VALE TODO O PEDAÇO - CAPÍTULO 16
criada e escrita por SINCE, FAFÁ, NOVELEX e LARICE
(CENA 01: MANSÃO ROITMAN/INT./NOITE)
Todos ficam perplexos com a presença de Taís ali. Um silêncio ensurdecedor se instaura no ambiente. Taís olha seriamente para a filha no chão, descabelada, com a maquiagem derretendo, rindo e babando igual uma retardada. A pressão da velha cai, ela se apoia no bolo, sujando seu vestido de merengue e glacê.
Tia Tolyna (desesperada): Taís, irmã! Meu Deus do céu, o que está acontecendo?
Sin: Oh my god! Que tragédia.
Taís (se recompondo, toda suja de glacê): Me deixem, estou bem!
Ao fundo, Susuana e Pimeugênio assistem o caos atentos a tudo, enquanto se deliciam com uma garrafa de champanhe.
Susuana: Bicha, essa é a hora que tocam as trombetas do apocalipse!
Pimeugênio: Pelo visto a dona Taís é o anticristo.
Susuana (fazendo o sinal da cruz): Tá amarrado.
Taís se põe de pé, em frente a Raquel que continua rindo de quatro, no chão.
Taís: A que ponto nós chegamos, minha filha? Aliás, a que ponto você chegou? Que vexame, Raquel! Que vergonha, meu Deus! Fazendo essa cena patética na frente de todos, nem parece que já é uma mulher de 50 anos, se comporta como uma adolescente rebelde, uma completa fedelha!
Raquel (chorando): Não foi por mal… não foi, eu juro! Eu… eu só quis tomar um gole das minhas bebidinhas, só isso…
Taís: Não foi por bem também, né? Mas eu não te culpo, minha filha. Era de se esperar que uma mente fraca, como a sua, se perderia nos males desse país de terceiro mundo, que nem uma Copa do Mundo consegue ganhar há 24 anos!
João Mateus (se intrometendo): Mãe, não fala assim! A gente jamais esperava ver a senhora voltando pra essa casa. Ainda mais num dia como esse.
Taís: Ata, nossa, como isso me tranquiliza! Então vocês só procuram não passar vexame quando eu não estou por perto? Não sei por que eu ainda tento salvar essa família da tragédia.
Maria de Fafá (observando): Que mulher classuda!
Raquel se levanta do chão, cambaleando. João Mateus a ajuda.
Raquel (desequilibrada, bêbada): Tá bom então, dona Taís Roitman! Até parece que você nunca errou na vida. Porque você é a boazuda, é a perfeita, é a toda toda! Você não passa de uma pessoa amarga e mal amada, que deixou os filhos nas mãos da irmã porque nunca foi capaz de cuidar de alguém. Falta uma tequila, uma cachaça, uma cervejinha pra animar essa sua vida sem graça!
Taís: Mas que calúnia! Pelo jeito a grana que eu mandei pra vocês esses anos todos não foi o suficiente, né? Mesmo de longe, quem sustenta essa casa sou eu! Você é uma ingrata, Raquel! É isso que você é! Aliás, todos dessa família são!
Tia Tolyna: Gente, vamos deixar para lavar a roupa na lavanderia? De preferência em algum lugar que não esteja todo mundo olhando?
Taís: Calada, sua imprestável! Isso tudo é culpa sua!
Perplexos com a discussão, alguns dos convidados começam a filmar o momento e cochichar entre si.
Tia Tolyna: Minha culpa, Taís? Você tem certeza que a culpa é minha? Se tem uma pessoa que nunca deixou faltar nada pros seus filhos, essa pessoa sou eu! Enquanto você tava no exterior, rodando com todos os homens que via pela frente, eu tava aqui, lutando a cada dia e dando o apoio necessário que seus filhos precisavam. Mas é aí que está o grande problema: eu não tinha obrigação nenhuma com eles! Essa obrigação sempre foi sua!
Taís: Ah claro, porque não pôde ter e decidiu roubar os meus!
Enfurecida, Tia Tolyna desfere um tapa contra o rosto de Taís, que o segura com a mão.
Tia Tolyna (gritando, nervosa): VOCÊ LAVA A SUA BOCA PARA SE REFERIR A MIM DESSA MANEIRA!
Taís: Parabéns! Parabéns, Tolyna! Eu saí de Paris, saí da vida ótima que tinha lá, do lado de pessoas com classe para ser recebida nesse umbral com um tabefe da minha própria irmã?
