O ÚLTIMO UIVO DOS LOBOS
escrita por Raquel Assunção
Abertura
capítulo 4
Cena 1- Delegacia. Escritório do Delegado Santana. Manhã. Int.
Manchetes de jornais estampam o início do capítulo, notícias sensacionalistas, todos se aproveitando da tragédia. A voz imponente do Delegado se faz presente enquanto as manchetes preenchem esse início de capítulo.
Delegado Santana: Nós precisamos ser rápidos, mas seguros das nossas respostas. Esse crime tem muito mais por trás, qualquer erro pode ser fatal na investigação. A tragédia fascina as pessoas, e esse crime é o palco perfeito para a mídia explorar.
Júlia: Sim, com certeza. Não vai ser fácil de investigar. As câmeras da noite do crime foram desativadas. Todos parecem que tinham motivos para matar o Gregório.
Delegado Santana: Vamos repassar as informações que temos até agora. (pega a autópsia do corpo) A morte ocorreu entre 00h30 e 1h da manhã, sinais de tortura podem ser encontrados por toda a extensão do corpo. Ele foi atingido por golpes de faca no abdômen, também foram distribuídos socos no rosto, que o desfiguraram. O órgão genital foi mutilado…
Júlia: Bom, concluímos então que quem fez isso queria que ele sofresse… Muito.
Cena 2- Sala de interrogação. Int.
O ambiente é frio, escuro, sombrio, a tensão domina o local. Uma mesa no centro da sala separa a investigadora dos interrogados. Há apenas uma lâmpada acesa deixando tudo mais sombrio.
Atenção: as cenas não seguirão uma ordem correta, os interrogatórios não serão separados cena por cena, um vai complementar o outro, sem aviso prévio.
Júlia: Vamos lá. Qual era a sua proximidade com a vítima ?.
A câmera revela Honório.
Honório (frio): Éramos amigos.
Júlia: Além de amigos, vocês também eram sócios na Construtora Castanhari, correto ?.
Agora quem responde é Lázaro.
Lázaro (triste): Sim… Embora eu seja sócio majoritário, porque detenho a maioria das ações, ele e o Honório eram sócios também.
Júlia: Como era a relação entre vocês três ? Se conheciam desde a juventude, cresceram juntos, se formaram… Tudo juntos.
Lázaro: Eu era o mais pobre do trio (nostálgico). Nós nos conhecemos na faculdade, eu já era casado e trabalhava para sustentar minha família. Ele sempre teve aquela postura arrogante. Mas ele não me tratava tão mal, nós nos dávamos bem sim.
Honório; O Gregório, como eu posso dizer… Ele sempre foi expansivo, carismático, caótico, irresponsável. Éramos do mesmo mundo. Acabou que sempre nos entendemos bem.
Lázaro: Sempre teve aquela rixa entre o Honório e o Gregório. Acho que porque eles eram do mesmo mundo, e o Honório se sentia ressentido, passado para trás ao ver as conquistas do amigo. O Gregório passava por cima de todo mundo, não se importava com o que falavam, já o Honório sempre viveu mais para agradar aos outros.
Júlia: Quanto a Construtora, como vocês se dividiam? Como se deu essa associação entre vocês?.
Honório: Lázaro sempre foi ambicioso, queria mais do que podia. Era questionador e estudioso. Ele começou a Construtora Castanhari assim que se formou. Eu fui trabalhar na Europa durante muitos anos, o Gregório não queria saber de negócios, só queria gastar. Até que ele se juntou ao Lázaro e investiu, aí que o negócio foi pra frente. Só depois que o negócio valia a pena que eu entrei e comprei umas ações.
Lázaro: Eu era muito bom no que fazia, modéstia à parte. Quando já estava “famosinho” na classe média, decidi abrir meu próprio negócio. Não demorou para que eu subisse na vida e me tornasse o mais bem sucedido do trio. O Gregório investiu quando estava começando a ganhar fama. Depois de muitos anos que o Honório entrou para o time de sócios.
