GATO & SAPATO - CAPÍTULO 27 (ÚLTIMAS SEMANAS)
criada e escrita por SINCERIDADE
CENA 01: RESTAURANTE/INT./MANHÃ
INSTRUMENTAL: H.M - MU CARVALHO
Adelaide ainda encara Alyra, totalmente nervosa e desconcertada.
ALYRA (sorrindo): Não vai me cumprimentar?
ADELAIDE (caindo em si): Ah, claro, claro. Meu Deus, que deselegante da minha parte! Bom, como você já deve saber, eu sou a Giulia Jolie, influenciadora digital na área de marketing e publicidade de empresas do Brasil e do mundo. E essa é Daisy Ferrari, minha assistente.
ALZIRA (estendendo a mão): Prazer, Alyra.
Alyra também estende a mão e cumprimenta Alzira com um sorriso largo.
ALYRA: O prazer é todo meu!
ADELAIDE: Bom, vamos nos sentar? Eu quero que você me conte tudo sobre o que está acontecendo com a lanchonete onde você trabalha. Eu vi que, vocês foram vítimas de uma armação, não foi? Eu vi os vídeos na internet.
ALYRA: É. A minha madrasta me odeia e decidiu sabotar o local onde eu trabalhava por pura birra. Não sei se te interessa, mas eu já fui uma pessoa muito rica. Meu pai era dono de uma empresa de cosméticos famosa, a Bella Glamour, além da mansão onde morávamos, carro de luxo, enfim… mas ele acabou morrendo e deixou tudo pra amante e pra filha bastarda.
ADELAIDE (boquiaberta): Mas que velhinho safado! (percebe que falou demais, e se recompõe) Me desculpa, Alyra… foi totalmente inadequado e deselegante essa minha fala.
ALYRA (sem se ofender): Relaxa. Já ouvi coisa pior.
ADELAIDE (respira): Então… a lanchonete não é sua?
ALYRA: Não. É da minha tia. Meia-irmã do meu pai. Eu só trabalhava lá por obrigação. O testamento pedia que eu vendesse salgados no período de um ano.
ADELAIDE: Entendi, Alyra. Bom, já que a lanchonete tá fechada e provavelmente não vai abrir tão cedo, eu posso entrar com um processo contra a sua madrasta e pedir ao juiz a reabertura do local, além de uma indenização pelos danos morais e financeiros causados a vocês.
ALYRA: Eu até tinha pensado nisso, mas eu mal tenho dinheiro pra comprar uma coxinha, quem dirá um advogado… além de que, a justiça não funciona com quem é rico.
ADELAIDE (olhando firme, confiante): Eu vou te ajudar a reconquistar o que te tiraram, pode confiar em mim.
ALYRA (desconfiada): Será mesmo? E se você for alguém que veio a mando da Violeta pra tentar acabar de vez com a minha raça?
ADELAIDE (rindo): Que bobagem! Eu não trabalho a mando de ninguém, apenas faço o que precisa ser feito.
ALYRA: Então tá, eu aceito a sua ajuda. (levanta-se) Bom, acho que já falei demais por hoje…
ADELAIDE (sorrindo): Não, não… foi ótimo. E olha, vamos marcar outro encontro, agora na tal lanchonete. Quero ver de perto o lugar e te ajudar a colocar tudo nos trilhos. Vai dar tudo certo!
ALYRA (sorrindo): Tá certo… podemos combinar sim.
ADELAIDE (fazendo um gesto de confiança): Combinado. Agora vai, e se cuida.
ALYRA (acenando): Pode deixar. Até lá!
Elas se abraçam e Alyra sai, Adelaide observa a filha se afastar. Close no rosto dela, que demonstra emoção contida e alívio.
SONOPLASTIA: VOCÊ VAI VER - MAIARA & MARAÍSA
Ao som da música citada, são mostradas imagens de São Paulo anoitecendo.
CENA 02: BARZINHO/INT./NOITE
A música continua a tocar, agora, no ambiente. Alyra e Silas estão sentados em uma mesa de bar, comendo uma porção de frango frito enquanto tomam algo. Alyra já contou a ele sobre o encontro com Giulia Jolie.
SILAS: Familiar?
ALYRA: É… não sei explicar. Não é só o rosto. É o jeito de falar, de me olhar… parecia que ela já me conhecia.
SILAS (desconfiado): Estranho isso, não acha?
ALYRA: Estranhíssimo! Mas, ao mesmo tempo, ela quis me ajudar. Falou em processo, indenização… como se fosse tudo muito simples.
SILAS: Advogado bom costuma ser caro. E quem oferece ajuda assim, do nada, geralmente quer algo em troca.
ALYRA: Eu sei. Por isso fiquei com o pé atrás. Até cheguei a perguntar se ela trabalhava pra Violeta.
SILAS: E o que ela disse?
ALYRA: Riu. Disse que não trabalha a mando de ninguém… que só faz o que precisa ser feito.
Silas para de comer, sério.
SILAS: Essa frase não me tranquiliza nem um pouco.