SOLange (sussurrando): Aposto três reais que elas saem no soco.
Maria de Fafá (sussurrando): Duas mulheres finas e elegantes assim, Sô? Imagina, acho que já já essa discussão acaba.
Sin: Elas que se preparem, pois a pauta do Café com Aphonsa de amanhã vai ser esse barraco. Olhem ao redor, todo mundo filmando.
Taís: Seguranças! Seguranças por favor! Retirem os convidados daqui!
De repente, todos começam a vaiar Taís enquanto são retirados dali à força. Eles jogam decorações da mansão na cabeça da vira lata, todos ficam chocados. Maria de Fafá permanece ao lado de SOLange para não ser retirada
Sin: Ui, honey. Me agarra assim na cama! Me passa seu contato depois, queride. (P) SOCORRO, ME SOLTAAAAA!
SOLange: Deixem ela aqui! Ela é minha amiga, condamner! Isso é porra em francês!
Os seguranças soltam Sin, deixando a moça junto com SOLange, Maria de Fafá e João Mateus. O caos permanece, e a câmera mostra do alto, a multidão saindo em fila até a saída principal.
Na sala, Raquel, desnorteada, sai pela porta da frente sem que ninguém a veja, apenas João Mateus. Cambaleando, ela segue até a saída e se junta à multidão.
Raquel (gritando, bêbada): PERA AÍ, OH, EU POSSO FAZER VOCÊS FELIZES!
Raquel começa a tirar sua blusa, sensualizando. Perplexos, todos começam a gravar a cena e transmitir ao vivo em redes sociais. Ao ficar apenas de sutiã, ela gira a blusa no alto, rindo sem parar. Os seguranças tentam intervir, mas ela corre.
Raquel: OLÉ!
João Mateus, vendo a irmã correr para longe, tenta ir atrás, mas é impedido pela multidão que está em frente a casa.
João Mateus: Me deixe passar, por favor! Eu preciso ir atrás dela.
Um instrumental dramático começa, a câmera foca rapidamente alternando entre os rostos de Raquel e João Mateus. Escorre uma lágrima de seus olhos em câmera lenta, João se joga por cima de todos, dando um triplo mortal carpado, e cai em pé ao lado de Raquel. Porém, a beberrum é mais rápida e desvia, correndo para o lado.
(CENA 02: MANSÃO ROITMAN/INT./NOITE)
Taís, Tia Tolyna, SOLange, Sin e Maria de Fafá seguem no centro da sala, esperando alguma notícia de Raquel e João Mateus.
Tia Tolyna: Se a Raquel sumir, a culpa vai ser toda sua, Taís!
Taís: Minha? Eu não tenho culpa nenhuma daquela garota não saber se controlar nas bebidas. Você já conseguiu estragar a minha noite o suficiente pra querer jogar toda a culpa em cima de mim agora.
Sin (gritando): STOP!!! STOP!!! NÃO AGUENTO MAIS ESSA BRIGUINHA BESTA!!! STOP!!!
Taís (olhando Sin dos pés a cabeça): Quem é você, querida? Pick me girl?
Sin: Você conhece esse termo? Uma pessoa tão culta como você…
SOLange: Ai gente, penso que agora não é o melhor momento para esta confusão. Estou ficando preocupada com a Raquel. Até agora nada do João voltar… e se ela quiser fazer alguma loucura?
Taís: Raquel não seria capaz.
SOLange: E como você pode ter tanta certeza disso? A sua filha precisa de ajuda, tá!
Taís: Se você quiser ajudar, fique à vontade…
SOLange: Não imaginava que a senhora era uma pessoa tão fria assim… parece não ter sentimento nenhum pela família.
Taís: Olha aqui, sua insolente, quem você pensa que é para me dirigir a palavra desse jeito! Quem sabe dos meus sentimentos pela minha família sou eu!
Maria de Fafá: SOLange, por favor, não fale assim com ela… Taís, me desculpe pela SOLange, ela tem essa mania de querer se intrometer onde não deve…
Taís: Deu pra perceber. (P) Empregados! Pimeugênio! Trate de limpar essa sujeira aqui! Agora!
SOLange: Eu vou embora! Avisem o João que já fui. Vocês irão comigo, Sin e Maria de Fafá?
Sin: Eu vou.