Júlia: O seu marido alguma vez comentou algo sobre sentir inveja dele ?.
Miranda (defensiva): Nunca! O Honório era muito mais honroso que ele.
Dona Mari: Mas nunca! Meu marido sempre foi superior a ele.
Júlia: Qual a sua relação com a vítima?.
Lorena, esbanjando seu luxo, presta seu depoimento.
Lorena: Tínhamos uma amizade… Com direitos, se é que me entende.
Júlia: Nos atentando ao dia do crime, a festa começou oficialmente às 21h45, como foi a festa ?.
Lázaro: Caótica, como sempre eram as festas dele.
Honório: Regada a bebidas, muito luxo, e gente exótica.
Dona Mari: Horrível, tive uma briga com minha enteada alcoólatra, fiquei toda marcada. Mas ela levou também.
Miranda: As festas do Gregório sempre eram cheias de espetáculo né, quer dizer, muita bebida, às vezes rolava uma droguinha por lá também.
Júlia: Onde estava entre 00h30 e 1h da manhã ?.
Honório: Com minha esposa, no meu quarto.
Dona Mari: Estava no banheiro, me preparando para dormir.
Miranda (gagueja um pouco): Nessa hora… Deixa eu tentar me lembrar… Ah sim, estava ajudando a Mari.
Lázaro: Estava com meu genro no quarto da minha filha.
Júlia: Os depoimentos de vocês tem que bater, porque não podemos contar com as câmeras de segurança, elas foram desligadas nessa hora.
Miranda: Sério? Que coisa né.
Júlia (segurando uma bolsa plástica transparente com um acessório usado em volta do pescoço): Reconhece ? É seu ou de outra pessoa ?.
Dona Mari: Não sei de quem é.
Lázaro: Parece com os que o Honório usa de vez em quando.
Miranda: Meu não é, nem sei a quem pertence.
Honório: Nunca vi.
Júlia (olhar frio, de quem sabe o que está fazendo): Lembre-se que as câmeras de segurança foram desativadas à noite, mas o resto do dia continuaram ligadas e funcionando normalmente. Tem certeza que isso não é seu ?.
Miranda: Até parece com uns que eu tenho, mas não é meu, definitivamente não é.
Júlia: Qual a marca que você compra ?.
Miranda: Le clapet, marca francesa de maior refinamento.
Júlia: Que engraçado… É justamente dessa marca. Algo a dizer ?.
Intensa troca de olhares. Instantes se passam.
Júlia(jogando verde): Uma testemunha afirmou ter visto você por volta das 23h55 próximo a mata. Verdade ?.
Lázaro: Eu ? Absurdo ! Mentira.
Dona Mari (nervosa): Eu ?... Não… Quem disse isso ? Só pode ter sido a Nathália, claro, tem que ser aquela puta bêbada. Nessa hora eu devia estar indo pro quarto.
Honório (defensiva): Mentira, o que eu iria fazer numa mata, quase meia noite ? Absurdo! Essa hora estava conversando com o Lázaro na festa.
Miranda: Claro que não! Eu devia estar bêbada, dançando, sei lá, mas não estive na mata, eu juro! Não tenho nada a ver com a morte daquele acéfalo.
Júlia: Certo. Nas câmeras de segurança percebemos um certo inquietamento de sua parte, muitas ligações, nervosismo, comportamento estranho… O que explica ?.
Dona Mari (sorri ironicamente): Ai, minha filha, você está jogando verde, eu sei essa técnica. Não tive nenhum comportamento diferente do meu habitual.
Lázaro: Eu ? De jeito maneira nenhuma, a senhora está equivocada!... Talvez vocês tenham percebido as minhas ligações mesmo, mas sou um empresário, homem de negócios.
Honório: Não tive nenhum comportamento como o descrito… Suspeito errado, investigadora (sorri provocativo).
