Sua linguagem involuntária falou mais alto, querida.


Maria de Fafá: Bom… vou ser sincera, seu filho é uma pessoa muito atraente em todos os sentidos. É inteligente, simpático…


Taís: Eu sei, eu sei meu bem. Não precisa descrever as qualidades do meu filho. Mas já que você está interessada de forma romântica sobre João Mateus, acho que podemos fazer com uma pedra dois golpes. Você quer se aproximar de meu filho e eu quero aquela feministazinha barata, fora da vida dele.


INSTRUMENTAL: CODE RED - EDUARDO QUEIROZ, GUILHERME RIOS


Maria de Fafá: O que você está insinuando? 


Taís: Ainda não está óbvio para você? Tentarei ser mais didática. Quero você se casando com meu filho, e para isso, nós duas agiremos em conjunto para tirar a mocinha Duprat do caminho.


Maria de Fafá: E como é que vamos fazer isso?


Taís: Ma belle, eu queria tanto que aquela garotinha recebesse uma proposta irrecusável de trabalho, a ponto de ir morar bem longe desse país. Você não disse que ela gosta de trabalhar? Pois então…


Maria de Fafá: Eu não acho que a SOLange trocaria o relacionamento dela por oportunidade de trabalho no exterior.


Taís (maquiavélica, enquanto toma um gole de vinho): Que relacionamento, meu bem? A partir de hoje, esse relacionamento fajuto não existe mais!


A câmera foca nos rostos de Taís e Maria de Fafá, ambas com um ar vitorioso. O instrumental tenso segue tocando, enquanto são exibidas imagens do Rio de Janeiro. 


(CENA 05: MANSÃO ROITMAN/INT./TARDE)


Em seu quarto, Lucas se olha no espelho enquanto prova todas as opções de roupas que tem no armário. Tia Tolyna bate na porta, perguntando se pode entrar.


Lucas: Entra! 


Tia Tolyna: Oi meu querido, como você está? 


Lucas: Muito nervoso, tia. Eu nunca fui para um encontro antes, eu não sei o que vestir. Eu pensei em ir de chavinho, mas não casaria muito bem com o lugar, eu acho.


Tia Tolyna: Meu querido, não precisa inventar muito. Olhe (pegando uma combinação de roupas) use essa aqui. Qualquer coisa que você use fica bem em você.


Lucas: Tia… a senhora acha que ela pode gostar de mim? Quer dizer, isso nunca aconteceu antes, ninguém se interessou por mim assim. Não tenho certeza se quero ir.


Tia Tolyna: Eu entendo o seu nervosismo, e está tudo bem. Mas acho que desistir não é o caminho. Vai sim, seja você mesmo, eu tenho certeza que vai ser maravilhoso. 


Lucas sorri e abraça Tolyna, deitando em seu colo.


A cena corta para ele descendo as escadas, todo arrumado. Raquel está no andar de baixo, e se depara com o filho.


Raquel: Onde você vai, meu filho? 


Lucas: Vou sair.


Raquel: Não pode me dizer onde vai?


Lucas: Não é da sua conta! Não se meta mais na minha vida, você só destrói ela. 


Raquel: Ei, espera aí! Não fala comigo desse jeito! LUCAS!


Lucas continua andando, deixando Raquel falando sozinha. Tia Tolyna desce as escadas e encontra a sobrinha chorando.


Raquel: Ele me odeia, tia. E é tudo culpa da minha mãe, ela não tinha que ter voltado agora! 


Tia Tolyna: Raquel, se acalma. Você sabe muito bem de quem é a culpa.


Raquel: Não, tia. Ele disse que eu destruo a vida dele. EU? A única pessoa capaz de fazer tamanha atrocidade é ela. Mas eu tô cansada, eu vou até lá!


Tia Tolyna: Até lá aonde, Raquel? Você não vai a lugar nenhum nesse estado!


Raquel: Eu vou dar um basta nisso, tia. CHEGA!


Raquel corre desesperada, pega a bolsa e passa pela porta como um foguete.


Tia Tolyna: Não faz isso, Raquel! Meu Deus, eu tô perdida. Só queria ficar vendo meus machos, agora tenho que me preocupar com ela.


Raquel, do lado de fora.


Raquel (para o motorista): Toca para a LCA! Hoje minha mãe vai ter que escutar tudo que está entalado.


(CENA 06: RUA/EXT./TARDE)


A cena mostra dona Bucê andando pela rua, carregando um carrinho de feira. A velha cumprimenta alguns conhecidos e continua caminhando. Ela vê um boy gostoso e assobia. De repente ela tem uma sensação de estar sendo seguida.