Maria de Fafá: Ai, Sol, é que me deu uma dorzinha de barriga e vou precisar ir ao toalete… podem ir vocês, depois eu vou…
Sin (rindo): Não vai entupir o vaso da dona Taís, hein?
SOLange e Taís se encaram antes da moça se retirar dali junto com Sin. Maria de Fafá, sem graça, fica parada no meio da sala feito uma estátua.
Taís: Que foi garota? Vai defecar aí no meio da sala, é?
Maria de Fafá: Você não vai acreditar! A vontade passou!
Taís: Ah, é? Então a jovem pode se retirar agora de minha residência.
Maria de Fafá: Não! Eu não vou sair daqui enquanto não ter uma conversa séria com você.
Taís: Conversa? Eu nem te conheço, garota. Nem sei o seu nome e nem o motivo de ter sido convidada para esse enterro. Minto… talvez tenha sido convidada pela garotinha rebelde comunista que acabou de sair daqui. A tal noiva do meu filho.
Maria de Fafá: É exatamente sobre isso que-
De repente, Maria de Fafá é interrompida por Pimeugênio e Susuana, que chegam na sala cantando alto.
Susuana: Suave como um furacão, tranquila como um vulcão.
Pimeugênio: Se joga no vulcão, não, ninguém segura!
Taís (incrédula): Mas o que é isso? Quem vocês dois pensam que é pra chegar interrompendo meus assuntos desse jeito?
Susuana (bêbada): Ué, querida, somos as pessoas que vai limpar toda essa cagada aí no meio da sala que vocês fizeram. Vocês ricos acham que nós, meros empregados, somos máquinas e que temos dez braços em cada perna.
Taís: Que?
Pimeugênio: Dona Taís, a gente precisa limpar toda essa bagunça até amanhã de manhã. A senhora sabe que não é fácil ser cadelinha de patroa.
Maria de Fafá: Vai até a agência Yesterday amanhã, Taís. Estou lá todos os dias. Lá a gente pode conversar melhor.
Taís: Vou pensar.
Maria de Fafá se retira, deixando Taís pensativa no meio da sala. De repente, ela sente algo encostando em suas costas. É Susuana cutucando a bunda de Taís com o rodo de limpar o chão.
Susuana: Sai do meio, vadia!
(CENA 03: PRAIA DE COPACABANA/EXT./NOITE)
SONOPLASTIA: TODO SENTIMENTO - VERÔNICA SABINO
A câmera se aproxima da orla. O movimento na praia é tranquilo, enquanto o vento toca o mar, balançando as ondas levemente. Ao longe, Raquel anda sobre a areia, pensativa sobre o que aconteceu. Com os sapatos em mãos, ela respira fundo e se senta ali mesmo, olhando para o horizonte com lágrimas no rosto.
Raquel (limpando as lágrimas): Oh Deus, será que algum dia eu serei amada por alguém? Parece que todo mundo me odeia. A minha mãe me odeia, o meu ex-marido me odeia, o meu filho me odeia… o que eu fiz de tão errado? Eu só quero viver! Só isso! É pedir muito?
Logo atrás dela, João Mateus surge, ouvindo tudo o que a irmã acabou de dizer.
João Mateus (se sentando ao lado dela): Não fala bobagem, minha irmã.
Raquel (se assusta): Você? Como você conseguiu me achar? Eu fugi de vocês!
João Mateus: Eu consegui te seguir sem te perder de vista. Que ideia maluca foi essa sua, hein?
Raquel: Eu só quero sumir! Só isso, João! Eu não aguento mais essa vida desgraçada. Pra piorar, a nossa mãe voltou pra infernizar a vida de todo mundo. A minha principalmente.
João Mateus: E você vai mesmo ligar? A mamãe não tem moral nenhuma pra falar de você… ela só pensa em si mesma.
Raquel: Eu vou embora daquela casa. Amanhã mesmo estarei arrumando minhas tralhas.
João Mateus: Para com isso! Você não vai a lugar nenhum… seja forte minha irmã. Eu sei que você é forte! Sempre foi. E não vai ser agora que vai se deixar levar.
Raquel: A minha vontade agora é entrar no meio dessa água e sumir pra sempre. A minha festa foi um fiasco! Todo mundo riu de mim! Eu sou um lixo!