Miranda (se enrolando): Ah, pode ter sido as ligações da minha irmã, ela sabe que eu bebo muito, e posso passar mal.
Júlia: Claro, ninguém viu nada, ninguém escutou nada, todos inocentes.
Dona Mari: Inocentes até que se prove o contrário.
Júlia: Suspeitos até o culpado ser encontrado!.
Honório: Suspeitos ? (ri seco) Não há nada que me ligue ao crime, eu tenho amigos investigadores, sei como funcionam esses joguinhos psicológicos.
Júlia: Nos últimos meses, semanas, dias, percebeu algum comportamento estranho do Gregório? Ameaças, encontros secretos… Qualquer coisa que soasse fora do habitual.
Lázaro: Ele andava mais calado, distante, parecia desconfiar de todos. Soltava indiretas no ar como se nada, o clima ficava pesado e o grupo se dispersava! Ninguém entendia nada.
Miranda: Não, não, ele não estava estranho não. Se você perguntar a qualquer pessoa fora do nosso círculo, vai saber que ele era um homem autocentrado, frio, sabia de suas jogadas. Mas também eu nem convivia tanto assim com ele.
Honório: Não, ele sempre era muito fechado, vivia viajando, mandava um representante nas reuniões importantes, ou participava através de chamada de vídeo. Ele estava normal, nada estranho.
Dona Mari: Olha, estranho ele era, eu sempre achei. Sujeito esquisito, parecia mais um tarado. Lembro que à anos atrás ele ficava com umas brincadeiras estranhas com a Nathália… Inapropriadas é o termo mais correto. Mas nos últimos meses nós não convivemos muito.
Júlia: Quero que me esclareça esse ponto. E também me explique melhor isso (ela passa cópias de documentos a pessoa à sua frente).
Dona Mari, pela primeira vez durante a conversa, sente um calafrio percorrer por seu corpo. Júlia percebe uma inquietação.
Dona Mari: Éh… Isso…
Júlia: Como explica que Gregório de Medeiros tenha comprado parte da sua empresa secretamente, há meses, sem conhecimento, nem divulgação pública de tal feito ? E não desminta, fontes confiáveis comprovaram que a ação se deu por baixo dos panos.
Miranda (nervosa, a voz trêmula): Então… Essa empresa é minha e da Mari, nós somos sócias, o Honório me convenceu em investir minha herança aí. E o Gregório comprou algumas ações há pouco tempo.
Dona Mari: Foi isso. Ele mal comparecia às reuniões, tampouco anunciou, realmente foi na surdina. Não falou com o Lázaro, nem com o Honório, chegou e comprou.
Júlia: Eu acho curioso como ele não comentou com ninguém algo tão importante como a compra das ações da empresa das esposas dos amigos dele, conveniente, não ? (ri de lado) Agora me explique aquilo que você contou.
Dona Mari: Quanto às brincadeiras “inapropriadas” do Gregório, não tem muito que explicar. Ele pegava muito nela, ela ficava desconfortável, ela não gostava de ficar perto dele, ele era pedante mesmo, ninguém queria ficar perto. É isso.
Close nos rostos dos quatro interrogados; Lázaro, Dona Mari, Miranda e Honório, todos suspeitos do mesmo crime.
A tela se divide em quatro partes, cada suspeito com uma expressão diferente, frente a investigadora.
Lázaro (defensivo): Só sei que eu sou inocente.
Honório (indiferente): Eu não matei o Gregório.
Dona Mari (fria): Seria incapaz de tamanha maldade.
Miranda (o medo dominando): Você tem que acreditar em mim! Jamais cometeria um crime bárbaro desses.
Júlia: Não há verdade que não venha à tona. Nem crime insolucionável… Um de vocês está mentindo… E eu vou descobrir ! Seja lá quem for, eu vou descobrir.
Encerramento

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