Dona Bucê: Eu hein, que esquisito! 


Ela olha para trás, mas não vê ninguém. 


Dona Bucê: Cruzes, será que eu vim parar sete além?


INSTRUMENTAL: DEEP WEB - EDUARDO QUEIROZ 


De repente, ela percebe uma movimentação estranha e entra em um beco. O homem vai atrás dela. Ela passa por algumas vielas, extremamente desesperada. Até que finalmente consegue chegar em uma avenida.


Dona Bucê (respirando rápido): Ai, acho que eu consegui me livrar.


Zé Antônio (gritando): BUCÊ! ESPERA AÍ!


Bucê se vira rapidamente e se assusta ao ver Zé Antônio. Ela corre para o meio da avenida movimentada, onde está passando veículos a todo o momento.


Zé Antônio: NÃO FOGE DE MIM, BUCÊ!


Um caminhão, em alta velocidade, surge e atinge Bucê, que voa para longe e cai no asfalto. Em câmera lenta, a cena mostra o caminhão freando bruscamente e dona Bucê rolando no meio da rua, desmaiada.


Zé Antônio: MEU DEUS! BUCÊEEEEE!


A câmera foca na boca de Zé Antônio gritando e a cena acontece um fade. 

Cortamos para a LCA ao som do instrumental citado acima. A cidade maravilhosa reflete nos vidros do grande prédio da empresa da família Roitman.


(CENA 07: LCA/INT./TARDE)


A cena mostra Raquel descendo do carro da mansão e indo em direção ao exterior do prédio. Ela passa pela recepção, e causa estranheza entre alguns funcionários. Laydeíde, a recepcionista, percebe sua chegada e abre um sorriso.


Laydeíde: Dona Raquel! Que bom ver a senhora.


Raquel: Oi, Laydeíde!


Laydeíde: Fiquei pensando na senhora esses dias. Aquilo que aconteceu na festa... olha, me deu até um aperto no coração ver a senhora se estabacando daquela escada…


Raquel: Não precisa se preocupar, eu já estou melhor…


Laydeíde: Olha, dona Raquel... me desculpe a liberdade, mas sua mãe passou do ponto. Bronca de mãe é uma coisa, agora fazer a filha passar vergonha daquele jeito é outra completamente diferente.


Raquel permanece em silêncio por alguns segundos e muda de assunto.


Raquel: E você? Continua aprontando?


Laydeíde: Eu? Tô quietinha... Quer dizer, quase. Ontem dispensei um peguete.


Raquel (ri): Mais um?


Laydeíde: Esse roncava. Parecia uma motosserra, menina. Ninguém merece. A vida já tem problemas demais. Se o homem ainda ronca, aí é castigo. Mas homem hoje em dia tá difícil. O penúltimo que apareceu pra mim dizia que era empresário. Fui descobrir que vendia capa de celular na feira e ainda queria que eu pagasse o pastel.


Raquel: E você fez o quê?


Laydeíde: Comi o pastel, paguei o meu e nunca mais atendi ligação dele. Ainda me mandou mensagem perguntando se eu tava com saudade.


Raquel: E você tava?


Laydeíde: Da barraca de pastel, talvez. O recheio era uma delícia…


As duas riem por alguns instantes. O sorriso, porém, desaparece do rosto de Raquel.


Raquel: Laydeíde…


Laydeíde: Dyga, querida.


Raquel: Minha mãe está aí?


Laydeíde: Aquela jararaca de jaqueta? Quer dizer… A dona Taís? Está sim senhora. Chegou cedo. Não saiu da sala desde então.


Raquel: Ela tá sozinha?


Laydeíde: Até onde eu sei, sim.


Raquel respira fundo.


Raquel: Preciso ter uma conversa séria com ela. E dessa vez… ela não me escapa.


Laydeíde: Vai lá. Boa sorte, amore.


Raquel: Obrigada, eu vou mesmo precisar. Ah, e não precisa me anunciar. 


Raquel entra no elevador, enquanto Laydeíde fica pensativa na recepção.


Laydeíde: Deus é mais ter uma mãe que nem aquela lá… queria que esse prédio explodisse mil vezes com aquela cobra dentro. Se bem que eu estaria aqui também né… ou se eu colocasse a bomba e pedisse pra sair mais cedo… hm.


(CENA 08: LCA/INT./TARDE)


Raquel entra eufórica pela sala da mãe. Taís se assusta com a filha.


Taís (séria): Mas o que diabos você está fazendo aqui? Onde está Laydeíde que não te anunciou?


Raquel: Não importa. Eu vim até aqui porque eu preciso ter uma conversa séria com você. 