João Mateus: Chega! Já deu esse assunto! Vem, vamos voltar pra casa. Limpa essas lágrimas e mostre que você é muito mais forte que qualquer farpa da dona Taís Roitman. Vamos!
João Mateus se levanta, e estende a mão para Raquel. Os dois saem dali abraçados, um apoiando o outro. A cena escurece.
SONOPLASTIA: E VAMOS À LUTA - GONZAGUINHA
O Rio de Janeiro amanhece ao som da música acima. O sol nasce no horizonte, enquanto pedestres e carros movimentam a cidade a todo o momento.
(CENA 04: CASA DE DONA BUCÊ/INT./MANHÃ)
Ao amanhecer, vemos Viktney se arrumando em frente ao espelho. Dona Bucê surge na porta e encara a nova trabalhadora da fábrica “LariCão”. Ela olha a amiga com admiração.
Dona Bucê: Estou encantada de ver você trabalhando para a Larica… Realmente, estava precisando de um trabalho digno. Muito melhor que ficar coçando a xereca o dia inteiro.
Viktney: Obrigada, Bucê! Tá parecendo outra pessoa, nunca pensei que viveria para ver a senhora me elogiando… Saiu com seus machos, é?
Dona Bucê: Os tempos são otros, amori. Aliás, pra que vou reclamar? Sou uma senhorinha, preciso de um sustento jovem, entende? E sobre meus machos, não te devo satisfação! (P) Tá esperando o que? Vai pra fábrica, mulher!
Viktney abraça Dona Bucê e pega sua bolsa rosa em seguida. As duas saem para a área externa.
Viktney: É minha hora de brilhar trabalhando. Tchau Bucê!
Viktney atravessa o portão e a câmera foca no rosto de Dona Bucê, orgulhosa.
Dona Bucê (com tesão): Agora ela pega aquele bigodinho de puto, uin. Queria ser ela… DEUS ME PERDOE POR ESSES PENSAMENTOS IMUNDOS!
(CENA 05: FÁBRICA LARICÃO/INT./MANHÃ)
A câmera mostra a fachada elegante da fábrica, iluminada pelos raios de sol que acaba de nascer. Feliz pelo seu primeiro dia de emprego, Viktney entra no local, desfilando como uma modelo. Vibel olha para ela com os olhos brilhando. Larica, com ternura, vai até a amiga.
Larica: Viktney querida, seja bem-vinda a minha fábrica. Minha não, a nossa fábrica! Você vai ficar aqui, trabalhando bem pertinho do Vibel, que irá te auxiliar com a prova dos bolos.
Viktney (transbordando em alegria): Ah, claro! Muito obrigada pelo emprego, Larica! De verdade!
Larica: Não precisa agradecer, querida. Agora vá trabalhar, tem muitos bolos pela frente!
SONOPLASTIA: SÓ O AMOR - GLÓRIA GROOVE, PRETA GIL
Elas se abraçam e em seguida Larica sobe para sua sala. Viktney, provocativa, vai até Vibel.
Viktney: Faça direitinho, lindo.
Vibel (gaguejando): Por ti eu faço de tudo, princesa.
Vibel fica com o estômago cheio de borboletas. Viktney percebe que ele está no mundo da lua e lhe dá um beliscão.
Viktney: Ambiente de trabalho, Vibel. Não esqueça…
Viktney ri e eles voltam a trabalhar.
(CENA 06: CONVENTO DAS CARMOSINAS/ACRE/EXT./MANHÃ)
A câmera mostra um local calmo, cercado por árvores e coqueiros altos. No meio das árvores, revelamos uma grande construção antiga e histórica. Trata-se de um convento. Do lado de fora, não há nenhum movimento, apenas sons de pássaros. Minutos depois, um barulho de moto se aproxima. O veículo se aproxima e estaciona em frente a entrada principal. O motoqueiro desce e caminha até os muros do convento. A câmera revela ser Zé Antônio (Tonico Pereira).
Zé Antônio: Tenho certeza, certeza que foi aqui que as meninas ficaram. Foi aqui que eu deixei minhas enteadas! Eu sou um homem mudado, sou uma nova pessoa. E eu vou provar para aquela mulher que todos podem ter uma segunda chance.
Nervoso, ele pega uma pedra que estava no chão.
Zé Antônio: Ela me paga… ME PAGA!
Zé Antônio joga a pedra no convento, logo em seguida ele cospe. Ele sobe em sua moto e a câmera foca em seu rosto, o idoso está visivelmente nervoso.