ALYRA: Amor, o que tiver de acontecer vai acontecer! A Violeta, ela não vai descansar enquanto não me destruir, mas se ela estiver por trás dessa tal de Giulia Jolie aí, ela vai se arrepender amargamente! (pausa) Mas vamos deixar rolar. Minha tia merece a lanchonete reconstruída, e eu espero que isso não seja armação.
Silas a encara, preocupado, mas admira a coragem.
SILAS: Só não enfrenta isso sozinha. Você sabe que eu tô aqui, não sabe? Vou estar sempre junto com você.
ALYRA (segura a mão dele): Claro. Eu também tô aqui.
Os dois se encaram e trocam carícias. Alyra sorri. Silas se inclina para beijá-la, quando:
NORMÉLIA (TATÁ WERNECK): ALYRA!!!
Alyra e Silas se assustam. Antes que reajam, Normélia surge na porta do bar, carregando três malas, uma bolsa enorme e uma sacola rasgada, tudo prestes a cair.
NORMÉLIA: AI MEU DEUS AINDA BEM QUE TE ENCONTREI!
ALYRA (confusa): Desculpa… quem é você mesmo?
NORMÉLIA (chocada): Como assim quem sou eu?! Normélia. Normélia da Conceição Soares. Irmã da Noêmia.
ALYRA (se recorda e se levanta, abraçando-a): Ahh, claro! Seja muito bem vinda, Normélia. Noêmia falou de você quando foi embora. E como ela está? Que saudades da minha bixinha…
NORMÉLIA: Tá bem. Ela voltou pro Ceará porque eu sou um desastre.
ALYRA (confusa): Como assim?
NORMÉLIA: Eu não levo o menor jeito pra cuidar de mainha. Queimo comida, esqueço remédio, confundo horário… A Nonô disse que se eu ficasse lá, mainha iria parar lá no pronto socorro mequetrefe que tem na cidade.
Silas ri discretamente.
NORMÉLIA: Aí ficou decidido: ela volta pro Ceará pra cuidar da mainha, e eu venho tentar a vida aqui. (pausa) Eu já sei de tudo, tá? Nonô me contou sobre o que aconteceu na sua vida, sobre a tal crocodila que te odeia, sobre a robô esquisita... Tudo! Pode contar comigo que eu vou te ajudar no que precisar, visse?
ALYRA (emocionada, rindo ao mesmo tempo): Noêmia não perde tempo mesmo, né? Já espalhou minha vida inteira pelo Brasil… Mas que bom, que bom que eu posso contar com você, Normélia. Muito obrigada , de coração. (olhando as malas) Menina… isso tudo é seu?
NORMÉLIA (ofegante): E ainda deixei metade no ônibus. Eu trouxe só o essencial… três vestidos, um ventilador e a airfryer.
ALYRA (rindo): Vem. Você vai dormir lá na casa da minha tia hoje. Suas malas tão pesadas demais pra ficar arrastando por aí.
NORMÉLIA (aliviada): Graças a Deus, porque minhas costas já pediram demissão faz tempo.
ALYRA: Amanhã cedo, a gente resolve sua ida pra mansão.
NORMÉLIA (animada, cochichando): A mansão da crocodila, né?
ALYRA (séria): Isso! Da Violeta. E Normélia… cuidado. Aquela mulher é perigosa.
NORMÉLIA (abre um sorrisão): Eu sou o triplo, querida!
Eles riem e continuam a conversar e beber. A câmera se afasta lentamente.
HORAS DEPOIS…
CENA 03: MANSÃO TRAJANO/MADRUGADA
INSTRUMENTAL: SUSPENSE ETHEREO #1 - MU CARVALHO
A câmera desliza lentamente pelo quarto até encontrar Rúbia dormindo. Ao lado dela, Rafael está acordado, de olhos abertos, fixos no teto. Ele respira fundo, calculista. Com cuidado, Rafael se vira, afastando o lençol sem fazer barulho. Ele calça os sapatos nas mãos, caminha até a porta e sai, fechando-a sem emitir barulho.
CORTA PARA: JARDIM DA MANSÃO/MADRUGADA
Rafael cruza o jardim olhando para todos os lados. Ele para diante do portão, olha para trás, certifica-se de que ninguém o vê, e abre o portão..Do lado de fora, dois capangas aguardam. Um deles carrega uma mochila pesada. O outro olha nervoso para os lados.
CAPANGA 1 (baixo): É rápido, hein? Ninguém pode ver.
Rafael apenas acena com a cabeça. Eles entram. O portão se fecha.
CORTA PARA: GARAGEM
O carro de Violeta está ali, parado onde sempre fica. Rafael tira do bolso a chave do carro e a gira lentamente, destravando o veículo. Os capangas abrem o capô. Um deles retira o explosivo da mochila. Rafael se aproxima, observa, impaciente.
Ele mesmo se abaixa e ajuda a encaixar o dispositivo. O visor pisca em vermelho. Após o serviço estar completo, Rafael retira um envelope grosso do bolso do casaco e entrega o dinheiro aos capangas ali mesmo, sem dizer nada. Um dos homens confere rapidamente e faz um sinal de positivo com a cabeça. Rafael apenas vira as costas. Os capangas se afastam em silêncio, desaparecendo pelo jardim. A câmera foca no carro de Violeta.