INSTRUMENTAL: SFIDA - EDUARDO QUEIROZ 


Taís: Ah, e não pode ser lá em casa? Tem que trazer os seus probleminhas de minúsculas causas para dentro da minha empresa? Vai falar sobre o que agora? 


Raquel: O que você está fazendo com o meu filho é imperdoável. O Lucas está me tratando friamente desde que a senhora retornou. Eu sei que a sua influência é muito forte para ele e que ele te ouve em tudo. Mas eu te peço, mamãe. Pare de fazer a cabeça do meu filho contra mim.


Taís: Ah, você quer me proibir de orientar o meu próprio neto agora? Ele tem que saber sim o que é certo e o que é errado, Raquel! Você estragou o menino! Ele só pensa naqueles seriados idiotas e age feito uma criança mimada. Isso é culpa sua!


Raquel: O Lucas é diferente dos outros garotos da idade dele, mas isso o torna único. Meu filho não foi estragado coisa nenhuma, ele só precisa de carinho. Carinho esse que estou sendo privada de dar por causa das suas palavras venenosas em cima dele. Nós estávamos nos dando tão bem, droga!


Taís: Tem certeza que você não tem nenhuma parcela de culpa nisso? Pelo o que eu sei, quando uma mãe ama de verdade o seu filho, ela esquece todos os problemas do mundo pra dar uma criação digna a ele. Já você, você quer que ele faça parte dos seus problemas!


Raquel (rindo ironicamente): Engraçado, quem vê a senhora falando isso nem pensa o quão deplorável foi ter tido você como mãe! Fala com uma propriedade que não tem. Não tem pelo fato de que foi a tia Tolyna quem nos deu o devido apoio e carinho.


Nervosa, Tais se aproxima da filha com sangue nos olhos, tentando manter a calma.


Taís: Você lava a sua boca para falar assim de mim! Eu tive os meus motivos pra ter deixado vocês com a Tolyna.


Raquel: Claro! Os mesmos de sempre não é? Deixe-me adivinhar… Trabalho, empresa, escritório, viagens… Realmente, eu me sinto ridícula cobrando isso de você, mamãe.


Taís: Você não tem o que cobrar mesmo, Raquel. Você tem é que agradecer. Foi por tudo isso aí que você citou, que hoje tem tudo o que tem. Ou acha mesmo que conseguiria sobreviver na classe alta se eu não tivesse feito esse sacrifício? Você tava era em um sinal qualquer vendendo balinha pra empresário que mal iria olhar nessa sua cara!


Raquel: Então eu devo te agradecer pela minha vida ser uma verdadeira desgraça? Tudo bem, eu reconheço o quão privilegiada eu sou, e que pelo seu esforço nós temos o que temos. Mas isso não isenta todos os outros problemas.


Taís: Talvez se você parasse de jogar a culpa das suas frustrações para cima de mim, sua vida tomava um rumo bem melhor. A culpa da sua vida ser uma “desgraça” é quase que totalmente da sua falta de controle sobre as bebidas. Ao invés de perder tempo me acusando, procure um tratamento. Mas um que realmente surta efeito, eu já não te aguento mais! Ninguém quer ter por perto uma vergonha fedendo a whisky que nem você. Agora saia da minha sala imediatamente, que eu tenho mais o que fazer!


Raquel: É impressionante a sua falta de empatia… e eu não tô falando isso por ser sua filha, não. Você é assim com qualquer um. Se vir um mendigo na rua, é mais fácil o apedrejá-lo, do que ajudar. Você é podre!


Taís: Mais o que? Não me afeto nenhum um pouco com a suas palavras ensaiadas de discursos progressistas baratos. Saia daqui de uma vez, Raquel! Não suporto mais olhar para você!


Raquel: Espero que um dia você chegue até o fundo do poço, mamãe. Passar bem.


Taís solta um ar cínico e ao mesmo tempo aliviado pelo nariz. Ela olha com desdém para a porta se fechando, pega um pouco de água, e volta a trabalhar.

Raquel sai se apoiando pelas paredes, enquanto derrama lágrimas. Ela corre desesperada pela empresa e esbarra em Ivanlac, fazendo ele derrubar alguns papéis no chão.

Os dois se abaixam para pegar. 


Raquel (enxugando as lágrimas): Ai meu Deus, me desculpa! Deixa que eu te ajudo.


Ivanlac (percebendo o estado dela): Não precisa, pode deixar… Ei, aconteceu alguma coisa? Está tudo bem?


Raquel encara Ivanlac, os dois trocam olhares por alguns segundos. Eles se levantam com os papéis nas mãos.