Zé Antônio (Comovido): Um dia eu vou lhe encontrar, ah se vou!
Zé Antônio segue seu caminho ao desconhecido com sua moto.
(CENA 07: AGÊNCIA YESTERDAY/INT./MANHÃ)
Depois do desastre que foi o aniversário de Raquel, SOLange, Sin e Maria de Fafá aparecem no trabalho com uma bela fofoca em mãos. Nô se encontra com a irmã no pátio.
Nô: Então, como é que foi a festa?
Maria de Fafá: Foi um babado, fiquei perplexa, embasbacada com o circo de horrores que foi aquilo. A bêbada ficou bêbada e caiu da escada, mas sabe quem estava dentro de um bolo de dez metros? A tal da Taís Roitman, voltando de Paris e tudo! Ela simplesmente humilhou a mala sem alça e botou todos os convidados na rua, sobrou até para o resto da família dela. Enfim, um luxo de festa.
Nô: Que inferno! Queria tá lá para ver a cara dessa família ridícula. Mas você conseguiu ter afinidade com algum roitman?
Maria de Fafá: Menina, a Taís é super clássica, muito fina e tem um vocabulário chique como os franceses, uma mulher poderosa mesmo! Botou ordem naquela baderna inteira. Eu meio que tentei uma aproximação, mas aqueles empregados do inferno chegaram me interrompendo.
Nô: Eu já tinha ouvido falar dessa Taís Roitman… Eu nem te falei ontem, mas eu fui até a casa do Cubinho para saber se você estava lá, mas sabe quem eu encontrei lá? Aquele homem mixuruca que tá com a nossa mãe.
Maria de Fafá: Ivanlac? Por que ele estava lá?
Nô: E você acha que eu vou saber? Ele disse que não podia deixar o local abandonado, mas eu não senti verdade nas palavras dele. Sabe que gente pobre mente que nem sente, esse povo mente até para comprar um pão. Tem algo dentro de lá, você tem direito a tudo que tem naquela casa, não tem? Se quiser ir lá ver o que eles escondem, vá por sua livre e espontânea vontade.
Maria de Fafá: Eu? Eu tenho pavor daquela casa, ainda mais agora que o meu pai morreu. Imagina eu entrar lá e aquele piano começar a tocar sozinho?
Nô (gargalhando): Pensei que você sempre estava acostumada com o espírito da pobreza, mas já que você não quer ir lá ver…
Maria de Fafá: Agora vou trabalhar. Boa sorte, Nô.
Nô: A sorte está do meu lado, Fafázinha, querida. Boa sorte para ti.
Sin aparece ao lado de Nô.
NÔ: BASES CU!
Sin: Querida, tá esperando quem? Vamos logo fazer o que temos que fazer.
Nô: Desde quando você se importa comigo? Calma, desgraça ambulante!
Nô é puxada por Sin, Maria de Fafá apenas observa e fica sem reação. Dentro do estúdio, Nô coloca uma roupa elegante e faz poses para as fotos, ao som de “7 Rings - Ariana Grande”. Algum tempo depois, o ensaio acaba e Nô se senta para mexer no celular. Ao navegar pelo feed, ela vê um anúncio sobre a inauguração da primeira confeitaria de Larica.
CONVIDAMOS VOCÊS A PRESTIGIAREM E APRECIAREM A PRIMEIRA CONFEITARIA DA FÁBRICA LARICÃO! FATIAS GRÁTIS A SEMANA TODA. NÃO PERCAM!
Nô: Não é possível…
CENA 08: (MANSÃO ROITMAN/INT./MANHÃ)
A mesa do café da manhã está posta. A energia do ambiente está carregada. Tia Tolyna passa manteiga em uma torrada com tranquilidade, enquanto Taís toma café em silêncio.
Tia Tolyna: Você realmente conseguiu estragar a festa da sua própria filha… confesso que eu nunca tinha visto uma mãe fazer isso com tanta competência.
Taís: Quem estragou a festa foi a Raquel! Ela bebeu além da conta e fez aquele escândalo todo. E não venha bancar a tia protetora!
Tia Tolyna: Eu só tô lhe dizendo a verdade. E que ideia maluca foi aquela de entrar dentro do bolo? Olha, Taís, você já foi bem melhor…
Taís: Ah, me poupe! Eu quis fazer uma surpresa pra minha filha. Se deu errado, paciência. Pelo menos eu tentei.