SONOPLASTIA: CAN’T TAME HER - ZARA LARSSON
Ao som da música citada acima, São Paulo amanhece ensolarada.
CENA 04: MANSÃO TRAJANO/INT./MANHÃ
Rúbia está na mesa tomando café da manhã, enquanto Violeta desce as escadas com elegância. Violeta se aproxima da filha e lhe dá um beijo na testa.
VIOLETA (enquanto se senta): Isso mesmo, filhinha, come mesmo. Meu neto precisa nascer forte e saudável igual a mim.
RÚBIA: Ué… achei que você tava odiando essa história de neto. Nunca te vi se apegar a nada na vida como tá se apegando ao meu filho, que nem nasceu ainda. (Pausa) Mas vem cá… que horas você chegou ontem e onde estave? Eu acordei, fui no seu quarto pra gente conversar e você não tava lá.
Violeta não responde de imediato. Ela morde a torrada, mastiga devagar e dá um sorriso de canto.
VIOLETA (se enrola): Ué… fui dar uma volta, espairecer… não pode? E que interrogatórios são esses?
RÚBIA: Não vai me dizer que…
VIOLETA:Isso mesmo, filhinha, fui me encontrar com o Jonas. No motel.
RÚBIA: Jonas? O pai do namorado da Alyra? AQUELE POBRETÃO?
Violeta cruza as pernas, tranquila.
VIOLETA: Cuidado com o desprezo, Rúbia. Às vezes, quem parece pequeno carrega as maiores bombas.
Rúbia começa a rir, enquanto Violeta bebe um gole de café, sem graça.
VIOLETA (mudando de assunto): Cadê seu maridinho?
RÚBIA: Não desceu ainda.
VIOLETA: Deve estar cansado… homens ficam exaustos quando fazem coisas erradas.
Rúbia estranha a frase.
RÚBIA (sem entender): Como assim? Não entendi o que você quis dizer.
VIOLETA: Nada, filha. Não é nada. Nadinha
Violeta leva a xícara à boca, venenosa.
CORTA PARA: QUARTO DE RAFAEL E RÚBIA/INT./MANHÃ
Rafael se encontra debruçado na janela de seu quarto, esperando o momento de Violeta sair da mansão e ir na garagem, em direção ao carro. Ele observa de longe, ansioso para seu plano ser concluído.
CORTA PARA: SALA DE ESTAR/INT./MANHÃ
RÚBIA: É hoje que a tal irmã da Noêmia chega, não é? Meu Deus, mais uma louca vindo morar nessa mansão.
Violeta pousa a xícara devagar sobre a mesa.
VIOLETA (plena): Sim, a moça chega hoje. E trate de ser educada, Rúbia. Não quero escândalos logo cedo.
RÚBIA: Mãe… você tá estranha. Diferente. Parece até outra pessoa. A noite foi boa mesmo, hein? Tá renovadíssima.
VIOLETA: Que bobagem! Eu sou eu e sempre serei eu, amor.
Violeta se levanta.
VIOLETA (pegando a bolsa): Vou até a Bella Glamour. Preciso resolver umas pendências da documentação da transferência.
Rúbia se levanta junto, entusiasmada.
RÚBIA: Eu vou com você.
Violeta se vira rápido, firme.
VIOLETA: Não. (Pausa, baixando o tom) Não vai te fazer bem enfrentar esse trânsito de São Paulo, filha... O médico disse que você precisa descansar, não lembra? Fica aí cuidando do meu neto. Jajá estarei de volta.
Ela se aproxima, segura o rosto da filha com as duas mãos e lhe dá um beijo na testa.
VIOLETA: Eu te amo, Rúbia. Nunca esquece isso.
Rúbia fica sem reação, engolindo seco.
RÚBIA: Por que você tá falando assim? Que maluquice é essa?
Violeta não responde. Apenas sorri, vira de costas e começa a caminhar em direção à porta.
INSTRUMENTAL: SUPERTENSA 90 GRAUS - MU CARVALHO
CORTA PARA: QUARTO DE RAFAEL E RÚBIA/INT./MANHÃ
Ainda debruçado na janela, Rafael espera de longe Violeta surgir pela porta e ir em direção ao seu carro. Lá embaixo, a porta se abre. Violeta aparece, elegante, e segue em direção ao veículo.
RAFAEL (ansioso, perverso): É agora! Aproveite seus últimos segundos de vida, Violeta.
Violeta, calma, se aproxima cada vez mais de seu carro, em câmera lenta. Ela então chega ao lado do carro, abre a bolsa, procura a chave e destranca a porta do veículo. Rafael se inclina ainda mais na janela, com os olhos grudados nela. Lá embaixo, ela fecha a porta com calma, coloca o cinto de segurança e encaixa a chave na ignição. Ao girar a chave, o carro vira uma bola de fogo. Vidros estouram, e o impacto sacode a garagem inteira. A fumaça sobe rápido, preta, assustadora.
Rafael se afasta da janela, vitorioso. A câmera congela no veículo, ainda explodindo.
ENCERRAMENTO:

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