Raquel: Eu mentiria se dissesse que está tudo bem. Mas também não é você quem tem que se preocupar com isso. 


Ivanlac: Ei, se eu estou perguntando quer dizer que não me incomoda nem um pouco. Você pode me falar.


Raquel: Não posso te ocupar com os meus problemas. Nós nem nos conhecemos, aliás.


Ivanlac: Claro, perdão. Prazer, Ivanlac.


Raquel: O prazer é todo meu. Me chamo Raquel.


Ivanlac: Então, aceita tomar um café comigo? Está na hora mesmo. Assim podemos conversar mais à vontade.


Raquel fica pensativa. Ela cogita recusar, porém acaba aceitando.


Raquel: Bom, já que insiste. Seria feio da minha parte recusar, não é? 


Ivanlac: Não diria feio, mas indelicado, talvez.


Os dois soltam risadas. Ivanlac conduz Raquel para outro local.


(CENA 09: HOSPITAL/INT./TARDE)


A ambulância chega carregando dona Bucê e Zé Antonio a acompanhando. Os paramédicos encaminham ela com uma maca, enquanto a velha geme de dor. Zé Antônio, desesperado, vai até a recepção do hospital.


Zé Antônio: Boa tarde, moça. Eu vim acompanhando aquela senhora. Ela foi atropelada! Precisa imediatamente ser atendida.


Recepcionista: Pode me fornecer os documentos, por favor? O senhor é o que dela?


Zé Antônio: Um amigo… Na verdade eu estava passando pelo local quando aconteceu o acidente, enfim. Ela disse que tem plano nesse hospital, será que não teria como olhar na ficha dela se tem algum número de algum parente para ligar? 


Recepcionista: Tem sim, claro. Só um minuto. Vou telefonar para o que eu encontrei aqui. 


A cena corta, mostrando Vikitney desesperada no telefone. Ela corre para a direção de Larica.


Vikitney: Larica da Paz, você não sabe o que aconteceu!? Acabaram de me ligar do hospital, a dona Bucê foi atropelada!


Larica (chocada): O que? Como isso aconteceu, pelo amor de Deus? Vamos pra lá agora, vem! Ela está em qual hospital?


Vikitney: Nesse do bairro mesmo, Larica. Ai, minha Nossa Senhora, não deixe que nada aconteça com ela.


Larica: Vamos pra lá agora!


A cena corta para Larica e Vikitney entrando no quarto, já no hospital. O médico deixa as duas a sós com a velha. Larica se aproxima e segura na mão dela, percebendo algo.


Larica: Olha, Viktiney. Parece que ela tá falando alguma coisa. Acho que ela tá acordando. 


De repente a senhora começa a soltar um nome.


Dona Bucê: Zé… Zé Antônio… Desgraçado… Volta aqui, Zé… Traga minhas filhas… minhas meninas…


Larica: Ei, dona Bucê… sou eu, Larica.


Dona Bucê (gemendo): Zé Antonio, por favor… Me fale, Zé…


Larica: Viktney, chame a enfermeira, por favor. A Dona Bucê está falando coisas desconexas. Provavelmente deve ter tido algum trauma na cabeça.


Larica encara Bucê preocupada. O instrumental cresce. 


Larica: Zé Antonio… esse nome não me é estranho.


A câmera foca em seu rosto.


Flashback - Início 


Zé Antônio (confuso): Quem é tu? O que tá fazendo nas minhas propriedades? 


Larica (com raiva): Eu é que pergunto: o que você está fazendo nas minhas terras?


Zé Antônio (rindo): Suas terras? Essas terras são minhas! Eu as comprei ontem a noite e paguei um bom dinheiro por elas.


Larica da Paz fica confusa com a afirmação de Zé Antônio.


Larica (confusa): Como é que é?


Zé Antônio: Pelo visto a senhora está por fora dos últimos acontecimentos, então eu vou lhe explicar. Eu negociei essa terra com duas moças. Uma tinha o cabelo liso, moreno, até a altura dos ombros mais ou menos e uma cara de enjoada, implorou para que eu a chamasse de “Nô”. A outra, Maria de Fafá, eu acho que era o nome, bem parecida com a outra, mas um pouco mais discreta e um rosto sem expressão. Eu entreguei uma mala cheia de dinheiro com o valor imposto por elas dentro, porque elas preferiam em nota, e em troca elas assinaram este documento que passa todas essas terras para o meu nome.


Larica pega a escritura entregue por Zé Antônio, analisando o documento.


Flashback - Fim.


Larica (pensativa): Seria muita, mas muita coincidência… 


CONGELAMENTO EM LARICA.