Tia Tolyna: Tentou aparecer. É diferente.
Taís: Você sempre teve prazer em me diminuir, né? Desde que eu era menina.
Taís larga a xícara com força sobre o pires.
Taís: Engraçado... quando a Raquel faz besteira, todo mundo passa pano. Quando sou eu, viro a pior pessoa do mundo… País de gente hipócrita! Daqui a pouco vão dizer que eu fui a responsável pela inflação.
Tia Tolyna: A Raquel já está descendo, e eu exijo que você peça desculpas a ela.
São ouvidos os passos de Raquel descendo as escadas. Ela se aproxima da mesa de jantar quilométrica e senta-se em umas das cadeiras, em completo silêncio.
Tia Tolyna: Bom dia, minha sobrinha querida! Como passou a noite?
Raquel (passando geléia de frango no pão): Poderia ter passado melhor, tia, mas nem todos os dias de luta acabam em vitória.
Taís: Bom dia pra você também, garota malcriada! Não foi assim que eu te eduquei.
Raquel: Desculpa, mas eu só desejo coisas boas quando é do fundo do meu coração, e não é o caso da senhora.
Taís: Já entendi! Está magoada, não é? Então aqui vai o meu pedido de desculpas: desculpe se eu fui sincera quando disse que você não passa de uma bêbada fracassada; desculpe se eu falei a verdade quando disse que você se comporta como uma criança birrenta; e mil perdões por ter dito que você tem uma mente fraca, pois nem cérebro para pensar você tem!
Raquel (com raiva): CHEGA!
Ela bate com os dois punhos na mesa, se levanta e aponta a faca de manteiga toda suja para a própria mãe.
Raquel: VOCÊ NÃO CANSA, NÉ? TÁ SEMPRE ME BOTANDO PARA BAIXO, SEMPRE FAZ QUESTÃO DE DESTILAR O SEU ÓDIO CONTRA MIM.
Taís (sonsa): Achei que fosse esse o pedido de desculpas que você queria, foi do fundo do meu coração!
Raquel: Quer saber o que eu acho desse pedido de desculpas? Um pedido que só mostra o quão inflado é o seu ego. Uma senhorinha que nunca foi feliz com a família que tem, sempre vai ser feliz em Paris com os seus homens musculosos e pobres que tanto critica! Sabe o porquê, mamãe? Porque você é uma soberba, uma hipócrita, mais uma das milhares de mulheres que são podres, falsas, ASSIM COMO AS BRASILEIRAS QUE VOCÊ TANTO CRITICA!
Taís: Quer mesmo falar sobre ego, minha filha? Eu realmente devo levar a sério uma pessoa que não sabe se controlar? Alguém que bebe para se sentir melhor, mas que na verdade não passa de mais uma marca do se fracasso estúpido!? Você é uma vergonha não só pra mim, não consegue perceber? Estamos cansados, essa é a verdade! Te internar e fazer com que você perceba o mal que causa a você e aos outros pelo visto não adiantou.
Tia Tolyna: Chega! Vamos parar com essa baderna, pelo amor de Deus!
Taís: Tem razão, Tolyna! Vou trabalhar, que assim eu ganho mais do que ficar discutindo com essa cachaceira. Eu esperava muito de você, Tolyna. Realmente, você me surpreendeu, mas de uma forma completamente negativa.
Taís põe seus óculos escuros, sua bolsa Prada, e se retira da sala de jantar.
Raquel: Isso, vai mesmo fazer a única coisa que você se importou na vida! Nunca conseguiu disfarçar a raiva que tinha da gente.
A discussão finalmente cessa. Raquel se atira na cadeira e começa a espernear e a bagunçar o seu cabelo num surto de raiva.
Tia Tolyna: Calma, minha querida! Não se estressa mais com isso!
Raquel (chorando): Por que ela me odeia tanto, tia? Eu não consigo entender…
Tolyna apenas a abraça, em silêncio, como forma de consolo.
(CENA 09: AGÊNCIA YESTERDAY/INT./MANHÃ)
SOLange está em sua sala, completamente atarefada com seus negócios. Maria de Fafá bate na porta.
Maria de Fafá: Oi miga linda! Como vai a flor mais linda deste campo florido?
SOLange: Volta pro c- OI AMIGA, ai nem vi que era você! Eu tô cheia de coisas aqui para fazer, sabe? Tô morta ⚰️
Maria de Fafá: Mas eu não vou roubar muito do seu tempo não. Só queria saber se você não arranjou nada pra mim, um trabalhinho, quem sabe…
SOLange: Desculpa amiga, mas ainda não arranjei nada… Esse mercado anda tão difícil ultimamente, sabe?
Maria da Fafá: Tá. Vou deixar você trabalhar sossegada então, beijos na bunda!
Maria de Fafá fecha a porta com carinho e, ao se virar, dá de cara com Taís Roitman. A moça se assusta e dá um pulo.
Maria de Fafá: D- Dona Taís? Que surpresa vê-la por aqui!
Taís: Olá, querida! Maria de Alfafa, né?
Maria de Fafá: É Fafá, diva!
Taís: Ah, sim… Maria de Fafá. Que lindo, bebê. Nasceu de qual favela?
Maria de Fafá: Do Alphavela querida, conhece?
Taís: Ora bolas, o condomínio mais caro da Rocinha?
Maria de Fafá: Capaz.
Taís: Brincadeira à parte, vim aqui, pois estava pensando em você.
Maria de Fafá (com olhar de tesouradas): Ah é? 👀✂️
Taís: Sim sim. As coisas que você me disse ontem na festa, me deixaram pensativa. Você aparenta ser uma moça bem esperta, parece que sabe o que quer.
Maria de Fafá: Modéstia à parte, dona Taís, mas a senhora pensou certo!
Taís: Claro que pensei certo, minha intuição nunca falha, mon amour. Acho que podemos conversar melhor, sabe? Seria ótimo para mim ter alguém como você ao meu lado. E, quem sabe, a senhorita não me ajude em certos assuntos também…
Maria de Fafá: Dona Taís… Estou disposta a ajudar a senhora no que for preciso. Pode confiar em mim!
Taís: Certo. Vamos marcar um horário e um lugar mais reservado para conversarmos melhor. Gostaria que me passasse seu número, queridinha, por favor!
Taís tira o seu óculos de grau da bolsa e o bota no rosto, deixando seus olhos imensos. Ela pega o celular e começa a digitar o número usando apenas a unha gigante do dedo indicador, fazendo uma asmr enquanto digita.
Taís: Parfait! Vou entrar em contato a qualquer momento, se cuida!
Maria de Fafá: Eu que agradeço, não é sempre que uma jovem velha senhora bondosa e bilionária bate no nosso trampo pedindo ajuda.
A porta atrás de Maria de Fafá se abre e SOLange flagra a cena.
SOLange: Fafá? Dona Taís?
A imagem fica alternando entre os rostos das três, tensas.
(CENA 10: FÁBRICA & CONFEITARIA LARICÃO/INT./MANHÃ)
A inauguração bomba, vários clientes aparecem pedindo os deliciosos bolos de Larica da Paz, a mulher fica emocionada com a explosão de vendas.
Larica: Estou lisonjeada com o sucesso, com muita fé eu vou continuar subindo. Assim como a pomba do Ivan.
Entre os diversos clientes, uma pessoa se destaca no meio. Larica olha para esta pessoa com emoção, ela fica espantada.
Larica: Nô?
Nô sorri, amostrando todos os seus 41 dentes de tubarão. Ela age com falsidade, tentando parecer meiga e doce, e também arrependida.
Nô: Oi mamãe, tudo bem? Vi que um post estava anunciando a inauguração do seu novo negócio e decidi te prestigiar neste dia tão feliz para a senhora.
Larica (emocionada): Nossa, filha! Eu não estava esperando por isso. Fico muito feliz que tenha vindo. E a sua irmã?
Nô: A Fafá? Ai, a gente não têm se falado muito. Sabe, mãe, andei avaliando melhor e não concordo com algumas ideias da minha irmã, acho que a gente não pode ficar assim, longe de você.
Larica: Vocês se desentenderam?
Nô: Não é bem isso… Enfim mãe, fico feliz que a senhora esteja conseguindo dar a volta por cima.
Larica (emocionada): Oh minha filha, você não sabe o quanto isso me deixa feliz. Vem, me dá um abraço.
Larica abraça a filha. Close no rosto de Nô, com um sorriso maligno.
CONGELAMENTO EM NÔ
ENCERRAMENTO AO SOM DE “7 RINGS - ARIANA GRANDE”
